Provedor de Justiça
Documento Estabelecimento_Prisional_do_Porto
- Meio processual
- RECOMENDAÇÃO
- Emitente
- O PROVEDOR DE JUSTIÇA, AS PRISÕES
Texto integral (4983 palavras)
O PROVEDOR DE JUSTIÇA, AS PRISÕES
E O SÉCULO XXI:
DIÁRIO DE ALGUMAS VISITAS (XIII)
RELATÓRIO DA VISITA AO
ESTABELECIMENTO PRISIONAL DO PORTO
Na defesa do Cidadão: perceber para prover.
Estabelecimento Prisional do Porto
20 de abril de 2017
10h:45m – O dia estava um pouco enevoado em Matosinhos.
Foi de imediata notada a minha chegada naquela que é comummente
conhecida como a “Prisão de Custóias”.
I. Após transpor a porta branca da entrada do estabelecimento penitenciário,
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procedo à minha identificação no guichet da portaria que serve para esse efeito. Esta
divisão tem um pequeno balcão e, na parede oposta à porta, possui um quadro
afixado com diversas informações atinentes ao funcionamento do local onde me
encontro. No exterior desta sala e em um corredor que serve de acesso para o
complexo prisional, vejo um pórtico detetor de metais e, pousado em uma mesa que
ali se situa, um equipamento com idêntica finalidade mas portátil.
Conheço o responsável pelos elementos do corpo da guarda prisional e,
instantes depois, o senhor diretor, Dr. José Júlio da Silva, pessoas que atentam na
breve explicação sobre a minha presença e o seu objetivo e que me vão acompanhar
na visita.
Antes de ingressar na zona prisional propriamente dita, passo ainda por uma
zona contígua que é usada como entrada pelas pessoas que visitam quem se
encontra em reclusão. Está, de igual modo, apetrechada com um guichet para
identificação de quem ingressa no estabelecimento prisional e que será, em uma sala
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vizinha, objeto de revista. Observo também um aparelho de raio-x, semelhante aos
que existem nos aeroportos, para controlo dos bens que serão entregues aos
reclusos.
II. A criação do Estabelecimento Prisional do Porto remonta à segunda
metade do século passado e, depois do traço inicial do arquiteto Raul Rodrigues
Lima e das alterações então realizadas, o seu projeto adotou a tipologia de modelo
de espinha, também denominada de poste telegráfico. São, assim, quatro os
pavilhões prisionais que estão dispostos paralelamente entre si, com ligação por
meio de um corredor central, o qual dá acesso a outras valências da penitenciária,
como sejam os refeitórios ou o ginásio.
Os pavilhões de alojamento são designados pelas letras A a D e neles se
acomodavam, à data da minha visita, 1223 reclusos, sendo que destes, 923 tinham
contra si uma decisão penal condenatória, em muitos casos decorrente da prática de
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crimes contra as pessoas. O passar do tempo e as necessidades reclusivas que se
fizeram sentir determinaram, deste modo, a mudança da população da referida
penitenciária que foi, em um primeiro momento, pensada para acolher as pessoas da
zona norte do país que aguardavam o seu julgamento em prisão preventiva.
Sublinhe-se, do mesmo jeito, que a ocupação do estabelecimento prisional excede
praticamente o dobro da sua lotação, a qual se cifra, por sua vez, em cerca de sete
centenas de pessoas.
Sublinhe-se que, face ao número de reclusos afetos à prisão que me
encontro, é reduzido o quantitativo dos profissionais que zelam pela segurança e
pela salutar convivência intra muros: 191 elementos – incluindo chefias – do corpo
da guarda prisional. Registe-se ainda que, de entre estes, 11 guardas prisionais são do
género feminino e, depois de ter dialogado com algumas, concluo que o
relacionamento com os colegas é bom.
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III. Entro no conjunto de edifícios que constituem a zona prisional
propriamente dita e acedo a um hall que possibilita a passagem para as salas de
visitas, o corredor central e os gabinetes da direção. Também ali se encontra um
gabinete para o pessoal de vigilância e a sala de videovigilância, sendo esta a que
observo em primeiro lugar.
