Provedor de Justiça
Documento Rel_Estabelecimento_Prisional_Vale_de_Judeus
- Meio processual
- RECOMENDAÇÃO
- Emitente
- Na defesa do Cidadão: perceber para prover
Texto integral (5602 palavras)
Na defesa do Cidadão: perceber para prover.
O PROVEDOR DE JUSTIÇA, AS PRISÕES
E O SÉCULO XXI:
DIÁRIO DE ALGUMAS VISITAS (III)
RELATÓRIO DA VISITA AO 1
ESTABELECIMENTO PRISIONAL DE VALE DE JUDEUS
Na defesa do Cidadão: perceber para prover.
Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus
23 de fevereiro de 2016
10h:00m – Frio e ligeiramente encoberto: assim se apresentava o dia de hoje
em Alcoentre.
Junto ao portão do estabelecimento penitenciário, um elemento do corpo de
guardas prisionais aguardava a abertura da porta de serviço para entrar.
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I. Encontro-me na zona da portaria, onde cumprimento o senhor diretor do
Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, Dr. João Paulo Gouveia, e, alguns
minutos depois, o chefe dos guardas prisionais.
Projetada pelo arquiteto Raul Rodrigues Lima, a construção desta prisão teve
início na década de 60 do século passado. A ocupação deste complexo de edifícios
por parte das Forças Armadas fez com que, até ao ano de 1977, 75 pessoas ali
estivessem como «presos políticos». Foi, contudo, em 1981, e já na alçada do
Ministério da Justiça, que esta penitenciária começou a funcionar sob a sua atual
denominação. Com lotação para 504 pessoas, computam-se em 498 os reclusos que,
no dia da minha visita, lhe estão afetos.
Acedo a um espaço interior, alcatroado, que serve para estacionamento dos
veículos destinados ao transporte de pessoas privadas da liberdade. À minha direita
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fica a área onde funciona o Centro de Formação Protocolar para o Sector da Justiça
– que visitarei mais tarde – e, à minha esquerda, a zona das visitas íntimas dos
reclusos, para onde nos dirigimos.
II. À entrada do edifício, dois reclusos executam tarefas de limpeza. Esta
circunstância serve-me de mote para interpelar o responsável pela prisão sobre a
seleção das pessoas que, estando em cumprimento de pena privativa da liberdade,
laboram naquele espaço. Tal como já antecipava, a escolha dos reclusos é norteada
pelo comportamento demonstrado ao longo da evolução do cumprimento da sua
pena e do conhecimento que os funcionários do estabelecimento penitenciário –
incluindo guardas prisionais – vão tendo sobre aqueles. Dito de outro modo, a
determinação para ocupação laboral de um preso funda-se no reconhecimento de
que ele se inteirou da sanção que lhe foi aplicada. A este propósito, é-me
transmitido que, do total da população reclusa, são 345 os homens que, estando em 3
reclusão, ocupam os seus dias com alguma(s) da(s) atividade(s) proporcionada(s)
pela instituição que visito.
No piso térreo deste edificado, indicam-me uma pequena sala que, provida
de mesas, cadeiras e alguns eletrodomésticos – como sejam frigoríficos, micro-ondas
e máquina de café –, possibilita algum conforto nas pausas dos funcionários.
Vislumbro, ainda, os cacifos do piso superior que, em momento ulterior, visitarei.
Percorro, depois, um corredor que permite o acesso a dez quartos, estando –
comunicam-me – o último deles, de momento, a ser usado como armazém. São, na
verdade, celas, como o denuncia o gradeamento das janelas. O mobiliário –
composto por uma cama de casal, uma mesa, uma cadeira e uma pequena bancada
equipada com fogão e lava-louça – e a finalidade de tais espaços justificam o seu
tratamento como quartos. É ali que os presos recebem as suas visitas íntimas, não
sendo, por isso, de estranhar a existência de uma casa-de-banho privativa que, além
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dos comuns sanitários que se encontram em um espaço daquele género, possuía,
também, um polibã. A cor clara das paredes do quarto e o azul dos azulejos da casa-
de-banho, aliadas às boas condições de higiene e à amena temperatura, contribuem
para que o espaço se revele confortável e cuidado.
