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- A Vida em Sociedade e a Exigência Ética
Texto integral (4769 palavras)
A Vida em Sociedade e a Exigência Ética
Introdução
1. Não sei como agradecer o convite que me foi feito para estar aqui hoje,
convosco, a falar sobre «a vida em sociedade e a exigência ética». Dizer que o convite
me honra é dizer muito pouco. Além disso, sinto que a abordagem de um tema como
este – de tal magnitude – pode bem ser tarefa que excede as minhas forças.
Qualquer dicionário – incluindo a wikipedia neste conceito de «dicionário» –
nos diz que a palavra ética provém de ethos, um termo grego que significava
«carácter», «disposição», «hábito», «costume». Dizem também os dicionários que,
em latim, o sinónimo estaria no termo mos, mores, que, significando igualmente
«hábito» e «costume», terá dado origem, na nossa língua, à palavra «moral».
Normalmente, os estudos filosóficos distinguem com maior precisão entre os sentidos
a dar às duas palavras – dando ao termo ética um significado que não será totalmente
coincidente com aquele que é dado à palavra moral. Mas eu proponho que, por agora,
passemos por cima desta distinção e que assentemos apenas no seguinte: se as
palavras ética e moral têm sentidos que serão em parte comuns, e se todos eles nos
remetem para o «carácter», a «disposição», os «costumes» e os «hábitos» que temos
ou adotamos, então, falar de exigência ética implicará sempre uma reflexão crítica
sobre o modo como nos comportamos, visto que os nossos comportamentos serão
sempre inspirados por «disposições», e estas por seu turno poderão ser determinadas
por «hábitos» e «costumes» que, como acontece com todos nós, acabamos por
interiorizar e seguir sem disso ter muitas vezes consciência crítica.
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Mas, se assim é – dir-me-ão, e adianto desde já, dir-me-ão muito
justificadamente – falar sobre a «vida em sociedade e a exigência ética» implicará
iniciar uma conversa sem fim à vista. O modo como nos comportamos inclui o
comportamento em relação a nós próprios e o comportamento em relação aos outros;
e como os indivíduos da nossa espécie são incapazes de sobreviver sozinhos, mal
nascemos dependemos do outro e dos outros com os quais nos relacionamos. Uma
vez que a coisa continua pela vida fora – na família em que nascemos; na escola que
frequentamos; no bairro em que moramos; nos amigos que fazemos; na família que
nós próprios constituímos; no trabalho que encetamos; e, finalmente, no país que é o
nosso, porque nele nascemos ou porque nele vivemos – então, falar sobre a «vida em
sociedade e a exigência ética» será, como disse no início, tarefa inabarcável porque
incidente sobre a vida toda.
Para evitar este escolho – o de iniciar uma conversa que não tem fim à vista –
resolvi restringir o tema às exigências éticas que devemos impor a nós próprios na
relação mais vasta que estabelecemos com os outros, pelo menos na escala crescente
de vastidão que está implícita nos exemplos que atrás vos dei, e que é aquela que
estabelecemos com o país que sentimos como nosso. Em certo sentido, esta minha
escolha pressupõe que adotemos como boa a distinção básica entre duas esferas de
relações: as que relevam de um domínio a que poderemos chamar privado – e que
englobam, por exemplo, as relações que estabelecemos na família e nas outras
comunidades às quais pertencemos – e a quele outro domínio ao qual poderemos
chamar público, e que englobam as relações que estabelecemos na comunidade mais
vasta na qual tecemos, ao longo da vida, os nosso elos de sociabilidade. Como todas
as distinções cerces, também esta, que eu aqui adoto entre o domínio privado e o
domínio público do nosso universo relacional, deve ser entendida de modo suave.
Perante a infinita complexidade da vida, e da teia de relações que vamos
estabelecendo ao longo dela, a distinção entre a esfera privada e a esfera pública dos
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nossos relacionamentos não pode ser tida como um dogma. É apenas uma distinção
tendencial, ou um critério operativo, que adoto agora para que possamos continuar a
conversar. Neste sentido, restringir o nosso exame à análise crítica do modo como nos
comportamos nesta específica esfera da vida que é a vida pública implica também
restringi-lo ao domínio da política: não da política no sentido que o termo hoje
adquire na vida de todos os dias, mas no sentido que se lhe atribui desde que há
reflexão sobre a vida dos homens em sociedade. É que, aqui, o termo política significa
tudo o que tem que ver com a polis, e esta remete para a cidade, na qual se vivem os
laços mais amplos que nos ligam aos outros, a todos os outros, com os quais nos
relacionamos.