A par do comum mobiliário de escritório (mesas e cadeiras), o recheio desta
sala é composto por dois servidores e seis televisores, estes dispostos em duas filas
de três, cada um deles apresentando as imagens provenientes de 20 câmaras, à
exceção de um que não se encontrava em funcionamento. Uma vez que algumas das
câmaras estão em processo de instalação, observo partes dos ecrãs a negro. Das
imagens que vejo, posso concluir que é vasta a área abrangida pelo circuito fechado
de televisão, o qual capta imagens que são guardadas, em regra, por 30 dias em um
dos dois discos rígidos destinados a tal desiderato.
São três os elementos do corpo de guarda prisional que têm acesso à sala
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onde me encontro e que podem visualizar, em direto, as imagens de vários pontos
do estabelecimento prisional. Para além destas pessoas, também o diretor da prisão
e o chefe dos guardas prisionais podem ver as imagens captadas, tendo
inclusivamente a possibilidade de o fazerem quanto àquelas que estão em arquivo.
IV. Transponho, de seguida, uma porta gradeada e percorro o corredor
central que, como anteriormente referi, dá acesso aos quatro pavilhões de
alojamento da população reclusa. Como a denominação o sugere, trata-se de um
espaço longitudinal, com as paredes parcialmente revestidas com azulejo cor-de-rosa
e, a parte superior, pintada de bege. O seu pavimento é de mosaico.
Os meus passos tomam a direção do refeitório, passos que dou ao som de
uma conversa com quem me acompanha sobre diversos aspetos atinentes ao normal
quotidiano de um estabelecimento penitenciário. A elaboração das escalas de serviço
dos guardas prisionais é um dos assuntos abordados, tendo-me sido transmitida a
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articulação possível nesta matéria, a qual se manifesta, por exemplo, na integração
dos profissionais que não residem na área geográfica circundante nos mesmos
turnos. Foi-me ainda transmitido o quão intricado é, por sobre tudo em épocas
festivas, o exercício por meio do qual se tenta conciliar os profissionais disponíveis
com os turnos que têm que ser feitos.
Uma outra temática que foi discutida prende-se com a (in)existência de
conflitualidade, sendo esta inexistente entre os elementos do corpo da guarda
prisional e, quanto aos reclusos, «quase nula; o que vai havendo é conflitualidade
interna, entre grupos», dizem-me.
Do lado oposto às portas dos pavilhões, as paredes do corredor central são
pontualmente interrompidas com as portas de diferentes valências. São de ferro mas
vejo, pelo vidro que contêm, o interior de algumas, como sucede com as duas salas
que servem de ginásios, possibilitando, assim, a prática de atividade física a quem ali
se encontra privado da sua liberdade. Para este efeito, as divisões adstritas a esta
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finalidade estão apetrechadas, entre outros equipamentos, com uma mesa de ping
pong, máquinas de musculação, halteres e pesos de diversos tamanhos. As janelas que
possuem em uma das suas paredes propiciam a iluminação natural destas áreas.
V. Ingresso, depois, no refeitório. São, na verdade, dois refeitórios, contíguos
e servidos por zonas comuns, como seja a de lavagem e a de empratamento. O
material que cobre as suas paredes é semelhante ao que tenho vindo a contemplar;
muda, porém, a sua cor que, nestes espaços, é azul claro, esporadicamente pontuado
por peças de cerâmica vermelhas, amarelas ou com uma tonalidade de azul mais
escuro.
Em cada uma das entradas dos refeitórios está instalado um lavatório em
inox para lavagem de mãos. Após, um pequeno corredor conduz-nos a uma divisão
ampla mobiliada com mesas de inox com tampos de mármore, rodeadas por
cadeiras ou bancos corridos, também em inox. É, portanto, um mobiliário que
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apresenta boas condições de segurança – pois dificilmente pode ser quebrado e,
alternada ou conjuntamente, usado como instrumento de agressão entre pares – e de
higiene.
O aproximar da hora do almoço justificava a azáfama que se fazia sentir.
Observava, por isso, pessoas que, na zona de empratamento, colocavam tabuleiros e
terrinas com os diversos componentes da refeição que os reclusos iriam tomar e, em
um outro espaço, outras que aguardavam a loiça suja.