Entrementes, interpelo o senhor diretor do estabelecimento prisional sobre o
funcionamento das visitas íntimas, nomeadamente quanto ao transporte de
reclusos(as) que estejam em outras cadeias. Como era já do meu conhecimento, as
mulheres que, estando legitimamente privadas da liberdade, sendo companheiras de
homens ali reclusos, são transportadas pelos meios da penitenciária a que estão
afetas – por norma, o Estabelecimento Prisional de Tires – e, caso estes não sejam
suficientes, com recurso ao Grupo de Intervenção e Segurança Prisional. Porque o
transporte de reclusos para este (e outros) fim(ns) está dependente de uma
meticulosa organização dos parcos recursos – guardas prisionais e carrinhas
celulares – das prisões, não raras vezes, a duração destas visitas é inferior ao período 4
legalmente previsto. De igual jeito, e também com arrimo na complexa gestão dos
insuficientes recursos, a periodicidade das visitas íntimas é mais ampla do que aquilo
que a legislação prevê, o que, com frequência, fundamenta algumas das queixas que
são recebidas pelo Provedor de Justiça.
III. Dirigimo-nos, de seguida, para o edifício destinado ao Centro de
Formação Protocolar para o Sector da Justiça, onde se ministram os cursos de
educação e formação de adultos que, a par das competências profissionais da sua
componente tecnológica, permitem que os reclusos progridam na sua formação
académica.
Tal como etiquetado na porta, entro na zona onde o saber se une ao sabor: a
pastelaria e a padaria. Atravesso a sala de aulas, onde leio, no quadro branco ao
fundo colocado, a receita para a confeção de massa folhada. Encontro, depois, na
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divisão adjacente, os formandos, sob a atenta orientação do docente, a trabalhar a
massa que, em breve, se tornará, dizem-me, em palmiers, jesuítas e outras doçarias.
Este espaço, impecavelmente limpo, está munido de diversos equipamentos
característicos de uma cozinha de confeitaria industrial – como sejam uma bancada
em inox, um forno elétrico e uma panificadora automática – e de seis bancadas
centrais revestidas, no seu topo, com pedra mármore.
Entabulo conversa com as pessoas ali presentes e ouço os reclusos que
comigo partilham as suas inquietudes, as quais se prendem, grosso modo, com a
alimentação – temperatura e composição da ementa –, a presença de humidade nas
celas e a escassez de distrações e cadeiras nas salas de convívio. Escuto, com igual
atenção, a espontânea explicação do professor sobre a componente letiva do curso e
a sua equivalência, em caso de conclusão com aproveitamento, ao terceiro ciclo do
ensino básico.
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IV. Encaminho-me, posteriormente, para a tipografia. É um espaço amplo e,
não obstante a vetustez de algumas bancadas de madeira, está em boas condições.
Ao momento da minha visita, alguns reclusos laboram, dobrando o grosso papel
que capeará os processos de algumas instituições públicas. Também as pastas, os
cartões de visita e outros papéis que eu e aqueles que comigo colaboram usamos são
ali manufaturados.
Existem, de igual jeito, algumas máquinas tipográficas, devidamente cobertas,
que estão dispersas, de modo organizado, pela divisão. Uma delas é, para minha
contemplação, destapada. É, afirmam-me, o resultado de uma doação de uma das
poucas pessoas que, nos dias de hoje, e no nosso país, possui os conhecimentos
necessários para proceder à sua reparação.
Entro, depois, em uma sala contígua. De reduzida dimensão, é naquela área
que os reclusos que ali trabalham fazem a composição gráfica e ulterior impressão a
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laser. Para tal, têm ao seu dispor três antiquíssimos computadores, com ecrãs
generosos, e duas modernas impressoras. Não sendo o equipamento informático
ideal, é o suficiente para, com recurso a programas como «PageMaker» e «Corel», se
realizarem os trabalhos que são solicitados.
A amplitude deste espaço permitiu a criação de uma zona autónoma que
funciona como uma oficina. Comummente designada por «zona dos componentes»,
é uma área onde os presos encaixam, de forma seriada, as diversas peças que
compõem os fechos laterais que se embutem em janelas de correr e em portas de
armários. Saúdo os homens que ali se ocupam profissionalmente e escuto a breve
mas completa explicação de como se executa aquela tarefa. É, destarte, notória a
boa capacidade de organização.
V. Passo por uma porta gradeada e encontro-me no pátio central do
estabelecimento prisional, o qual é constituído por uma área relvada, ladeada por 6
alguns metros de alcatrão. A configuração retangular da primeira, com balizas nos
lados de menor dimensão, permite que, uma vez por semana, aquele espaço seja
palco de jogos de futebol entre os reclusos. E a zona circundante, que ainda ostenta
a tinta de marcações características de pistas de atletismo, possibilita o treino de
corrida ou, tão-somente, algumas caminhadas.
