Provedor de Justiça
Recomendação n.º 7/A/2003
- Data
- 2003-07-18
- Meio processual
- RECOMENDAÇÃO
- Emitente
- Processo: R-1714/97(A4)
Texto integral (1220 palavras)
Processo: R-1714/97(A4)
Recomendação: 7/A/2003
Data: 18.07.2003
Entidade visada: Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais
Assunto: Funcionária oriunda do Gabinete de Gestão do Fundo de Desemprego
e integrada no quadro de pessoal da Direcção-Geral dos Impostos.
Desajustamento funcional. Estagnação profissional. Reclassificação
profissional.
Assessor: Elisa Morgado
RECOMENDAÇÃO N.º 7/A/2003
[art. 20.º, n.º 1, alínea a), da Lei n.º 9/91, de 9 de Abril]
I
Foi organizado na Provedoria de Justiça o presente processo para apreciar a
situação funcional de XXXX, funcionária da Direcção-Geral dos Impostos
(DGCI).
Dos elementos obtidos ao longo da instrução, apuraram-se os seguintes factos
relevantes:
1. A referida funcionária é oriunda do Gabinete de Gestão do Fundo de
Desemprego e detentora da categoria de subinspectora de 2.ª classe da
carreira de subinspector, carreira que se desenvolve pelas categorias de
subinspector principal, de 1.ª e 2.ª classes, e de subinspector estagiário
(cfr. artigo 14.º, alíneas e) a h) do Decreto-Lei n.º 146/78, de 13 de
Dezembro, e mapa anexo, e artigo 46.º, alíneas h) e i) do Decreto-Lei n.º
48/78, de 21 de Março, e mapa anexo);
2. O Gabinete de Gestão do Fundo de Desemprego foi extinto pelo Decreto-
Lei n.º 40/86, de 4 de Março, cujo artigo 8.º determina que “o pessoal ao
serviço do Gabinete do Fundo de Desemprego será integrado, com
manutenção de todos os seus direitos, nos adequados serviços da
Administração Pública, incluindo institutos públicos que revistam a
natureza de serviços personalizados ou de fundos públicos dependentes,
designadamente, dos Ministérios das Finanças e do Trabalho e Segurança
Social”, mediante portaria de alargamento dos respectivos quadros de
pessoal;
3. Assim, ao abrigo da citada disposição legal e através da Portaria n.º
431/87, de 23 de Maio, esta funcionária, entre outros, foi integrada no
quadro de pessoal da DGCI e colocada na Direcção Distrital de Finanças
de Vila Real, com a categoria que detinha, isto é, subinspectora de 2.ª
classe;
4. Posteriormente, a Portaria n.º 376/89, de 29 de Maio, veio alterar a
distribuição dos lugares das categorias de subinspector principal, de 1.ª e
2.ª classes, previstos na referida Portaria n.º 431/87, de molde a
“possibilitar a progressão na respectiva carreira aos funcionários oriundos
do ex-Gabinete de Gestão do Fundo de Desemprego integrados na
Direcção-Geral das Contribuições e Impostos”, acautelando, como se
impunha, o direito de acesso na carreira de subinspector;
5. Porém, a Portaria n.º 663/94, de 19 de Julho, veio introduzir nova
alteração no quadro do pessoal da DGCI, o qual passou a prever apenas a
categoria uninominal de subinspector, e não as demais categorias em que
se estruturava a carreira em questão;
6. Em consequência, a funcionária limitou-se a progredir na escala que lhe
foi fixada para a categoria de origem, na qual atingiu entretanto o último
escalão, sem ter tido qualquer possibilidade de ascender na sua carreira,
permanecendo na mesma categoria há mais de quinze anos, numa situação
de completa estagnação profissional;
7. Por outro lado, desde a sua integração na DGCI, vem exercendo funções
inerentes à agora designada carreira técnica de administração tributária;
8. Pelo ofício n.º 533, de 24 de Março de 2003, o Gabinete de V. Exa. veio
informar que se encontra pendente de decisão uma proposta de
reclassificação profissional, ao abrigo do artigo 6.º do Decreto-Lei n.º
497/99, de 19 de Novembro, que abrange esta funcionária, a qual, no
entanto, face aos encargos que acarreta, aguarda uma melhor
oportunidade.