VI. Atravessando os refeitórios, acede-se à cozinha, espaço amplo e
apetrechado com os equipamentos comuns a uma divisão que tem como finalidade
a confeção dos alimentos que vão ser disponibilizados a mais de mil e duzentos
cidadãos. Vejo, assim, uma parafernália de utensílios, como sejam talheres vários (e,
alguns deles, de generosas dimensões), fornos, fogões e grandes panelas. Também
no seio da cozinha, bancadas em inox estão ordenadamente dispostas de modo a
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diferenciar as zonas de lavagem e de preparação dos géneros alimentícios.
Tal como acontece na generalidade dos estabelecimentos prisionais, a comida
facultada à população reclusa afeta ao local que visito é confecionada por uma
empresa externa em regime de outsourcing (a UNISELF). Em diálogo com o seu
responsável, é-me confirmada, tal como é legalmente determinado, a realização
diária da prova das duas principais refeições (almoço e jantar) por parte do senhor
diretor, dos seus adjuntos, do pessoal dos serviços clínicos e do chefe dos guardas
prisionais. Para além disso, e perante a possibilidade de ser necessário despistar uma
situação de intoxicação alimentar, é-me, de igual jeito, asseverado que, em
cumprimento da lei, são colhidas e guardadas, pelo período de 72 horas, amostras
dos pratos servidos.
VII. Retorno ao refeitório onde alguns reclusos já formam fila junto da zona
de empratamento e outros se encontram já sentados a almoçar. É ordeira a forma
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como, respeitando a sua vez, as pessoas privadas da sua liberdade pegam em
tabuleiros que deslizam sobre barras cilíndricas adjacentes à zona de empratamento
e pegam em uma taça com sopa, em um prato de alumínio com comida, em um pão
e em uma taça com a sobremesa. Alguns reclusos trazem, como bebida, um copo de
cerveja preta sem álcool que é, contudo, pago.
Também eu pego em um tabuleiro com os principais constituintes da
refeição – sopa e prato principal –, sentando-me, então, em uma mesa onde três
reclusos almoçam para efetuar a prova daquela.
Ao dia da minha visita, o almoço consista em uma sopa de couve com
cenoura que, embora quente e com legumes em quantidade suficiente, sabia a fécula
de batata e estava insonsa. O prato principal era, na ementa geral, uma sanduíche
abundantemente recheada com carnes várias (febra, fiambre, chourição e salsicha),
coberta com fatias de queijo – entretanto derretidas no forno – e regada com um
molho avermelhado sobre o qual se dispunham rodelas de batata frita. Um prato
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característico do Porto, vulgarmente conhecido como francesinha, que integra, uma
vez por mês, a ementa deste estabelecimento prisional. Efetuo a sua prova e
concluo que está saboroso. Existem, outrossim, outras duas opções: a de dieta
(carne grelhada) e a vegetariana (uma francesinha vegetariana). E, como sobremesa,
uma porção de pudim.
Entretanto, e sendo notada a minha presença no refeitório, escuto alguns
desabafos referentes à qualidade da comida que é servida à população reclusa que
nem sempre é, dizem-me, boa. Uma circunstância que o próprio senhor diretor
reconhece quando me confessa que, em geral, a comida é razoável mas que «há dias
melhores e outros piores». Registo, todavia, que, no tocante aos pratos fornecidos
neste dia, as pessoas pareciam apreciá-los.
Antes de sair do refeitório, reparo ainda em duas estruturas metálicas
verticais, colocadas sobre rodas, que se destinam ao depósito dos tabuleiros com a
loiça suja e ao seu posterior transporte para a zona de lavagem.
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VIII. Retorno ao corredor central e dirijo-me para o último dos pavilhões.
No total dos quatro pavilhões, a penitenciária possui, como espaços de alojamento
distribuídos pelos seus dois pisos, cerca de três centenas e meia de celas e quase
cinco dezenas de camaratas. A par destas, existem cinco camaratas para os reclusos
que cumprem a sua pena de prisão em regime aberto voltado para o interior e
outros espaços de acomodação para as pessoas que estão afetas à Unidade Livre de
Drogas.