Aproveitando a visão que tenho do exterior da capela, situada no lado oposto
do pátio, interpelo o responsável pela prisão sobre o serviço religioso ali disponível.
Como diversas são as crenças da população reclusa – refiram-se, por exemplo, o
Catolicismo, o Islamismo, a Igreja Ortodoxa, a Assembleia de Deus e as
Testemunhas de Jeová –, vários são os ministros do culto que, depois do respetivo
processo de acreditação, prestam assistência espiritual na penitenciária. É-me, de
igual jeito, transmitido que, caso a pessoa deseje cumprir o ramadão, pode fazê-lo,
depois de devidamente solicitado. Neste período, os reclusos muçulmanos não
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estão, todavia, autorizados a sair das celas à noite para cear, sendo-lhes
disponibilizada uma refeição para cumprirem o seu iftar.
VI. Encaminho-me, seguidamente, para a escola, edifício térreo e contíguo
àquele que foi antes visitado. Um corredor interior, paralelo ao pátio, permite a
entrada em várias salas de aulas. Pela hora, pude presenciar alguns alunos da
disciplina de Geografia de 10.º ano a acomodarem-se nos seus lugares e, enquanto
preparavam os seus livros e cadernos, troquei breves palavras com a professora que
me transmite que o grupo de estudantes é heterógeno, designadamente por causa
das suas idades.
Tendo como pretexto o espaço onde me encontro, questiono quem me
acompanha sobre a formação escolar que é facultada aos presos. Na sequência da
minha interpelação, o senhor diretor prontamente me refere que são lecionados
todos os ciclos do ensino básico e o ensino secundário. Comunica-me, do mesmo 7
modo, que cada aula tem a duração de 45 minutos, tal como sucede nas escolas em
meio livre, e a organização das disciplinas e contratação de docentes rege-se pelo
que foi protocolado com a Direção-Geral e subsequente articulação entre os
estabelecimentos escolares.
Passo por uma sala de aula que, além de mesas e cadeiras, possuiu alguns
computadores portáteis e acedo à biblioteca. Provida de algumas estantes com
livros, esta divisão está igualmente mobilada com mesas e cadeiras, algumas delas
ocupadas por pessoas que procuram nos livros, revistas e jornais as notícias da sua
cidade ou aldeia. São nacionais e regionais, mas também internacionais, os jornais
que vislumbro. De comum têm o passado. A imprensa escrita que é disponibilizada
chega à penitenciária pelas mãos dos visitantes dos presos, com a ressalva de
algumas revistas sobre automóveis que são recebidas pelo estabelecimento prisional.
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VII. De volta ao pátio, caminho em direção aos pavilhões. À minha direita,
um segmento do edifício está em evidente remodelação, não se prevendo, contudo,
a data para o seu término. Trata-se do espaço que, em tempos, fora um refeitório e
que se pretende transformar em celas de alojamento para os reclusos que são
colocados no regime aberto no interior. Não obstante os trabalhos serem
executados pelos homens ali presos, faltam verbas para os materiais necessários.
Mencione-se, a este propósito, que a instituição visitada não tem, pela longa duração
das penas e pela predominância de delitos graves – nomeadamente crimes contra as
pessoas – nas condenações que subjazem ao cumprimento da sanção privativa da
liberdade, reclusos no regime aberto no exterior. As pessoas que reúnam as
condições para beneficiar deste regime são transferidas para outras prisões, como
sejam, entre outras, a de Torres Novas.
Com o modelo de espinha ou poste telegráfico por base, a disposição do
edificado que compõe o Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus possibilita que 8
os quatro pavilhões que albergam os reclusos tenham acesso direto ao pátio central.
São, repito, quatro os pavilhões que, identificados pelas primeiras letras do alfabeto,
alojam os reclusos que são colocados no regime aberto no interior e aqueles têm
ocupação laboral no interior da penitenciária, assim como as pessoas que, pelo seu
bom comportamento e pelo parcial cumprimento da pena de prisão, estão em fase
de preparação para reintegração na sociedade, mormente por concessão de liberdade
condicional (pavilhão A). Pelo pavilhão B distribuem-se os reclusos mais jovens,
toxicodependentes ou em programa de terapia de substituição de opiáceos e, nos
restantes, aqueles que são considerados mais perigosos. No espaço que medeia entre
os pavilhões, funciona o pátio interno de cada um deles.