2. Todavia, a tarefa continua a não ser fácil, mesmo que restrinjamos a nossa
análise apenas a este específico universo público. Todos os dias ouvimos falar, na
televisão e nos outros meios de comunicação social, da necessidade da ética na vida
pública. A discussão surge hoje com uma tal frequência, e reveste-se de uma tal
intensidade, que não podemos deixar de ficar em alerta quanto à importância – mas
também quanto à dificuldade – de que se reveste o tema. Além disso, as opiniões que
ouvimos a este propósito são tão díspares que, perante elas, ficamos muitas vezes
confusos e perplexos (eu por mim falo). Uns dizem que a exigência ética na vida
pública é algo que está em muita falta, e que é por isso urgente suprir, para usar uma
palavra da moda, o deficit existente neste domínio. Outros dizem que, na vida pública,
ser ético é cumprir a lei, e que, portanto, aí onde for observada a legalidade será
também observada a exigência de eticidade. E finalmente há ainda quem acuse de
«moralistas», e de falsos «moralistas», aqueles que entendem que há falta de ética na
vida pública, os quais, vendo-se a si próprios como os paladinos de todas as virtudes,
mais não quererão do que impor aos outros as suas próprias convicções. Perante este
caudal de argumentos e contra-argumentos a perplexidade e a confusão serão, creio
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eu, reações naturais, que se vão tornando mais intensas à medida que vamos
verificando que a discussão se não restringe ao nosso país – tendo pelo contrário um
terreno de aplicação e desenvolvimento que é muito mais vasto do que aquele que
cabe dentro das nossas fronteiras nacionais.
Por todas estas razões, gostaria de ser capaz de vos apresentar um roteiro que,
na medida das minhas possibilidades, ajudasse a aplacar a «confusão».
Estou convencida que, nesse roteiro, o ponto de partida tem de ser aquele que
é proporcionado pela perspetiva histórica. Compreender como chegámos até aqui é
algo que nos ajuda a compreender melhor a situação em que nos encontramos. E,
neste contexto, a palavra «aqui» não indica apenas o país em que vivemos. Indica
mais amplamente o nosso mundo: tentar compreender o tempo histórico em que nos
foi dado viver, e tentar compreender por que motivo é nele tão intensa a discussão
sobre a presença ou ausência de ética na vida pública, é o grande desafio que nos
espera. Enfrentá-lo será, por certo, resolução ambiciosa. Mas, mesmo assim, optarei
pela ambição, uma vez que não vejo por que outra via poderia eu responder ao repto
que me foi lançado.
I. Compreender o nosso mundo: como chegámos até aqui?
3. O pensamento sobre as exigências éticas na vida em sociedade, encarada esta
última no sentido público ou político a que atrás fiz referência, é tão antigo quanto o
é a reflexão do homem sobre si mesmo e sobre a sua condição. A nós, que somos
herdeiros de uma tradição intelectual que se iniciou na Grécia antiga, marcaram-nos
sobretudo alguns pontos da sua «filosofia política» que, apesar de terem sido pensados
há 2.500 anos, continuam a merecer a nossa atenção, tão ricos e profundos eles foram.
Os antigos, que viviam em circunstâncias completamente diferentes das nossas – em
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cidades muito mais pequenas, com muito menos gente, e sem ciência e tecnologia, no
sentido moderno dos termos – estavam convencidos que a grande interrogação ética
que se deveria endereçar à chamada vida pública era a seguinte: qual a melhor forma
possível de organização das cidades? A discussão incidia sobre a questão de saber
qual seria o melhor regime político que se deveria adotar; e por «melhor regime
político» entendia-se aquele que, pelas suas características, se deveria preferir a
qualquer outro, por se mostrar mais apto não só a garantir o exercício de um bom
governo – com a manutenção de uma saudável e consistente paz pública – mas
também a permitir aos seus cidadãos a fruição de uma vida plena, apoiada por leis
justas e salvaguardada de interferências arbitrárias que nela pudesse vir a ter o poder
político.
