Provedor de Justiça
Recomendação n.º 71/A/1999
- Data
- 1999-01-01
- Meio processual
- RECOMENDAÇÃO
- Decisão
- Não Acatada
- Emitente
- Presidente da Câmara Municipal de Cascais
- Descritores
Texto integral (791 palavras)
Presidente da Câmara Municipal de Cascais
R-2396/96
N.º 71/ A/99
1999.09.29
Área: A4
Assunto:FUNÇÃO PÚBLICA - REESTRUTURAÇÃO DE CARREIRAS - MUNICÍPIO - PARIDADE
RETRIBUTIVA - NULIDADE DE DESPACHO.
Sequência: Não Acatada.
1. Foi apresentada nesta Provedoria de Justiça uma reclamação onde foi posta em causa a legalidade do
Despacho do Vereador do Serviço Municipal de Recursos Humanos de 10.04.1999, publicado no Diário da
República, III Série nº 122, de 26.05.1999, página 11526, através do qual foram reclassificados na categoria
de Chefe de Secção dez funcionários, tendo ao tempo cinco deles a categoria de Assistente Administrativo
Especialista e outros cinco a categoria de Assistente Administrativo Principal.
2. Como fundamento da aludida reclassificação foi indicado o artº 51º do Dec- Lei nº 247/87, de 17 de Junho.
3. Como decorre do disposto no artº 51º, nº 2, do diploma citado, a reclassificação consiste na atribuição da
categoria diferente daquela de que o funcionário é titular, de outra carreira, e exige que os funcionários
beneficiários reunam os requisitos legalmente exigidos para a nova carreira.
4. Decorre, ainda, do disposto no nº 4 do mesmo preceito que a reclassificação só é possível existindo
determinada paridade retributiva entre a categoria de origem e a categoria em que se opera a reclassificação.
5. Em primeiro lugar, é questionável que a categoria de Chefe de Secção se integre em outra carreira se se
tiver em conta o campo de recrutamento previsto no artº 5º do Dec- Lei nº 412- A/98, de 30 de Dezembro.
6. Embora não resulte do artº 8º do Dec- Lei nº 404- A/98, de 18 de Dezembro, que a categoria de Chefe de
Secção se enquadra na carreira de Assistente Administrativo, a verdade é que, na Administração Local, tal
categoria constitui lugar de acesso exclusivo da categoria de assistente administrativo especialista, sendo certo
que se considera, para todos os efeitos legais, cargo de chefia da carreira administrativa por se manter em
vigor o artº 3º, nº 4 do Dec- Lei nº 465/80, de 14/10 (vide artº 35º, alínea a) do Dec- Lei nº 404- A/98).
7. Mas, ainda que não fosse questionável a caracterização da situação, quer se tratando da mesma ou de
diferente carreira, dúvidas não existem quanto à inexistência da paridade retributiva entre a categoria de
origem e categoria de reclassificação.
8. E para clarificar a referida paridade retributiva há, apenas, que fazer apelo ao disposto no artº 18º, nº 1 do
Dec- Lei nº 353- A/89, de 16/10, ou seja, levar em conta o índice remuneratório correspondente ao escalão 1
da categoria de origem e o escalão 1 da nova categoria.
9. Ora, analisado o Anexo ao Dec- Lei nº 404- A/98, de 18 de Dezembro, concluímos que ao escalão 1 da
categoria de Assistentes Administrativos Especialistas corresponde o índice 260, que ao escalão 1 da
categoria de Assistente Administrativo Principal corresponde o índice 215, e que ao escalão 1 da categoria de
Chefe de Secção corresponde o índice 330.
10. Inexiste, assim, qualquer paridade retributiva entre as categorias em causa, e, por isso, não estava no caso
preenchido o condicionalismo legal que permite a reclassificação.
11. Não encontro grandes argumentos de autoridade no Acórdão do Tribunal de Contas, proferido em
21.10.97, não só por ter sido proferido ao abrigo da outra legislação, e, ainda, por dizer respeito a funcionários
cujas categorias de origem são desconhecidas.
12. Considero, assim, que o Despacho em causa ao permitir a reclassificação dos dez assistentes
12. Considero, assim, que o Despacho em causa ao permitir a reclassificação dos dez assistentes
administrativos violou o princípio constitucional de o recrutamento para a função pública deve ter lugar, por
via de regra, através do concurso (cfr. artº 47º, nº 2, in fine, da Constituição da República Portuguesa), além
de ser anulável por estar ferido do vício de violação da Lei ao desrespeitar o disposto no artº 51º, nº 4 do Dec-
Lei nº 247/87.
13. Afigura- se- me, no entanto, que a nomeação sem concurso torna o acto nulo, nos termos do artº 88º, nº 1
alínea f) do Dec- Lei nº 100/84, de 29 de Março.
Na verdade, como resulta do artº 133º, nº 1 do Código de Procedimento Administrativo, aquele normativo não
se mostra prejudicado, o que vem sendo pacificamente defendido na jurisprudência e na doutrina (ver por
todos Código de Procedimento Administrativo, anotação 29 ao artº 133º, de Santos Botelho e Outros, 2ª
edição e, ainda, C.P.A., Anotado, de Mário Esteves de Oliveira e Outros, 2ª edição, pág. 640).
14. Nestes termos
RECOMENDO
que essa Edilidade declare a nulidade do Despacho de 10.4.99 da autoria do Senhor Vereador de Recursos
Humanos, que permitiu a reclassificação na categoria de Chefe de Secção a dez Assistentes Administrativos
(Especialistas e Principais).
O PROVEDOR DE JUSTIÇA
José Menéres Pimentel