VIII. Entro no pavilhão A e subo as escadas que me conduzem ao primeiro
andar para, através de um outro acesso comum, chegar ao pavilhão B. É um longo
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corredor alcatroado, no qual assisto ainda ao transporte do almoço para o refeitório.
Tal como em outros estabelecimentos prisionais, a refeição é feita no seu interior,
por uma empresa externa, e, depois de confecionada, é levada para os pavilhões em
caixas de esferovite.
Transponho duas portas gradeadas e, enquanto aguardo que uma outra se
abra, entabulo conversa com cinco elementos do corpo de guardas prisionais. Para
sentir o genuíno pulsar do sistema prisional é imprescindível ouvir também aqueles
que curam da segurança de um espaço que, pelo seu confinamento, é
particularmente violento.
Descerrada a fechadura da terceira porta, entro na zona prisional e visito, de
imediato, o balneário comum daquele piso. São várias as queixas que me chegam
sobre o mau estado das instalações, especialmente quanto à humidade que
provocam nas celas mais próximas. Quem me acompanha na visita corrobora esta
informação e assinala que as celas que se encontram ao lado e por cima do balneário 9
estão, por aquele motivo, inativas.
Revestido parcialmente a azulejo de cor azul, o espaço está dividido em oito
pequenas divisões, cujas paredes servem de obstáculo visual entre os seus
utilizadores. Mas, por razões de segurança, as aludidas divisões não possuem portas.
Deste modo, quem está a tomar o seu duche, não o faz com total privacidade.
Permitem-me, de seguida, que visite uma cela individual. Interrompido que
foi o descanso do seu ocupante, observo o maciço de betão que, com um pedaço de
esponja, serve de cama. Ao fundo, observo uma janela com grades e, não obstante
se destinar a alojar apenas uma pessoa, há um murete que oferece algum resguardo à
utilização dos sanitários.
Mais, é-me dito que se contabilizam em pouco mais uma centena os presos
que são distribuídos por pavilhão. No momento da minha visita, são 124 os homens
que estão em reclusão naquele edificado. Sobre a sua disposição interna, dizem-me
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que os presos vão subindo nos pisos de um pavilhão de acordo com o (bom)
comportamento que vão adotando.
Em diálogo com guardas prisionais, indago pela sua perceção sobre a
realidade prisional. «É uma comunidade complexa, reflexo de uma sociedade»,
dizem-me entre outras palavras. Há, pois, situações de conflito que a experiência
ensina a gerir paulatinamente melhor. Faltam, porém, ações de formação que
melhor os capacitem para tais circunstâncias, sobretudo quando o conflito em causa
é de índole psicológica. É este, confessam-me, o tipo de violência que é mais
complexo de apaziguar.
IX. Eis-nos, de novo, no corredor exterior. Encaminhamo-nos para os
serviços clínicos, contíguos ao pavilhão A. Aproveito o período que demora a
percorrer os parcos metros que distam entre estes serviços e o edificado
anteriormente visitado para confirmar alguns dados e esclarecer uma dúvida que 10
tenho. Esta prende-se com a emissão de fatura com número de identificação fiscal
aquando da aquisição de bens na prisão por parte dos reclusos. Na minha visita
anterior, feita a um outro estabelecimento prisional, foi-me transmitido que as
faturas não tinham aposto o número de contribuinte dos compradores. Tornou-se,
por isso, minha preocupação averiguar, in loco, se esta situação é comum ou
excecional. A ajuizar pela resposta que prontamente me foi fornecida, o caso
descrito é uma exceção; no Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus as faturas
atinentes aos bens comprados no seu interior possuem a identificação fiscal de
quem os adquire.
Recordando-me das cabines telefónicas que visualizei à saída do pavilhão B,
pergunto em quantos equipamentos aquelas se cifram. São, dizem-me, 14 no total:
dois telefones por pavilhão e os restantes distribuídos pelos outros edifícios da
prisão. Transmitem-me, de igual modo, e como era de meu anterior conhecimento,
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que o funcionamento de cada telefone depende da introdução de um código que é,
de forma individual e irrepetível, atribuído a cada recluso. Confirmam-me, ainda,
que o número telefónico do Provedor de Justiça é gratuito e faz parte da lista
daqueles que estão disponíveis para toda a população prisional.
