Provedor de Justiça
Recomendação n.º 1/A/2005
- Data
- 2005-02-03
- Meio processual
- RECOMENDAÇÃO
- Emitente
- Número: 1/A/2005
Texto integral (1638 palavras)
Número: 1/A/2005
Data: 03.02.2005
Entidade visada: Secretário de Estado Adjunto e da Administração Educativa
Assunto: Promoção, mediante concurso, a categoria superior. Nomeação por
urgente conveniência de serviço. Produção de efeitos. Posicionamento na escala
salarial da nova categoria.
Processo: R–1063/02 (A4)
Área : 4
RECOMENDAÇÃO N.º 1/A/2005
[artigo 20.º, n.º 1, alínea a), da Lei n.º 9/91, de 9 de Abril]
1. XXXXX, funcionária do grupo de pessoal administrativo do quadro de
vinculação do distrito da Guarda, em exercício de funções na Escola Básica dos
2.º e 3.º Ciclos de S. Miguel, distrito da Guarda, dirigiu-me uma reclamação,
baseada, em síntese, no facto de não se conformar com o posicionamento
remuneratório que lhe foi fixado na sequência da promoção a ecónoma
especialista — escalão 1, índice 260 —, alegando que, na categoria
imediatamente anterior, estava já posicionada em escalão a que correspondia o
mesmo índice.
2. Apurados os factos e apreciada a questão em sede instrutória do processo a que a
referida reclamação deu origem, concluiu a Provedoria de Justiça pela inteira
procedência desta, tendo, em consequência, convidado a Direcção-Geral dos
Recursos Humanos da Educação a reformar a situação da Reclamante, nos
termos dos ofícios n.º 1167 e n.º 17382, respectivamente, de 23 de Janeiro e de 6
de Novembro de 2003.
3. Muito embora aquela Direcção-Geral haja transmitido, a final, e a coberto do
ofício n.º 5361, de 23 de Março de 2004, que tal possibilidade estava afastada,
entendo que as razões alegadas, que se resumem à afirmação da inexistência de
ilegalidade e à conveniência administrativa, impõem a minha intervenção junto
de V. Exa.
4. Importa, assim, retomar os seguintes factos essenciais1:
- a Reclamante, por aplicação dos n.ºs 2, alínea b), e 3 do artigo 2.º do Decreto
Regulamentar n.º 30-A/98, de 31 de Dezembro, transitou para a categoria de
ecónoma principal e foi posicionada no escalão 3, índice 235;
- em 1 de Janeiro de 1998, progrediu ao escalão seguinte, índice 245, e, em 1
de Janeiro de 2001, ao escalão 5, índice 260;
- em 19 de Janeiro de 2001, no Diário da República, II Série, n.º 16 – AP. N.º
7, é publicado o Despacho n.º 424/2001, de 1 de Agosto de 2000, nomeando
a Reclamante, entre outros, na categoria de ecónoma especialista, escalão 1,
índice 260, “(...) por urgente conveniência de serviço, com efeitos a partir de
1 de Agosto de 2000(...)”;
- só em 19 de Janeiro de 2001 a Reclamante aceita a nomeação, sendo então
reposicionada, com efeitos a 1 de Agosto de 2000, no escalão 1, índice 260,
da escala salarial da nova categoria, nos termos do artigo 17.º do Decreto-Lei
n.º 353-A/89, de 16 de Outubro, em função, portanto, do posicionamento que
detinha naquela data (escalão 4, índice 245) e não do que alcançara entretanto
(escalão 5, índice 260).
5. Para determinar o posicionamento salarial devido em virtude da promoção a
categoria superior, questão que constitui o objecto da reclamação, importa
definir o momento a partir do qual o acto de nomeação se tornou eficaz, isto é,
há que esclarecer se este acto é susceptível de produzir efeitos logo a partir da
data da sua prolação, em 1 de Agosto de 2000, como sustenta a Direcção-Geral
dos Recursos Humanos da Educação, ou se, diversamente, os seus efeitos se
produzem a partir de 19 de Janeiro de 2001, data da respectiva publicação e
aceitação.
Esse acto de nomeação foi, na verdade, proferido “por urgente conveniência de
serviço” em 1 de Agosto de 2000 e, nos seus próprios termos, “com efeitos” a
partir desta mesma data. Mas não se pode pretender que, no caso, a simples
menção da urgente conveniência de serviço seja determinante.
1
Transmitidos através dos ofícios n.º 19902 e n.º 39389 da Direcção Regional de Educação do
Centro, cujas cópias foram remetidas à Direcção-Geral dos Recursos Humanos da Educação, pelo
ofício n.º 1167, de 23 de Janeiro de 2003, da Provedoria de Justiça.
2
O regime da urgente conveniência de serviço permitia que os actos relativos à
situação e movimentação de pessoal, enquanto estiveram sujeitos ao visto prévio
do Tribunal de Contas, fossem executados ou produzissem efeitos antes de
serem visados e publicados no Diário da República (cfr. artigo 3.º, nºs. 1 e 2, do
Decreto-Lei n.º 146-C/80, de 22 de Maio).
A indicação de urgente conveniência de serviço conferia, portanto,
executoriedade ao acto. De todo o modo, e como sustentou João Alfaia2, porque
a lei era omissa quanto à investidura consequente deste tipo de nomeação, para
que os diplomas de provimento produzissem efeitos antes de obtido o visto, não
podia ser dispensada a investidura. Em causa mais não estava do que permitir a
executoriedade antes do visto do Tribunal de Contas e da publicação, pelo que a
solução seria assim “a de conferir, logo que possível e antes do exercício de
funções, a referida investidura através da posse.”