Tida nestes termos, a discussão da filosofia antiga foi imensa. Mas creio que
não será inexato dizer que, em síntese, ela (a discussão) se saldava no seguinte: em
geral, para os antigos não havia um único regime que à partida se devesse considerar
melhor ou preferível a qualquer outro. Estes nossos longínquos antepassados
distinguiam as diferentes formas de governo de acordo com o número de titulares do
poder político – a monarquia caracterizar-se-ia por ser o regime em que um só
governava; a aristocracia seria o regime em que o poder pertenceria a uma grupo
restrito de pessoas (os aristoi, os melhores); e a democracia, por seu turno, seria a
forma de governo em que o poder caberia ao maior número, à maioria de todo um
povo. À partida, diziam eles, cada uma destas formas apresentaria virtudes e
inconvenientes, pelo que se não poderia concluir em abstrato que um deles fosse
melhor do que qualquer outro. Era certo que a ética exigia que se fizessem distinções;
só que o critério que orientava o dinstiguo não estava tanto na titularidade do poder
político quanto no seu concreto modo do seu exercício. Este ponto é importante, e
vou por isso demorar-me um pouco mais na sua análise.
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De acordo com este pensamento «antigo ou «clássico», que agora resumo,
haveria fundamentalmente que distinguir entre «regimes políticos puros» e «regimes
corruptos ou degenerados». Note-se que, também aqui, o termo «corrupção» tinha um
significado algo diverso do que aquele que hoje lhe atribuímos. Não significava,
necessariamente, venalidade. Significava apenas que a certa altura, e com o devir
histórico, o regime podia «estragar-se». E que tal acontecia sempre o titular do poder,
em vez de o exercer em nome de todos e para o bem de todos (sendo assim animado
por hábitos, disposições interiores e costumes que mereceriam o aplauso de qualquer
reflexão ética), passava a exercê-lo tendo apenas em vista o seu próprio bem, ou tendo
apenas em vista vantagens próprias de certos sectores ou interesses da sociedade.
Quando tal acontecia – dizia-se – o regime, que no seu início fora «puro», tornava-se
degenerado e corrompia-se. Quando tal acontecia – dizia-se ainda – a monarquia
degenerava, e tomava a forma corrompida da «tirania»; a aristocracia degenerava, e
adotava a forma corrompida da «oligarquia»; a democracia degenerava, e adquiria a
forma corrompida da «demagogia». Como se antevissem os resultados da aplicação
da segunda lei da termodinâmica aos sistemas políticos, os antigos achavam que esta
entropia dos regimes era uma inevitabilidade, tendo em conta a natureza perecível e
falível de todas as construções humanas. Por isso, refletir sobre as exigências éticas
na vida pública significava nessa altura enfrentar a questão de saber como se poderia
evitar esta «entropia»: como obviar ao declínio histórico das formas «boas», e impedir
que tais formas se transformassem em modos de governo «degenerados» ou
«corruptos», era a questão que ocupava centralmente estes nossos antecessores.
II. Os desafios do tempo presente
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4. É evidente que nós, que somos gente deste tempo que é o nosso, que vivemos
num universo cultural tão diferente deste que eu acabei de descrever, não
circunscrevemos nem podemos circunscrever a discussão sobre a exigência ética na
vida pública a este tema, que era próprio da filosofia política clássica (sobretudo da
Grécia clássica). Quanto mais não seja porque a teoria dos regimes políticos que eu
acabei de descrever já não faz o menor sentido no nosso tempo. Como diz o escritor
francês Pierre Manent, «[a] democracia moderna não é para os seus partidários, isto
é, todos nós, um regime político entre os outros, nem mesmo o melhor, mas é a única
organização legítima da vida em comum dos homens». Aqui se resume a imensa
distância que separa a nossa cultura da cultura clássica que eu abordei antes. É que
enquanto os clássicos analisavam o valor dos diferentes regimes políticos de acordo
com critérios atinentes à legitimidade de exercício – nenhum regime seria à partida
legítimo apenas pelo título dos governantes; mas qualquer regime poderia perder a
sua legitimidade pelo exercício corrupto desse mesmo título –, nós, modernos, somos
herdeiros de uma tradição intelectual que avalia os regimes políticos de acordo com
critérios estritos de titularidade. E, nesses critérios, só aquele regime em que o título
da governação pertence a todos, e não a um só ou a muito poucos, aparece como
legítimo, e, portanto, como eticamente válido.