Aproximamo-nos da porta do imóvel onde funcionam os serviços clínicos.
Não entramos, porém, sem antes me ser explicado o regime de rotatividade que
preside à elaboração da escala de serviço dos guardas prisionais. Uma explicação
que, diga-se, vem salutarmente acompanhada de uma breve discussão sobre as
vantagens e as desvantagens de tal sistema, mormente no tocante aos chefes de ala
que, in casu, são também chefes de pavilhão. O normal crescimento de um certo
grau de subjetividade e a continuidade do trabalho desenvolvido foram os principais
argumentos esgrimidos para, de um lado, se defender a rotação dos chefes de ala e,
de outro, se advogar a sua manutenção, pelo menos por um determinado período de
tempo. O ensejo foi ainda aproveitado para me comunicarem a falta de chefias 11
nestes profissionais.
X. Entro nos serviços clínicos e deparo-me com uma sala onde, em redor de
uma mesa, duas profissionais de saúde – a bata branca que envergam denuncia a sua
área de formação – cuidam de dois reclusos. Não me demoro. As circunstâncias
pedem que seja breve – muito breve – a minha interrupção. E o sigilo que preside à
relação médico-doente determina que as perguntas se calem em nome de um
legítimo resguardo.
Sigo, depois, por um corredor ao fundo do qual me possibilitam visualizar
três gabinetes médicos, cada um deles dotado de uma cama de observação, uma
mesa e cadeiras. A luminosidade pareceu-me satisfatória, assim como as suas
condições de limpeza. Indicam-me, no outro lado do corredor, a farmácia que, por
compreensíveis razões de segurança, se encontra fechada.
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Com esteio no espaço onde me encontro, interpelo pela assistência médica
que é proporcionada à população reclusa. Em resposta, o senhor diretor do
estabelecimento prisional comunica-me que a instituição que administra
disponibiliza serviços de enfermagem e consultas de Clínica Geral, Psiquiatria,
Psicologia e de Estomatologia. Para atendimento e acompanhamento de outras
especialidades médicas, os presos são transportados para o Hospital Prisional de São
João de Deus, em Caxias, ou para os hospitais civis. É-me ainda referido que, às
quintas-feiras, um psicólogo do Centro de Respostas Integradas acompanha os cerca
de 60 reclusos que estão no programa de substituição de opiáceos com metadona. É
a resposta possível mas manifestamente insuficiente para fazer face às necessidades
de todos aqueles que dela carecem. Apenas as pessoas que se encontram inseridas
naquele programa – e que chegam à penitenciária, por exemplo, em resultado de
transferência de uma outra – dele beneficiam; os reclusos que o queiram iniciar não
podem fazê-lo por falta de vagas. 12
Enquanto nos encaminhamos para a saída deste edifício, converso com os
guardas prisionais que me acompanham. As dificuldades de progressão na carreira
são-me, também aqui, mencionadas. É grande a desmotivação de todos aqueles que
esperam anos – em alguns casos, a espera protela-se por quase duas décadas – para
subir de categoria profissional. São detentores de licenciaturas e, por vezes, de
mestrado. Ainda assim, são muitos os que desempenham o cargo de base, sentindo
a injustiça da estagnação.
XI. Visito, de seguida, a zona das celas disciplinares e do regime de
separação, aproveitando a sua proximidade com os serviços clínicos.
Antes de entrar neste edificado, reparo em uma viatura destinada ao
transporte de pessoas privadas de liberdade que ali se encontra estacionada. O seu
estado novo fomenta a minha curiosidade sobre as suas condições e, depois de se
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confirmar que estava desocupada, facultam-me a observação do seu interior. Para
tal, é aberta a porta lateral da carrinha celular e a porta gradeada interna. Vejo duas
filas de três cadeiras, todas elas equipadas com cinto de segurança, e, ao fundo, um
espaço que, pela sua função, se pode apelidar de latrina. Comparativamente com as
mais antigas, concluo serem melhores as condições das viaturas mais recentes que, a
par do transporte, servem, não raras vezes, de «sala dos passos perdidos» em
algumas instâncias judiciais.
Explicam-me que a presença daquele veículo se deve ao regresso de um
recluso ao estabelecimento prisional. Sempre que esta situação se verifica, aquele é
objeto de uma revista que, sendo com desnudamento, contém o agachamento. Esta
operação é, contudo, efetuada na privacidade de uma pequena sala daquele edifício.