A distribuição da população reclusa pelos quatro pavilhões obedece aos
seguintes critérios: nos pavilhões A e B estão acomodadas, respetivamente, as
pessoas a quem foi aplicada a medida de coação de prisão preventiva e as que não
possuem ocupação (mormente laboral); no pavilhão C estão alojados os reclusos
com algum tipo de ocupação (profissional e escolar); e no pavilhão D encontram-se
os cidadãos mais velhos, com idades frequentemente situadas acima dos 60 ou dos
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70 anos. Mencione-se, ainda, que a pessoa mais velha em reclusão nesta
penitenciária possuía, à data da minha visita, 82 anos de idade.
IX. Enquanto me encaminho para o pavilhão D, passo pela barbearia, uma
divisão que tem, como recheio, duas cadeiras e dois lavatórios de cabeleireiro. Em
uma das suas paredes, repousam, em uma bancada, pentes, escovas e outros objetos
necessários ao corte do cabelo e ao aparar de barbas.
As funções de barbeiro são executadas por um recluso, como observo no
modo cuidado como trata do visual de um seu colega.
X. Os espaços de alojamento do pavilhão D são, via de regra, camaratas,
possibilitando, assim, a entreajuda entre as pessoas que ali se encontram.
À semelhança de outras paredes, também o revestimento das paredes do
corredor deste pavilhão é de cerâmica. Mais uma vez, muda a cor que, nesta área,
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apresenta tons de cinzento. As portas de ferro, dotadas de um pequeno vidro, que
pontualmente interrompem tais paredes estão, por sua vez, pintadas de bordô e
ostentam letras que as identificam. Desta forma, do corredor não se visualiza o
nome ou, pelo menos, o número dos reclusos que, de modo temporário, ocupam
aqueles espaços de alojamento.
Com a anuência dos seus ocupantes, visito, no piso térreo, uma camarata que
aloja 16 pessoas, as quais dormem em sete beliches duplos e em duas camas
individuais. Não é uma área muito desafogada, não só pelo mobiliário de descanso
que tem, mas igualmente pela presença de outros equipamentos que são necessários
a uma estada, por mais breve que possa ser, como sejam mesas-de-cabeceira e
armários que, identificados por números, guardam os pertences de quem ali
temporariamente reside. Há, outrossim, uma mesa rodeada por quatro bancos de
plástico. As paredes estão pintadas de bege, o mesmo sucedendo com a parte
interior da porta, e, em uma das suas paredes, quatro janelas proporcionam a
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entrada de luz natural e ventilação.
Aproximo-me de um dos reclusos que há mais tempo está na camarata e, na
sequência da minha pergunta sobre a gestão de atribuição de camas, diz-me que
quem tem mais dificuldades de movimentos fica nas camas inferiores e, se
necessário, cede a sua cama, como sucedeu em um pretérito recente com a chegada
de um novo recluso. Explica-me, do mesmo modo, que ele, assim como as demais
pessoas que estão na camarata, auxiliam quem nela ingressa, designadamente
prestando informações sobre o funcionamento do estabelecimento prisional (v.g,
horários, uso do balneário e toma de refeições).
XI. Rumo, agora, em direção à secção disciplinar, localizada em uma zona
adjacente e distribuída por dois pisos. As oito celas que ali se encontram servem
para o cumprimento de sanções disciplinares e como celas de separação. Nem todas
apresentam as mesmas características, sendo que algumas das celas possuem uma
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antecâmara intermédia entre a porta gradeada e a porta de ferro que dá para o
corredor.
Visito três celas, as duas primeiras sem antecâmara, contendo, cada uma
delas, um maciço de betão que serve de cama, uma retrete de tipo turco e um
lavatório em inox com os cantos e as arestas arredondados. A porta da cela, feita de
ferro, possui um visor que permite a visão total do seu interior. O terceiro espaço de
alojamento que vi, e diversamente dos anteriores, possui uma antecâmara,
delimitada por uma estrutura gradeada, com porta. Esta estrutura é constituída por
barras verticais e horizontais, formando quadrados que, conquanto as suas
dimensões não fossem muito amplas, possibilitavam um eventual aproveitamento
das barras horizontais para atentar contra a sua vida. Para anular este perigo, seria
importante encontrar uma solução que inviabilizasse o recurso ao gradeamento,
como aquela que foi colocada na secção superior das grades e que se traduz em uma
malha de ferro com dimensões reduzidas. No tocante ao seu interior, este é
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semelhante ao que vi nas outras celas.