Ora, o que acontece é que a urgente conveniência de serviço não tinha já
existência legal no momento em que o despacho de nomeação foi proferido, pois
desde Janeiro de 1999 que todos os actos em matéria de pessoal da função
pública deixaram de estar sujeitos a fiscalização prévia do Tribunal de Contas
(cfr. artigo 114.º da Lei n.º 98/97, de 26 de Agosto).
Mas, ainda que admita que a mesma pudesse ter sido validamente invocada, na
medida em que, para a nomeação, em qualquer das suas modalidades, se mantém
a exigência da publicidade (cfr. artigo 34.º do Decreto-Lei n.º 427/89, de 7 de
Dezembro), parece-me incontestável a sua irrelevância jurídica neste caso.
É que, muito embora haja sido reconhecida expressamente, essa urgente
conveniência de serviço foi insusceptível de conferir executoriedade ao
despacho. Que assim foi, demonstra-o o facto de se ter aguardado pela
publicação para que se iniciasse a sua execução, pois, como se sabe, a
Reclamante não foi, desde logo, chamada a aceitar a nomeação, nem passou a
desempenhar funções diferenciadas em exigências, complexidade e
responsabilidade3 e a ser remunerada pela nova categoria, tendo antes progredido
efectivamente ao escalão seguinte da categoria de que ainda permanecia titular.
2
JOÃO ALFAIA, in “Conceitos fundamentais do regime jurídico do funcionalismo público”, Vol. I,
pág. 390.
3
Como é próprio, nas carreira verticais, do acesso à categoria superior e se infere dos artigos 4.º e
5.º, alínea a), do Decreto-Lei n.º 248/85, de 15 de Julho.
3
E faço notar, aliás, que tanto bastaria para retirar todo e qualquer fundamento
àquela menção, sendo certo que também não foram apresentados quaisquer
factos ou aduzidas razões concretas que a justificassem.
Considerar, nestas circunstâncias, portanto, que a nomeação se verifica no
momento da prática do despacho, equivale, no fundo, a atribuir-lhe efeitos
retroactivos, em clara e inequívoca violação do disposto no n.º 2, alínea a), do
artigo 128.º do Código do Procedimento Administrativo. É óbvio que ao atender-
se à situação detida em momento anterior para efeitos de integração no escalão
de promoção, desprezando a progressão entretanto operada, se penaliza a
Reclamante naquilo que é essencial nesta evolução na carreira: o aumento da
remuneração, garantido pelo impulso salarial relativamente à categoria
precedente expressamente determinado na lei (cfr. artigo 17.º do Decreto-Lei n.º
353-A/89, de 16 de Outubro).
Afastada a relevância da urgente conveniência de serviço, não pode senão
atender-se à data de 19 de Janeiro de 2001, data da publicação e da aceitação,
para a determinação da produção dos efeitos do acto.
De acordo com o já citado artigo 34.º do Decreto-Lei n.º 427/89, de 7 de
Dezembro, a nomeação, em qualquer das suas modalidades, está sujeita a
publicação no Diário da República, ainda que por extracto. Depois, o artigo 130.º
do Código do Procedimento Administrativo determina que, enquanto não for
publicado, o acto administrativo é ineficaz.
Por sua vez, e nos termos do artigo 12.º do mesmo Decreto-Lei n.º 427/89, a
aceitação fixa, em regra, o início de funções para todos os efeitos legais,
designadamente, o abono de remunerações e contagem de tempo de serviço.
Neste condicionalismo legal, impõe-se a conclusão de que o despacho que
nomeia a Reclamante na nova categoria só se tornou eficaz com a publicação e
com a imediata aceitação em 19 de Janeiro de 2001, não produzindo antes disso
quaisquer efeitos. Até lá tudo permaneceu no estado originário, operando-se,
portanto, a progressão na categoria anterior, à qual se deve atender para efeitos
de determinação do escalão de promoção, nos termos do disposto no artigo 17.º
do Decreto-Lei n.º 353-A/89, de 16 de Outubro.
Finalmente, e porque é patente a ilegalidade deste despacho, entendo que não
colhem as razões de organização administrativa invocadas para a sua
manutenção. A eficiência administrativa não pode ser alheia à realização da
legalidade e os órgãos administrativos prosseguem o interesse público no
4
respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos (cfr.
artigo 266.º, n.º 1, da Constitutição da República Portuguesa, e artigo 4.º do
Código do Procedimento Administrativo).
De resto, não pode haver dúvidas quanto à natureza do despacho de nomeação
que, sendo embora um acto plural, integra tantos actos únicos quantos os
respectivos destinatários, a cuja situação é imperioso atender.
6 Nestes termos, e ao abrigo do disposto no artigo 20.º, n.º 1, alínea a), da Lei n.º
9/91, de 9 de Abril, tenho por bem formular a V. Exa. Recomendação no
sentido de:
ser corrigido o posicionamento salarial da Reclamante decorrente da
promoção a ecónoma especialista, reconhecendo-se-lhe o direito ao
escalão 2, índice 270, desde 19 de Janeiro de 2001, data em que foi
publicado o despacho de nomeação e se verificou a respectiva
aceitação.
Permito-me lembrar a V. Exa. que, nos termos do disposto nos nºs. 2 e 3 do
artigo 38.º da Lei n.º 9/91, de 9 de Abril, deve ser comunicada a este órgão do
Estado a posição que vier a ser assumida sobre a Recomendação ora formulada.
O Provedor de Justiça,
H. Nascimento Rodrigues
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