Só depois de ter sido revistado é que o preso é conduzido ao pavilhão a que
pertence.
Entro, então, no hall da zona disciplinar e do regime de separação. A primeira 13
fica à minha esquerda e o segundo à minha direita. Antes de inspecionar uma cela de
cada um deles, examino a sala que, dotada de um vidro de separação, recebe as
visitas para as pessoas que ali estejam em cumprimento de medida disciplinar ou
separadas dos restantes presos, na maioria dos casos, por causa de comportamentos
violentos (ainda que a violência seja somente verbal).
Observo, de igual jeito, a sala do guarda prisional responsável por aquela
zona. É em um quadro que os meus olhos pousam; nele se lê, em uma tabela, a
organização do espaço, a identificação numérica dos ocupantes e a duração da sua
estada. Naquele pedaço retangular de aço envernizado de branco não se leem nomes
nem se veem fotografias; estes elementos identificativos encontram-se em folhas de
papel que estão penduradas nas portas metálicas das celas.
Vejo uma das celas do regime de separação que, na altura, se encontrava
desocupada. Está provida de um maciço de betão que serve de cama e possui uma
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casa-de-banho privativa com chuveiro. O espaço apresenta a cor azul, proveniente
dos azulejos que cobrem as suas paredes.
Observo, posteriormente, uma cela disciplinar, igualmente vazia no
momento da minha visita. Sem uma ponta de humidade, exibe condições
perfeitamente satisfatórias para o fim a que se destina, possuindo, também, um
maciço de betão para ser usado como cama. Diferentemente do que sucede nas
celas do regime de separação, as celas da zona disciplinar não possuem um espaço
reservado que possa ser considerado como uma casa-de-banho; estão, contudo,
providas de uma pia e de uma retrete de tipo turco, ambas metálicas, que se revelam
aptas à satisfação (de algumas) das necessidades fisiológicas e de higiene dos
reclusos que ali se encontrem. Registo, ainda, a proteção que foi colocada no
gradeamento destas divisões em nome da segurança dos seus ocupantes. Trata-se de
uma rede em aço que foi soldada nas laterais das grades e que, pelo reduzido
tamanho da sua malha, dificulta seriamente qualquer tentativa de suicídio que ali 14
possa ser perpetrada. Antes de sair deste espaço, passo pelos seus pequenos pátios
interiores, diminutas áreas alcatroadas, rodeadas de altos muros brancos, e vigiadas
por câmaras de segurança.
XII. O avançar da hora determina que nos dirijamos para o refeitório do
pavilhão A, de modo a proceder à prova da refeição. Chegado a este espaço, verifico
que alguns reclusos já se encontram tranquilamente a almoçar.
No dia da minha visita, o almoço era composto por uma sopa de caldo verde
e, como prato principal, entremeadas com arroz. Deram-me uma tigela com sopa
que estava fria e, perante o meu desagrado, serviram-me uma outra taça com sopa
que, a ajuizar pelo recipiente em que se encontrava, acabara de chegar. Fumegante
ao destapar, esta estava quente. Em ambos os casos, reparei que a couve foi usada
de forma parcimoniosa. Experimento, seguidamente, o conteúdo de uma cuvete
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individual, notando que a quantidade de arroz e de carne pode ser considerada, para
a alimentação de um homem adulto, insuficiente. Sobre esta questão, é-me, de
imediato, esclarecido que aquele estabelecimento penitenciário fornece, se desejado,
um suplemento de arroz branco, prática que não é, todavia, generalizada no sistema
prisional português. Feita, mais tarde, a sua pesagem, os – aproximadamente – 100
gramas de carne e os 200 gramas de arroz correspondem, de facto, a valores
inferiores àqueles que estão capitados. Ainda assim, e por que – como é de
conhecimento geral – é no descontentamento com a alimentação que muitas vezes
reside a revolta dos presos, importa ponderar se as capitações recentemente fixadas
não deveriam ser objeto de um aumento. Duas cuvetes são, também, destapadas
para minha contemplação, uma contendo a opção de dieta (constituída por bifanas –
em vez de entremeada – e arroz) e outra o prato vegetariano (tortilha de legumes).