Refira-se, da mesma forma, que, independentemente da tipologia, as celas
estão providas com janelas protegidas com grades que propiciam iluminação natural
e ventilação. Em semelhante, as celas possuem igualmente dois interruptores que, tal
como neles se encontra identificado, servem para controlo do foco de iluminação
artificial – situado no interior das celas ou, quando existe antecâmara, nesta divisão –
e para chamamento do pessoal de vigilância, em caso de necessidade de assistência.
Foi-me ainda comunicado que o controlo do sistema de iluminação é também
efetuado no exterior da cela, permitindo, assim, a visão do seu interior no período
noturno ou em dias com menor luminosidade.
No seu exterior, as portas ostentam um pedaço de papel que, por meio dos
algarismos nele inscritos, identifica o seu ocupante que é responsável pela limpeza
da cela e que, à entrada, preenche um formulário sobre o estado do espaço que vai
habitar. Aquando da sua saída, as condições do habitáculo são conferidas.
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XII. Encaminho-me, de seguida, para a enfermaria – que tem capacidade
para satisfazer alguns casos de internamento – e os serviços clínicos, valências que
servem não só o reclusos afetos a esta penitenciária mas também aqueles que
pertencem a alguns estabelecimentos prisionais anteriormente classificados como
regionais, assim como as pessoas que, estando privadas da sua liberdade em razão da
aplicação da medida processual de coação de prisão preventiva, carecem de
assistência médico-oncológica.
As especialidades médicas disponíveis são a Clínica Geral e a Estomatologia,
a primeira exercida por três médicos – um em funções permanentes no
Estabelecimento Prisional do Porto e dois contratualizados – e a segunda por uma
especialista. Para além disso, mencione-se que a população reclusa conta com a
assistência de três psiquiatras, um deles a laborar em continuidade na penitenciária
onde me encontro e dois contratados para o efeito, os quais também recebem, em
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consultas, reclusos de outros estabelecimentos prisionais.
XIII. É no gabinete de Estomatologia que, depois de obtido o
consentimento do recluso que se encontrava em consulta, ingresso. Assim como a
denominação o sugere, este espaço está apetrechado com uma cadeira ortodôntica
em redor da qual a médica, coadjuvada por outra profissional, cuida da saúde oral de
quem está em reclusão. São, em média, 20 os doentes que assiste quotidianamente,
sendo 15 as consultas diárias, quantitativo a que acresce um número variável de
casos urgentes. Tal como sucede com outras valências da área da saúde, também
esta médica acompanha pessoas que, estando privadas da sua liberdade, estão afetas
a outros estabelecimentos prisionais sitos no norte do país.
Para além da mencionada cadeira da especialidade, este gabinete está
mobilado com uma mesa, duas cadeiras, um armário, um móvel com gavetas para
armazenamento dos materiais necessários, um lavatório e uma máquina de
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radiografia dental. Em uma pequena divisão àquele adjacente, uma bancada serve de
apoio a operações de limpeza e de desinfeção dos instrumentos usados, na qual se
encontram também recipientes para os resíduos. As paredes estão pintadas de
branco e o chão está revestido com um pavimento plastificado de uso habitual em
unidades de saúde.
XIV. Prossigo para a sala de tratamentos, na qual se efetua a triagem diária de
enfermagem, tarefa realizada por um profissional da área. Também ali se executam
alguns procedimentos curativos, estando, por esta razão, esta divisão provida com
duas marquesas e alguns produtos necessários a esta tarefa. Uma mesa, uma bancada
e uma botija de oxigénio complementam o seu recheio.
