Provedor de Justiça
Recomendação n.º 84/A/1995
- Data
- 1995-01-01
- Meio processual
- RECOMENDAÇÃO
- Decisão
- Acatada
- Emitente
- Presidente do Conselho Directivo da Escola Preparatória de Arcozelo - Vila Nova de Gaia
- Descritores
Texto integral (911 palavras)
Presidente do Conselho Directivo da Escola Preparatória de Arcozelo - Vila Nova de Gaia
R-1910/94
Rec. nº 84/ A/95
Data:1995-09-13
Área: A4
Assunto:FUNÇÃO PÚBLICA - FALTA - JUSTIFICAÇÃO - EXERCÍCIO DO DIREITO DE GREVE.
Sequência:Acatada
I-
1.Tendo sido aberto na Provedoria de Justiça um processo em que é objecto de queixa a injustificação de uma
falta dada no dia 24 de Março de 1994, pelos funcionários da Escola Preparatória de Arcozelo .... e ... e
afirmando- se, na reclamação, que não obstante os funcionários se encontrem abrangidos por um pré- aviso de
greve emitido pela Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública, o Conselho Directivo da Escola
lhes considerou injustificadas as faltas, foram pedidos esclarecimentos a V.Exa..
2.Foi por V. Exa enviada resposta que afirmava ter sido pedida à Direcção- Geral da Administração Pública
informação sobre o assunto, bem como ao Exmº Sr. Coordenador do Centro da Área Educativa do Porto.
Junto com a sua resposta, enviou V. Exa a que, sobre o assunto, havia sido dada pela Direcção Regional de
Educação do Norte, não tendo sido porém enviada a este Orgão do Estado a resposta remetida pela Direcção-
Geral da Administração Pública.
3. Assim, foi solicitado ao Exm ° Sr. Director- Geral da Administração Pública o envio de cópia da resposta
prestada a essa Escola Preparatória de Arcozelo e que, caso ainda não tivesse sido dada, fosse providenciado
no sentido de o ser o mais brevemente possível.
4.Através do ofício n ° ..., de 2 de Agosto p.p., respondeu o Exmº Sr. Director- Geral, informando ter a
resposta da DGAP sido prestada a esse estabelecimento de ensino com o ofício n ° ..., de 9/5/94 (tendo ainda
enviado cópia do referido ofício).
II-
Analisada toda a documentação junta no processo e ao caso aplicando o Direito vigente, retirei as seguintes
conclusões:
1.Foram incorrectamente consideradas como injustificadas as faltas dadas pelos funcionários da Escola, pois:
1.1. A Lei n ° 65/77, de 26 de Agosto, é aplicável a esses funcionários, visto nunca ter sido publicado o
regime especial a que se refere o artigo 12° do diploma;
1.2. Tendo o pré- aviso de greve sido emanado de acordo com os preceitos legais reguladores da matéria,
inclusos na Lei n °
65/77, de 26 de Agosto, isto é, tendo a greve sido declarada por uma associação sindical competente, a
Federação Nacional
dos Sindicatos da Função Pública, nos termos do artigo 2°, n ° 1, do citado diploma e com a antecipação
legalmente exigida,
produziram- se "ope legis" os efeitos do artigo 7°, ficando os trabalhadores aderentes desvinculados do dever
de subordinação e de assiduidade.
1.3. Não podem, assim, ser tais trabalhadores prejudicados na sua antiguidade e nos efeitos decorrentes da
situação de
suspensão, realçando o n ° 3 do artigo 7°, que a contagem de tempo de serviço não pode ser afectada por tal
motivo. Ora,
ao considerar- se injustificada a falta dada pelos funcionários, são exactamente essas as consequências legais.
1.4. Mais se conclui que os trabalhadores, ao serem detentores de uma total liberdade no que diz respeito à sua
adesão a uma greve, não estão vinculados nem a informar sobre a sua adesão, nem sobre a sua não- adesão,
salvaguardando portanto a lei todos os que a ela aderirem, exigindo- se apenas aos não- aderentes, que violem
o dever de assiduidade, a justificação da falta pelos meios idóneos para tanto. E isto porque, por vontade
própria, o trabalhador tem o direito de se "afastar" da greve a que não pretende aderir.
1.5. Por outro lado, não se argumente com a possibilidade que o n ° 2 do artigo 19° do Decreto- Lei n °
497/88, de 30 de Dezembro dá ao dirigente do funcionário, de lhe poder exigir a apresentação de meios
adequados à prova da ocorrência dos motivos justificáveis das faltas, pois nesta situação (adesão a uma greve)
não cabe, sequer, esta exigência porquanto a declaração do funcionário é por si só suficiente para que se
produzam os efeitos da suspensão, já referidos, realçando- se, como é evidente, a suspensão do direito ao
vencimento.
Além do mais, já que tal prova poderia revelar- se impossível de ser feita e seria claramente violadora dos
princípios enformadores do direito à greve sempre se concluíria ser impossível a invocação de tal disposição.
Em caso de dúvida do dirigente do funcionário, cabe ao serviço apurar a legalidade da greve, não podendo a
prova ser exigida ao funcionário.
1.6. Esta é, sem margem para dúvidas, a interpretação a dar às normas relativas ao exercício do direito à
greve, pelo que a injustificação da falta dos funcionários se mostra ilegal, porquanto se revela directamente
violadora do disposto no artigo 10°, da Lei n ° 65/77, de 26 de Agosto e, ainda, da globalidade do espírito
enformador da Lei da Greve, que verte, no seu sentido mais amplo, o direito constitucionalmente garantido no
Artigo 57°, n ° 1, da Constituição da República Portuguesa.
1.7. Não posso deixar ainda de sublinhar o meu desacordo com a posição assumida pelo Exm ° Sr. Director de
Serviços da
Direcção Regional de Educação do Norte, quanto ao assunto, pelo que informo V. Exa ter também, no âmbito
deste processo,
feito idêntica Recomendação àquela Direcção Regional.
Pelo exposto, RECOMENDO a V.Exa, Senhora Presidente do Escola Preparatória de Arcozelo, que considere
justificadas as faltas dadas pelos Exm °s Srs. ......e ......, dia 24 de Março de 1994, com fundamento em
exercício do direito de greve.
O PROVEDOR DE JUSTIÇA
José Menéres Pimentel