Era igualmente disponibilizado um pão individualmente embalado e, para a
sobremesa, havia laranjas. 15
XIII. Regresso ao pátio central e encaminho-me para a zona da carpintaria.
Pelo percurso, escuto o desabafo – já meu conhecido – sobre o estado
decadente das torres de vigia. São públicas as reiteradas denúncias sobre as
condições estruturais de tais equipamentos. Esta matéria foi já discutida na
Assembleia na República e divulgada por diversos órgãos de comunicação social. Há
anos, portanto, que se assinalam o perigo de ruína das torres e o risco de
eletrocussão dos guardas prisionais que nelas se encontrem. Também ao Provedor
de Justiça se expõe, a viva voz, esta preocupação que, como observo mais tarde, está
cabalmente justificada.
Estou em um corredor que dá acesso às oficinas de carpintaria. O primeiro
espaço está reservado para uso de um recluso que ali fazia gavetas, cofre, mealheiros
e outros pequenos trabalhos, todos por contra própria. A segunda divisão – melhor
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dizendo, a carpintaria propriamente dita –, está equipada com algumas máquinas
comuns a qualquer uma oficina que transforme a madeira em peças de mobiliário
ou, como era ali o caso, em caixões que, pelo pequeno vidro da porta, observo.
XIV. Observo, depois, a sala dos advogados, sita em um edifício próximo ao
anteriormente visitado. É um espaço agradável, com boas condições, composto por
uma sala de maior dimensão, provida com cinco mesas e cadeiras, e quatro salas
que, pela sua área mais reduzida, permitem um diálogo ainda mais reservado entre o
preso e o seu defensor ou mandatário.
Contígua a esta sala fica o parlatório geral. Não obstante não ter o
aquecimento ligado, segundo o que me disseram, a temperatura é agradável.
Mobilada com várias mesas e cadeiras, é uma divisão que aparenta boas condições
de higiene. A máquina de bebidas e snacks oferece, ainda, um conforto adicional a
quem está legitimamente limitado na sua liberdade. 16
No mesmo edifício, encontra-se a zona dos funcionários. Nela visito a sala
de videovigilância, onde também se encontra o armeiro. Pelo que vejo nos
monitores, a maioria das câmaras espalhadas pela prisão está a funcionar,
circunstância que é, de igual modo, confirmada pelo senhor diretor e pelo chefe dos
guardas prisionais. São eles que, de resto, podem visualizar as imagens captadas, as
quais são automaticamente guardadas durante 30 dias e, passado este prazo, são
destruídas.
No mesmo edificado, visito a sala do graduado de serviço no período
noturno, uma pequena divisão, mobilada com uma cama individual, com uma casa-
de-banho em um espaço vizinho. Conheço, também, as duas camaratas, providas de
camas individuais, sobre as quais os elementos do corpo de guardas prisionais
descansam à noite, envoltos nos seus sacos-cama. Em uma área adjacente, dotada de
sanitários e chuveiros, estes profissionais podem, com privacidade, tratar da sua
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higiene. Para guardarem os seus pertences, há, também, cacifos no corredor e, para
fazerem as suas refeições, têm um refeitório e um bar, ambos com boas condições.
XV. Não podia, de todo em todo, ir ao Estabelecimento Prisional de Vale de
Judeus e não inspecionar, pelo menos, uma das problemáticas torres de vigia. São
equipamentos construídos, há mais de quarenta anos, com vigas e chapas metálicas
que a constante exposição aos elementos – mormente à chuva – fez, em parte,
substituir o aço por nada. Nada há que se entreponha entre mim e o céu, quando
olho para cima e vejo os buracos que a oxidação originou na chapa que serve de
chão ao guarda prisional de serviço. Nada existe como obstáculo – mormente visual
– quando o guarda prisional usa o urinol situado no exterior, fazendo chegar as
micções ao pátio, por meio de uma mangueira, e perpetuando, deste modo, um
incómodo odor. Nada acessível é a entrada da torre, a qual se efetua pela subida de
uma escada vertical. Em dias de temperaturas extremas, o frio e o calor atingem o 17
limiar do (in)suportável e, nos dias ventosos, é constante a oscilação de uma
estrutura que parece prestes a ruir a qualquer momento. Local de trabalho exclusivo
de guardas prisionais do género masculino, não oferece as mínimas condições de
segurança para um espaço que, paradoxalmente, serve para a segurança do
estabelecimento penitenciário.
XVI. Aproxima-se o fim da minha visita, mas não sem antes efetuar uma
breve passagem pelas oficinas de mecânica automóvel e de estofaria. Providas da
maquinaria e instrumentos necessários, é naqueles espaços que os reclusos reparam
automóveis e cobrem com estofo bancos, caixões e outros objetos.