Em um espaço contíguo, duas divisões de menor dimensão são utilizadas
para a manipulação da medicação. Não se trata da farmácia – a qual se situa em uma
outra zona com acesso restrito e condicionado por meio de chave eletrónica – mas,
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ao invés, de uma zona onde se divide e prepara a medicação de cada recluso. Deste
modo, na primeira sala a que acedo vejo uma bancada com tabuleiros grandes
contendo caixas redondas com medicamentos (de várias cores e tamanhos).
Encostada a uma das suas paredes, uma estrutura de madeira apresenta várias
prateleiras com caixas identificadas pelas designações dos diversos pavilhões do
estabelecimento prisional. No interior destas caixas, observo, por seu turno, muitas
caixas mais pequenas, as quais contêm a medicação individualmente preparada das
pessoas que se encontram em situação de reclusão. Preparação que, diga-se, ainda
ocorre na segunda sala.
Estas divisões estão apetrechadas com equipamentos reguladores de
temperatura – para uso, por sobre tudo, no período estival – e apresentam boas
condições de higiene e de arejamento.
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XV. Tomo, após, o caminho para a Unidade Livre de Drogas. A distância
que entretanto percorro é preenchida com algumas informações sobre o programa
de substituição de opiáceos que esta prisão faculta. São, esclarecem-me, 130 os
reclusos que se encontram a tomar metadona.
A Unidade Livre de Drogas corresponde a uma ala do Estabelecimento
Prisional do Porto que serve de alojamento às pessoas que, na fase final do
cumprimento da pena privativa da liberdade que lhes foi aplicada, reaprendem a
viver longe dos comportamentos aditivos de outrora. A sua colocação neste espaço
obedece, portanto, a uma criteriosa seleção, o que justifica que os 11 reclusos que ali
estavam à data da minha visita não atingem a sua lotação.
Esta zona possui condições de habitabilidade diferenciadas, como noto assim
que, depois de percorrer um corredor, entro na sala de convívio, com sofás, cadeiras
e televisores. Em um dos seus cantos, um pequeno balcão destrinça uma área de
refeições: o frigorífico, o micro-ondas, a máquina de café e o lava-loiça que
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vislumbro permitem-me deduzi-lo.
Respira-se um outro ambiente na Unidade Livre de Drogas. Um ambiente de
perseverança e, em simultâneo, de esperança. Para auxiliar as pessoas que ali se
encontram, desenvolvem-se atividades de terapia de grupo, o que possibilita o
acompanhamento entre pares e a sua contínua e salutar integração, não só no grupo
mas, de igual modo, na execução das tarefas que lhes competem desempenhar. Para
além disso, os 11 cidadãos que ali estão afetos contam com a assistência de um
enfermeiro que é também psicólogo.
XVI. Retorno ao corredor central e encaminho-me para a saída. Pelo
caminho observo um dos dois pátios: amplo espaço a céu aberto que tem pintado,
no seu pavimento, dois campos de jogos, um de futebol e outro de basquetebol. As
duas balizas e as duas tabelas, que nos seus topos contemplo, denunciam as práticas
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desportivas que ali se treinam e que, por vezes, são disputadas em amigáveis
torneios.
Os passos que me aproximam da porta são dados enquanto escuto a
evolução recentemente operada na “Prisão de Custóias”. Em outros tempos, a
penitenciária onde hoje me encontro tinha uma imagem associada a um perigoso
contexto de violência; no presente, é pacífico o ambiente que se vive, o que
possibilita que, em alguns momentos, receba a visita de estudantes universitários,
aspirantes a juristas, criminólogos ou psicólogos forenses. «Custóias está mais
humanizada», ouço. Desabafo que foi complementado pelo senhor diretor com a
ideia de que «as cadeias, independentemente dos edifícios, fazem-se para pessoas».
Por certo que sim. As prisões – e não apenas as prisões, sublinhe-se – fazem-se para
as pessoas e, independentemente do que estas possam ter feito, em caso algum pode
o Estado justificar a manutenção de um cidadão em condições que não sejam
condignas e seguras.
