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Documento FIO_VIIcongressoAnual_LisboaNov2002_-_Mario_Soares
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Democracia e Direitos Humanos
no século XXI
Excerto retirado de Ombudsman. Novas Competências. Novas funções, VII Congresso
Anual da Federação Ibero-americana de Ombudsman, que decorreu entre os dias 18
e 20 de novembro de 2002, em Lisboa.
Doutor Mário Soares
Antigo Presidente da República
Começo por salientar a complexidade do tema da Democracia e também dos Direitos
Humanos, no século XXI – ou seja, no tormentoso, incerto e inseguro tempo que vivemos e,
designadamente, tratando-se da Ibero-América, sub -continente que conhece uma crise
profunda, importada em grande parte do exterior, talvez a mais séria e intrincada crise que
viveu desde as transições democráticas efectuadas nos anos oitenta do século passado,
influenciadas pelo fim pacífico das duas ditaduras ibéricas, ocorrido na segunda metade da
década de setenta.
A crise da democracia é hoje – ao contrário do que se pensava após o colapso do
comunismo, quando se admitia que a democracia liberal ia ser a regra comum de todos os
países do mundo – uma situação a que não escapa nenhuma sociedade democrática do
nosso tempo, por mais consolidada que aparente ser. Mas, é claro, que se faz sentir com
maior acuidade nos países em via de desenvolvimento, esmagados pelas dívidas externas e
pelos ataques especulativos às suas moedas nacionais.
A explicação desta crise da democracia – e de um certo apagamento da teoria e
importância internacional dos Direitos Humanos, que tem a ver também com a tentativa de
marginalização do sistema das Nações Unidas – tem várias causas. Apontarei algumas, que
se me afiguram principais, por forma telegráfica.
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VII Congresso Anual da Federação Ibero-americana de Ombudsman
A primeira é, sem dúvida, a revolução informática e a corrosão que sobretudo os
meios audio-visuais estão a provocar nas democracias representativas clássicas, tais como
as conhecemos no século passado. Concretamente, a progressiva perda de importância dos
Parlamentos e a deslocação da centralidade dos debates, dos grandes temas políticos, dos
Parlamentos para os media, condicionando desta forma as mais sérias decisões dos Estados
e dos Governos. É uma situação que contribui para desprestigiar a política e os políticos,
banalizando os debates e obrigando-os, necessariamente, a descer de nível.
Há quem pense que as chamadas democracias mediáticas, alargando o debate polí-
tico a vastas audiências, constituiem uma forma benéfica de democratizar a política, tor-
nando mais efectiva a participação dos cidadãos. É exacto. No entanto, há que ponderar
também os seus aspectos perversos e que são graves: o abaixamento do nível dos debates,
a confusão – e até a náusea – que provoca a política, quando vista e conhecida através dos
media, por uma forma apressada, frequentemente deformada, pela hipertrofia das questões
mesquinhas e pessoalizadas. É uma situação que manifestamente afecta o prestígio da
classe política, invadindo o próprio direito à privacidade dos políticos e expondo-os a uma
visibilidade permanente. Para não falar noutro proble ma muito preocupante, como é a rápida
concentração a que estamos a assistir, por toda a parte, dos meios de comunicação social
(jornais diários, semanários, revistas, rádios e televisões) concentrados nas mãos de cada
vez menos grupos mediáticos – dois ou três, por país – geralmente entrecruzados se não
dependentes do grande poder económico internacional. É um fenómeno, resultante da glo-
balização das economias, que – escuso de sublinhar – é sobremaneira perigoso e condicio-
nante não só para a liberdade de imprensa e dos cidadãos como para o próprio bom funcio-
namento das democracias. Como está à vista.
Com efeito, a globalização das economias – a par da globalização da informação e do
conhecimento – é outro fenómeno inelutável do nosso tempo, com aspectos obviamente
positivos e outros muito negativos, que afecta consideravelmente o funcionamento das
democracias, internacionalizando-o.
A questão que interessa compreender é que o capitalismo liberal, tal como o conhe-
cemos, está a mudar de natureza. Evoluiu de uma fase essencialmente industrial e, depois,
financeira, estando hoje, cada vez mais, a tornar-se um capitalismo especulativo, sem rosto,
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sem princípios éticos, com ténues vinculações nacionais e sem responsabilização, junto de
nenhuma instância democrá tica.
Muitos respeitáveis economistas e politicólogos têm vindo a sublinhar, nos últimos
anos, esta imensa alteração. Extremamente nefasta para o funcionamento das instituições
democráticas. Por via dos fundos de pensões e das acções das multinacionais, o chamado
dinheiro sujo – proveniente da droga, do comércio ilegal de armas, da prostituição, do tráfico
infame de órgãos humanos, etc. – infiltrou-se nos fluxos de capital que hoje se movimentam
especulativamente, de bolsa em bolsa, por todo o mundo, à velocidade da luz. O seu
objectivo é o lucro pelo lucro, sem qualquer obediência a regras jurídicas, políticas ou éticas.