II
Tendo finalmente sido apresentada solução para o caso particular da funcionária
XXXX, que a reclamava há muito, é com grande apreensão que verifico que essa
solução está agora adiada, mercê dos encargos financeiros que implica, em face
do universo pessoal abrangido.
É por tal motivo que me dirijo a V. Exa., sublinhando que este caso exige
solução urgente e particular, pois não se trata apenas de mais uma situação de
desajustamento funcional, mas trata-se também e sobretudo de uma gravosa e
ilegítima situação de estagnação profissional criada e mantida pela
Administração, que, em consequência da alteração do quadro do pessoal da
DGCI introduzida pela Portaria n.º 663/94, de 19 de Julho, impediu durante anos,
e impede ainda hoje, esta funcionária de evoluir na carreira a que pertence.
Na verdade, não pode ser ignorado que a mesma foi integrada no quadro da
DGCI na sequência da extinção do Gabinete de Gestão do Fundo de
Desemprego, operada pelo Decreto-Lei n.º 40/86, de 4 de Março, diploma que,
no seu artigo 8.º, garantiu a todo o pessoal envolvido os direitos de que dispunha,
entre os quais se inclui, como direito fundamental, o de ascensão na própria
carreira.
Ora, deve ser lembrado que a carreira de subinspector contemplava as categorias
de subinspector principal, subinspector de 1.ª classe e de 2.ª classe ―
remuneradas, respectivamente, pelas letras J, L e M (cfr. artigo 14.º, alíneas e) a
h), do Decreto-Lei n.º 146/78, de 13 de Dezembro, e correspondente mapa anexo,
e Portaria n.º 431/87, de 23 de Maio) e depois da introdução do Novo Sistema
Retributivo, operada pelo Decreto-Lei n.º 353-A/89, de 16 de Outubro, pelas
escalas salariais de primeiro-oficial, de segundo-oficial e de terceiro-oficial da
carreira de oficial administrativo ―, sendo que todas estas categorias foram
suprimidas pela referida Portaria n.º 663/94, a qual reduziu a carreira a uma só ―
a de subinspector ―, como se de carreira horizontal se tratasse e, é bom de notar,
sem que para ela haja sido fixada uma escala salarial adequada.
Se é certo que, em nome do interesse público, se afigura legítima a reorganização
dos serviços públicos, envolvendo a reestruturação ou até a extinção de carreiras,
não é menos certo que deverão ser sempre respeitadas as situações constituídas e
tidas em conta as legítimas expectativas dos respectivos funcionários,
designadamente através da consagração de modelos substitutivos ou
compensatórios, por imposição dos princípios da boa fé e da confiança e porque,
à luz da Constituição, a evolução na carreira é um valor fundamental que deve ser
protegido (v., a propósito, Gomes Canotilho e Vital Moreira in “Constituição da
República Portuguesa Anotada”, 3.ª ed. revista, p. 265, e Acórdão n.º 355/99 do
Tribunal Constitucional).
Neste caso, porém, além de não terem sido alegadas razões juridicamente
atendíveis para a alteração introduzida no quadro da Direcção-Geral dos
Impostos pela citada Portaria n.º 663/94, na parte em que suprime os lugares
previstos para as categorias da carreira de subinspector, constata-se que não foi
acautelada por qualquer forma a situação dos funcionários que neles estavam
providos.
É pois inegável que à funcionária XXXX foi criada uma situação de estagnação
profissional ilegítima, retirando-se-lhe o direito de promoção na carreira, que,
aliás, lhe fora mantido pelo artigo 8.º do mencionado Decreto-Lei n.º 40/86.
Assim e considerando que através da reclassificação profissional já proposta se
corrigirá essa situação, entendo exercer o poder que me é conferido pela alínea a)
do n.º 1 do artigo 20.º da Lei n.º 9/91, de 9 de Abril, e RECOMENDAR a V.
Exa.:
Que a reclassificação profissional da funcionária XXXX seja
promovida com urgência, pois as razões que a fundamentam, indo
para além do desajustamento funcional que também se verifica,
reclamam e justificam tratamento particular.
Permito-me lembrar a V. Exa. que, nos termos do disposto nos nºs. 2 e 3 do artigo
38.º da Lei n.º 9/91, de 9 de Abril, deve ser comunicada a este órgão do Estado a
posição que venha a ser assumida quanto à presente Recomendação.