Chegámos até aqui depois de um longo caminho histórico, iniciado porventura
no Renascimento, afirmado depois com as revoluções iluministas do século XVIII, e
reafirmado finalmente a partir de 1945, quando o Mundo se procurou reconstruir a
partir dos escombros da Segunda Grande Guerra. Todos o sabemos e eu não vou
reproduzir agora as etapas fundamentais deste itinerário. Neste momento, pretendo
apenas sublinhar o seguinte:
Apesar de toda a distância que nos separa a nós, modernos, das circunstâncias
de vida que eram as próprias dos pensadores clássicos, nem por isso a lição
fundamental que nos legaram se nos mostra completamente inútil. É que as
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instituições democráticas, nas quais acreditamos e que consideramos legítimas,
também se podem corromper; e tal acontecerá, se formos levados a perder a confiança
que nelas depositamos. Se tivermos razões para pensar que elas já não são instituições
sólidas; se tivermos razões para crer que elas já não estão em condições de garantir –
nem pelo seu desenho nem pelo seu desempenho – que os titulares de cargos públicos
colocam os interesses coletivos acima dos interesses individuais; se, enfim, tivermos
razões para concluir que elas já não estão em condições de garantir os fins do bom
governo, tal como os antigos os definiam.
Temos razões para pensar deste modo?
Não creio que possamos e devamos dar uma resposta global, negativa ou
positiva, a esta pergunta. Parece-me antes que há certas instituições democráticas que
são particularmente desafiadas pelo repto dos tempos presentes. Creio também que é
este particular desafio que explica o clamor global que se tem vindo a fazer sentir
sobre o tema que nos ocupa. A questão da ausência de ética na vida pública, e a
intensidade com que o problema é tratado, é um sintoma que tem a sua origem nas
transformações que estamos a viver. Finalmente, penso também que, à semelhança
do que aconteceu em outros períodos históricos, da análise serena do que está a
acontecer pode nascer brevemente, não a rutura, mas a adaptação, o aggiornamento,
dos valores básicos da democracia perante os desafios do tempo presente.
Dito isto, onde é que reside, precisamente, o desafio, e como é que ele se
manifesta? Creio que os problemas se fazem sentir, especialmente, em três domínios:
(i) na instituição da representação política, e na ideia de mandato livre; (ii) na força
própria de valores pacíficos, de cooperação; (iii) na capacidade dos Estados para
resolverem sozinhos os problemas da governação.
III. Os desafios do tempo presente e o mandato representativo
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5. Será certo que se iniciou já um tempo crítico para a sobrevivência das
democracias? Será certo que estamos a testemunhar mutações de grande alcance no
funcionamento das instituições democráticas? A resposta, creio, encontrar-se-á se
analisarmos a capacidade de adaptação, ou de resistência, que cada um destes três
elementos que acabei de enunciar terá face aos reptos do tempo presente.
Em primeiro lugar, a capacidade de adaptação, ou de resistência, do instituto
da representação política face aos reptos do tempo presente. Mas em que é que
consiste este instituto da representação política? Qual o significado a atribuir à
expressão, e por que motivo se lhe deverá reconhecer tanta importância?
Os nossos antecessores do mundo antigo, que viviam em espaços humanos e
territoriais muito mais pequenos do que os nossos, quando refletiam sobre a questão
da ética na vida pública concluíam que uma das exigências que ela (a ética) reclamava
era a de que todos os cidadãos fossem tidos como iguais perante a lei e como tal
fossem tratados. Nós também assim concluímos, e este é um dos pontos em que, não
obstante todas as diferenças, nos vemos a nós próprios como os continuadores de um
pensamento de séculos. Só que os antigos retiravam deste axioma, segundo o qual
todos deviam ser tidos como iguais perante a lei, conclusões que as nossas
circunstâncias modernas já nos não permitem que retiremos. Eles (os antigos),
achavam que à igual condição de todos perante a lei se devia associar a igual faculdade
de cada um de tomar a palavra em todas as assembleias deliberativas, a qualquer
momento e através de diretas intervenções.
A ideia de representação política, na sua formulação moderna, trouxe a negação
desta faculdade de intervenção de cada um nos assuntos da administração. Nas
condições de vida moderna nem de outro modo poderia ser. Nos espaços territoriais
e humanos que são os nossos, muito mais vastos do que aqueles em que viviam os
nossos antepassados, e na complexidade económica e industrial da nossa organização
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social, o ideal da intervenção direta de todos os cidadãos nos assuntos de governo
tornou-se, pura e simplesmente, um ideal impraticável.
Assim, desde há algum tempo que nós, modernos, entendemos que não haveria
boa ordem, nem se asseguraria a possibilidade de um bom governo, se os governantes
não fossem escolhidos para exercer mandatos representativos longos, estáveis, e
independentes de quaisquer imperativos que viessem a ser impostos pelos eleitores.