É o que alguns chamam império do capital, que não se deve confundir com a hiperpotência
hoje dominante, os Estados Unidos, que em boa parte lhe deu origem. É um monstro que
está a escapar ao criador, como se compreendeu melhor, quando os meios de comunicação
mundiais levantaram a suspeita fundamentada de que empresas financeiras controladas por
grupos terroristas, próximos da Al-Qaeda, especularam com as acções de companhias
ligadas ao turismo, à aviação civil e aos seguros, vendendo-as na alta, antes dos actos
terroristas de 11 de Setembro, e voltando depois a comprá -las, em baixa, depois dos
atentados, fazendo fabulosos lucros... Na altura, a administração americana anunciou que
iria proceder a um inquérito rigoroso e aprofundado sobre a questão investigando os
chamados “paraísos fiscais” e as “off shores” especulativas, mas nada mais se soube. O
escândalo das chamadas “contabilidades criati vas”, descoberto em multinacionais tão
importantes como a Enron, terá contribuído para aconselhar alguma prudência, nesse tipo de
inquéritos, não fosse abrir-se, subitamente, a “caixa de pandora”...
A globalização, tal como a conhecemos, é um fenómeno inelutável no estágio do
desenvolvimento humano e civilizacional em que nos encontramos. Não a podemos anular
ou ignorar. Mas podemos, talvez, impor-lhe regras éticas, como preconizou a ex-Alta
Comissária para os Direitos Humanos, Mary Robinson.
Como? Só vejo um meio: através da pressão da opinião pública mundial – a chamada
cidadania global, outro aspecto, este positivo, da globalização – e dos meios jurídicos
internacionais, onde os Ombudsmen têm, seguramente, uma importante palavra a dizer, por
forma a modificar radicalmente o comportamento e a acção das instâncias financeiras
internacionais (B.M. e F.M.I., mas também a O.M.C.), que deviam pronunciar-se claramente
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e condenar o gravíssimo problema da globalização desregulada, provocando um debate nas
Nações Unidas, a fim de vir a impor-lhe regras éticas, de acordo com os princípios que
fundamentam a própria Carta das Nações Unidas.
A globalização desregulada está a provocar uma enorme erosão nos próprios Estados
Nacionais e, consequentemente, nos sistemas democráticos que ainda os regem. Numa
assembleia composta, fundamentalmente, por ilustres juristas ibero-americanos não preciso
de dar exemplos, porque surgem seguramente no pensamento de todos, com uma evidência
meridiana.
Os ataques especulativos dirigidos contra as moedas nacionais, com o objectivo de
fazer ajoelhar perante as imposições do império do capital, os seus dirigentes, por mais
legitimados democraticamente, independentes e honestos que sejam, o problema asfixiante
das dívidas externas – e dos respectivos juros – a injusta fixação dos preços das matérias
primas e dos produtos agrícolas, sem audição nem acordo dos principais interessados, os
países produtores, a tentativa de destruição do Mercosul, sem que a União Europeia tivesse
interferido minimamente em seu favor – como aliás era do seu interesse, e em particular da
Espanha e de Portugal – são alguns exemplos manifestos e irrecusáveis da tremenda
devastação “globalizadora” que estão a sofrer os Estados Ibero-Americanos e as suas
democracias.
Contudo – note-se – a globalização desregulada não tem sido negativa tão só para a
Ibero-América. Tem atingido por forma muito negativa a África, um continente à deriva, e a
Ásia, para não falar do Médio Oriente, onde os perigos de um novo desenho do mapa da
Região – especialmente das áreas onde há ou passa o petróleo – estão á vista. E não será a
“fuga para a frente” de uma guerra contra o Iraque que os irá resolver. Bem pelo contrário: as
consequências imprevisíveis de uma tal acção, a ocorrer, serão seguramente terríveis, para
todos.
Não podemos ignorar que desde antes dos atentados de 11 de Setembro, o Japão, a
América do Norte e a União Europeia (por esta ordem cronológica) estão a braços com uma
persistente recessão económica para a qual não se vê saída à vista. Poderá mesmo agravar-
-se, na minha modesta opinião, se não forem impostas regras à globalização e emendados,
pelos grandes centros de decisão económica mundial, os erros fatais do neo-liberalismo,
através de ousadas políticas económicas e sociais de tipo neo-keynesiano.