Na defesa do Cidadão: perceber para prover.
São graves, demasiado graves, algumas das coisas que vi na minha visita a
esta prisão. O Provedor de Justiça, pelo múnus que lhe cumpre desempenhar, não
pode não se indignar com a inércia demonstrada perante o estado decrépito das
torres de vigia. Não basta levar à ágora do debate público a ruina eminente de uma
estrutura que pode, no limite, comprometer a vida de quem lá trabalha; é preciso
agir. É urgente tomar uma atitude. É urgente recuperar ou, até, reconstruir aqueles
equipamentos. Não podemos, todos nós como comunidade que somos, protelar
tamanha insegurança. A crise económico-financeira não pode justificar tudo. Mesmo
em uma ótica estritamente economicista, o custo de uma reparação – reparação que
possa, frise-se, ser verdadeiramente assim denominada – é, de forma manifesta,
inferior ao custo de vidas perdidas ou para sempre fortemente limitadas.
A privação da liberdade comporta, como facilmente se compreende, uma
restrição em alguns dos direitos fundamentais do recluso; não pode, porém, em
circunstância alguma, tal fundada restrição pôr em causa um tratamento que se quer 18
digno. Por esta razão, preocupa-me que os homens presos no Estabelecimento
Prisional de Vale de Judeus (e em todo o território nacional) possam não ter uma
refeição suficiente e minimamente nutritiva. À data da minha visita, registei um
almoço rico em gordura, não só pelo tipo de produto em causa – recordo que o
prato principal era composto por entremeadas fritas –, mas também pelo método de
confeção em que foi cozinhado. A par desta situação, questiono-me se a
generalizada redução que se operou nas capitações dos alimentos que são
disponibilizados aos reclusos não deve ser revista, tendo em vista o seu aumento.
Não se olvide, também, que, não raras vezes, é o descontentamento com a comida
que motiva a contestação dentro dos muros da prisão. Assim, para que Portugal não
registe, dentro das prisões, altercações violentas da ordem e para que, por sobre
tudo, os nossos reclusos sejam devidamente alimentados, importa que tais valores
Na defesa do Cidadão: perceber para prover.
sejam repensados, mesmo vivendo-se, não se esquece, uma grave crise económico-
financeira.
Conhecendo a pública e complexa situação de sobrelotação que assola alguns
dos estabelecimentos prisionais portugueses, o Provedor de Justiça regista, em tom
de crítica, o desaproveitamento das celas adjacentes aos balneários comuns. Como
se mencionou anteriormente, as celas contíguas aos balneários estão, pelas suas más
condições estruturais, inativas. A inexistência de verbas vai, de forma continuada,
justificando a não realização das obras necessárias para suprimir a humidade destes
espaços e os estragos que a mesma já provocou. É um dado que o estabelecimento
penitenciário visitado não alberga pessoas além do limite da sua capacidade; mas é,
note-se, diminuta a diferença que se regista entre a sua ocupação e a sua lotação.
Não se ignore, pois, que, a breve trecho, as celas que não estão a ser utilizadas
podem ser necessárias para acomodar reclusos que ali sejam colocados. Situação que
poderia ser, já nos dias de hoje, uma alternativa, sinónimo de algum espaço e 19
privacidade, para os reclusos que estão nas prisões sobrelotadas.
Como titular de um órgão do Estado que tem por função a intransigente
defesa dos direitos humanos, não posso, de igual jeito, não salientar, como crítica
negativa, a ausência de formação para aqueles que têm o dever de zelar pela
segurança de uma penitenciária. As suas condições salariais não são, como se sabe,
as ideais e a sua progressão na carreira está praticamente impossibilitada. É, pois,
grande a desmotivação destes homens e destas mulheres que, dias e noites,
asseguram a pacífica convivência entre os muros de um estabelecimento prisional.
Proporcionemos-lhes, ao menos, alguma formação que melhor os capacite a lidar
com as situações de conflito que sempre existirão naquele meio, mormente com as
situações de conflito psicológico. Não é, acredito, um pedido desmesurado.
Na defesa do Cidadão: perceber para prover.
12h:55m – Saí. O céu continuava encoberto mas o aproximar do meio do dia
fez subir, em alguns graus, a temperatura que se fazia sentir. Enquanto no interior se
terminava a azáfama do almoço, fora do Estabelecimento Prisional de Vale Judeus
reinava a quietude de um espaço isolado.
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