Numa das melhores obras doutrinárias sobre as instituições da democracia moderna
– os Federalist Papers, assinados pelo pseudónimo Publius – chega a dizer-se, a
propósito deste último requisito de independência, que «os representantes eleitos
contariam com a gratidão do povo para com aqueles homens que tivessem a coragem
e a magnanimidade suficientes para o servir [ao povo], correndo o risco de lhe
desagradar» (Publius, & 71).
Esta afirmação, hoje, faz-nos sorrir, de tão longínqua ou inadequada ao nosso
tempo nos parece. Toda a edificação da teoria moderna dos mandatos livres e
representativos se baseou no princípio segundo qual a representação política, por si
só, seria capaz de apreender o interesse geral. Mas o que hoje verificamos é que se
instalou a desconfiança generalizada nesta capacidade [de apreensão do interesse
geral]. As razões que explicam que tal aconteça são múltiplas, e variarão por certo de
acordo com a condição específica de cada país; todavia, creio que um pouco por todo
o lado se sente que as alterações recentes nos meios de comunicação do espaço
público, e, logo, nos instrumentos de formação da opinião pública, têm contribuído,
na sua forma contemporânea de imediação, para deslegitimar em geral a própria
instituição da representação política. É que vem irrompendo também um pouco por
todo o lado – e ainda de forma caótica e desordenada – a ideia difusa segundo a qual
à instantaneidade da comunicação pública, feita sem imediação, diretamente e sem
filtragens, pode vir a estar associada um modo inorgânico, informal mas mais
«autêntico» de exercício da soberania popular. Porém, nada de mais estranho ao que
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tem sido até agora o lastro da democracia moderna. Ainda está portanto por saber se
deste «estado de coisas» virá a nascer um novo equilíbrio entre formas inéditas de
democracia direta e os instrumentos «clássicos» da democracia representativa. Certo
é que, aqui, no coração de um dos elementos fundamentais da democracia moderna,
uma viragem crítica se terá iniciado.
IV. Os desafios do tempo presente e a força dos valores de cooperação
6. A democracia não é apenas o lugar natural da representação política; é
também, na sua forma moderna – como o era já na forma clássica –, o lugar natural
do debate e da deliberação. Todavia, como a democracia dos modernos convive com
um pluralismo de visões do mundo cuja amplitude o mundo antigo seguramente não
conheceria, ela requer e pressupõe um especial equilíbrio entre dois grupos distintos
de valores: de um lado, o grupo dos valores competitivos e agónicos, nos quais se
inspira o confronto plural de opiniões; do outro lado, o grupo de valores pacíficos e
cooperativos, que, cimentando a pluralidade, garante que esta última se não
transforme em desagregação. Uma coisa não vai sem a outra. O debate e a deliberação
só podem acontecer se os seus agentes aceitarem regras comuns de comportamento
quanto ao que pode ser dito e quanto ao que pode ser feito. As constituições, na sua
específica dimensão moderna, são essencialmente o repositório destas regras comuns:
sem elas, e sem o seu efeito integrador, o exercício da democracia moderna tornar-se-
ia em si mesmo impossível de conceber. Todavia, para que o constitucionalismo
moderno funcione, necessário é que à competição entre interesses rivais se associe a
possibilidade da cooperação livre em interesses comuns: aí onde a existência destes
últimos for filosoficamente contestada não haverá lugar para o conceito ocidental e
moderno de constituição. Precisamente por isso foi este conceito totalmente ignorado
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pelos sistemas filosófico-políticos que, na história do século XX, se ergueram sobre
a ideia segundo a qual seria todo o universo da política um mundo agónico por
excelência, sem espaço possível para a cooperação livremente aceite.
Nesta negação – vivida e praticada, sobretudo, pelas democracias populares,
expressão da mais duradoura suspensão histórica do conceito ocidental, moderno, de
constituição que se conhece – a visão conflitual e estritamente agónica do «regime
político» sustentava-se na chamada infra-estrutura económica. O conflito de classes;
as fracturas sociais decorrente dos modelos de organização do capital; a categoria
filosófica da «alienação» provocada por tais fracturas (e o meu resumo é
inevitavelmente rápido e grosseiro), geravam uma filosofia política que só podia
conceber a democracia como sendo o reino exclusivo do combate agónico,
irremediavelmente conflitual. Num mundo assim configurado não haveria qualquer
espaço para a aceitação livre de valores de cooperação e de pacificação: pelo menos
enquanto a dialética do conflito entre o «senhor» e o «servo» se não desenvolvesse
plenamente até à emancipação total da servitude, o universo da política não poderia
ser outra coisa que não um combate até ao último sangue. Nesta visão das coisas, não
tinha nem podia vir a ter qualquer curso o conceito moderno de constituição.