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É neste contexto económico-político, muito complexo, que lembra os anos trinta –
embora os paralelos históricos sejam sempre perigosos – que temos de encarar e tentar
resolver a crise das democracias e o relativo abrandamento, que se vem sentindo no plano
mundial, na defesa dos direitos humanos. Volto aos media, para dar um exemplo do que
pretendo dizer: até aos atentados terroristas de 11 de Setembro, praticamente não se passou
um dia em que as televisões não referissem a situação da Chechénia e os graves atentados
aí cometidos, pelos russos, contra os direitos humanos. Com a guerra do Afeganistão – e a
necessidade de recorrer ao apoio da Federação Russa – deixou de se falar da questão dos
direitos humanos na Chechénia. Será que só se deve reclamar o respeito pelos direitos
humanos quando politicamente isso convém, e como arma política? Creio, pelo contrário,
que os Direitos Humanos são universais e indissociáveis e não podem ser avaliados,
utilizando o critério dos dois pesos e duas medidas, segundo politicamente convém ou não.
A luta contra o terrorismo do fundamentalismo islâmico – definida pela administração
americana como uma prioridade absoluta e uma “guerra” longa – tem, no entanto,
características muito especiais, uma vez que nenhum Estado se assumiu como “inimigo”
(autor ou responsável dos atentados) embora haja alguns que tenham sido designados como
fazendo parte do “eixo do mal”, expressão imprópria, de sentido religioso e sem verdadeiro
conteúdo em termos do Direito Internacio nal.
É obvio que a luta contra o terrorismo deve ser prosseguida com a maior
determinação e energia, embora o inimigo seja incerto e esteja escondido. Está fora de
questão outro procedimento. Mas, por isso mesmo, deve ser conduzida com conhecimento
efectivo, irrefutável e com muita inteligência. Não pode ser conduzida unilateralmente,
apostando tão só na força militar, à margem das Nações Unidas e sem ter em conta os
princípios fundamentais do Direito Internacional, tais como têm vindo a ser aprofundados,
desde o fim da II Guerra Mundial.
Se a administração Bush pretende que se trata de uma “guerra”, então devem aplicar-
-se aos prisioneiros de Guantánamo, as Convenções de Genève, o que não tem sido o caso.
E, de qualquer maneira, como pessoas humanas que são, apesar dos prisioneiros serem
acusados de actos terroristas, mas não estarem ainda condenados por sentenças transitadas
em julgado, como se diz no direito português, deve reconhecer-se-lhes aqueles direitos que
têm todos os detidos antes de irem a julgamento, e nomeadamente o direito a advogado e à
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organização da defesa, o que também parece não ter estado a acontecer. São casos que
ofendem a formação de qualquer jurista, por mais modesto que seja e que não podem pas-
sar sem reparo.
Não quero abusar da vossa paciência. Falei, seguramente, mais do que devia, numa
sessão desta natureza. A verdade é que não resisti, pela alta consideração e respeito que
todos me merecem, à oportunidade de partilhar convosco algumas reflexões – e mesmo
angústias – que me s uscita hoje a temática que me foi proposta.
Sou um democrata, que viveu mais de trinta anos da sua vida consciente, sob uma
feroz e obsoleta ditadura e que sempre se bateu pela liberdade e em defesa dos Direitos
Humanos. Sou um apagado jurista e um político que acompanhou, com toda a atenção, o
evoluir e as vicissitudes das democracias no mundo. Entendo que estamos a viver tempos
muito difíceis e a Ibero América muito em especial. A Ibero-América, que eu tanto admiro
pelo génio criativo dos seus Povos, pelo seu tão vincado multiculturalismo, pela admirável
explosão das suas artes, letras e ciências, pelas excepcionais potencialidades das suas
terras e gentes.
A democracia é uma flor frágil que deve ser permanentemente cuidada, para se
aprofundar e adaptar aos novos tempos. É um sistema de boa governação, que repousa na
separação dos poderes, no respeito das regras da Lei, no atempado funcionamento e
isenção da Justiça, na transparência, na transitoriedade do poder, no desenvolvimento
sustentado da economia e no equilíbrio social, obtido pela concertação e pelo diálogo.
Nos tempos que correm, de grande desequilíbrio social, em que o fosso entre pobres
e ricos (pessoas e Estados) cada vez mais se aprofunda, de grande criminalidade
internacional, em que o poder económico – sem qualquer legitimidade democrática - se
sobrepõe ao poder político legitimado pelo voto e o condiciona, com algum descontrolo no
plano da justiça, a luta pela democracia adquire, necessariamente, uma dimensão
internacional e é indissociável da luta pelo Direito Internacional e pela paz.
Os “Ombudsmen” – como defensores do Povo, provedores de Justiça (como lhe
chamamos em Portugal) ou como mediadores entre a Sociedade e o Estado, desempenham
um papel da mais alta importância na credibilização da Justiça, ao serviço das populações e
contra os abusos do poder.
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Por isso se deposita tanta esperança no aprofundamento do vosso trabalho e na troca
de experiências que resultam de Congressos, como o que se realiza em Lisboa. Por isso,
ainda, volto a saudá-los, com o maior respeito, formulando os melhores votos de bom
trabalho.
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