Nesta segunda década do século XXI, a esta visão agónica da vida política
sustentada na infraestrutura económica parece ter sucedido uma outra visão, não
menos conflitual, mas desta vez baseada numa espécie de superestrutura cultural.
Refiro-me à crescente importância que vêm tendo no discurso público geral – e até
no discurso jurídico sobre os direitos humanos – as chamadas políticas de identidade,
todas elas perpassadas por uma luta pelo reconhecimento que, ao invés de se sustentar
na categoria filosófica da alienação económica, se parece basear numa ideia matricial
de irredentismo cultural. Nesta visão das coisas, a democracia também não pode ter
momentos de cooperação e de pacificação, porque novamente conflitual – e só
conflitual – é o horizonte histórico de que dispomos. Só que este novo conflito,
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pensado e vivido de forma a que se não anteveja brevemente para ele qualquer
remissão, já não decorre (digamos assim) entre classes sociais mas entre classes
culturais: de um lado, estarão aqueles agentes da História que, ao longo dela, foram
tecendo um constructum cultural que se destinou a tornar o outro (o outro do género,
o outro da raça, o outro da religião, o outro da geografia) invisível; do lado de lá estará
esse outro, o culturalmente excluído, que aparece agora no palco da História a exigir
o reconhecimento da dignidade que lhe é devida. A partir do momento em que esse
outro – o excluído – se vê a si mesmo como sendo portador de uma experiência
histórica de invisibilidade e de humilhação que não é, por razões profundas de
identidade, comunicável a quem a não tiver vivido [lembro-me do segundo volume
do livro de Beauvoir, O Segundo Sexo, que se intitula L´experience vécue: a
experiência vivida é tal, tão identitária, que só pode ser compreendida por quem a
viveu; é uma Erlebnis, não uma Erfahrung], torna-se impossível conceber uma
democracia que contenha espaços para aceitação livre de valores de cooperação e de
pacificação. Como aceitar regras comuns de comportamento quanto ao que deve ser
dito e quanto ao que deve ser feito se o mundo político se fraciona em identidades
com discursos entre si não comunicáveis? Eis, pois, um segundo problema este, que
se abre claramente à condição da democracia na atualidade.
V. A «globalização»
7. Para além dos dois problemas que acabei de mencionar, um terceiro –
porventura o mais grave e profundo de todos eles – ainda se perfila. Refiro-me à muito
falada «globalização», e à forma como ela veio atenuar a capacidade de cada Estado
para levar a cabo, de modo isolado e só por si, as funções de governação que
naturalmente lhe cabem. Todas as instituições da democracia moderna foram
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pensadas para serem aplicadas a espaços territoriais bem identificados, que durante
muito tempo coincidiram com as fronteiras de cada Estado-nação. A revolução
tecnológica e de comunicação que hoje vivemos veio trazer, de uma forma
estonteante, a alteração considerável deste estado de coisas. Funções essenciais há
que antes podiam ser levadas a cabo por cada poder estadual, individualmente
considerado, e que agora são, necessariamente, de exercício interdependente, uma vez
que pressupõem a ação concertada de vários estados e organizações. Estou a pensar
nas funções fundamentais de garantia da segurança das pessoas; mas estou também a
pensar nas decisões sobre políticas económicas, com efeitos determinantes na
redistribuição de rendimentos e em todas as esferas da vida – da família à educação,
passando pelo emprego pela chamada «coesão territorial». Este é, no tempo presente,
um problema maior, mas para o tratar convenientemente seria necessária uma outra
conferência.
Termino agora esta, concluindo da seguinte maneira.
Neste nosso tempo, a vida em sociedade foi afetada por certas placas tectónicas,
movidas pela História, que criaram algumas fissuras no tecido comum. Sentimos
todos os efeitos dessas fissuras. Mas acredito profundamente que, tal como noutras
alturas aconteceu, também agora teremos imaginação suficiente para cauterizar as
feridas, compondo o que se estragou e adaptando o que se desadaptou. Importante por
isso é que saibamos identificar os lugares em que ocorreram os maiores estragos, para
que os possamos reconstruir. Na medida das minhas possibilidades, procurei
contribuir para tal identificação.
Muito obrigada,
Maria Lúcia Amaral
Fátima, 22 de outubro de 2019
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