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Para este efeito, importa, de igual jeito, que se disponibilizem os recursos
(humanos e materiais) à satisfação das rotineiras necessidades de um
estabelecimento prisional. O que, em uma penitenciária que, sob a vigilância de
menos de 200 guardas prisionais, aloja mais de mil e duzentos reclusos e tem, em
números aproximados, entre 8000 e 10 000 visitantes por mês, não está, como bem
se depreende, cabalmente garantido, como me é confessado.
«O principal problema deste estabelecimento prisional é a sobrelotação e o
que isso implica.» No decurso da minha visita, várias foram as referências que, com
maior ou menor repercussão, me foram transmitidas quanto ao elevado número de
reclusos que ocupam o Estabelecimento Prisional do Porto. Esta não é uma
situação pontual; repete-se no tempo e em muitas outras prisões do nosso país,
envolvendo uma gestão especialmente complexa na afetação dos – não raras vezes,
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já escassos – metros quadrados de uma cela a diversas pessoas e uma intricada
articulação dos meios disponíveis para atender às suas necessidades e obrigações. O
que pode representar, no interior dos espaços de alojamento, a ausência da mais
elementar privacidade, a inexistência de espaço – por exíguo que seja – para que
tenham cadeiras em número suficiente para todos os reclusos ou, até, para que estes
se possam movimentar.
Os reflexos da sobrelotação não se sentem, porém, somente na população
reclusa. A tarefa de ter de cozinhar para um conjunto de pessoas adensa-se quando
são muitas as centenas – por vezes, mais de um milhar – os cidadãos que se têm que
alimentar. Nestes casos, a comida pode não ser suficiente para a todos satisfazer e,
alternada ou conjuntamente, não possuir a qualidade desejável (circunstância que,
como referi em outros momentos, é determinante obviar tendo em conta a fonte de
descontentamento que isso consubstancia, para além de a alimentação ser um direito
dos reclusos e um dever do Estado). As viaturas celulares podem escassear,
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impedindo que todos os reclusos estejam presentes nas diligências que lhes
respeitem. E os pedidos para consultas médicas e de acompanhamento psicológico
somam-se em uma lista que teima em não diminuir.
A privação da liberdade de um ser humano, mesmo que assente em legítimos
e fundados pressupostos, não pode corresponder à restrição de outros direitos que
são perfeitamente compatíveis com o cumprimento de uma medida processual de
prisão preventiva ou com uma pena de prisão. As pessoas que estão em situação de
reclusão estão à guarda do Estado, o mesmo equivale a dizer que estão à sua
responsabilidade. O que significa, por conseguinte, que é nosso dever – como
comunidade que somos – propugnar para que as condições em que aquelas se
encontram sejam condignas, saudáveis e seguras. E isso consegue-se, por exemplo,
com uma refeição bem confecionada, com cuidados médicos atempados e com
gradeamentos que não possuam características eventualmente apetecíveis a quem
queira atentar contra a sua vida.
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Na defesa do Cidadão: perceber para prover.
O universo penitenciário não é apenas composto pelos reclusos; a rotina de
um estabelecimento prisional depende de um conjunto de profissionais que são,
todos eles, peças essenciais ao seu bom funcionamento. E também a promoção e a
defesa dos seus direitos – direitos que, sendo laborais, assumem, em muitos casos, a
veste de pessoais quando associados, entre outros, à sua própria integridade –
constitui preocupação do Provedor de Justiça. Por esta razão, cuidei, nesta
penitenciária como em outras, de falar com alguns elementos do corpo da guarda
prisional, verificando quais as dificuldades por eles sentidas; o diminuto número de
efetivos foi a circunstância que me foi assinalada como a maior vicissitude sentida.
Inexistem, portanto, guardas prisionais que permitam assegurar todas as funções que
têm que ser executadas no rotineiro funcionamento de um estabelecimento
prisional, mormente se neste estabelecimento forem mais de 1200 as pessoas
privadas da sua liberdade e apenas 191 os profissionais encarregados da sua
vigilância.
16
12h:20m – Saí. O dia continuava, tal como à minha entrada, nublado, agora,
porém, igualmente ventoso. A par do que vi e ouvi, trouxe comigo a mudança que o
tempo e as pessoas provocaram na “Prisão de Custóias”. Espero, contudo, que,
nesta visita como em outras, tenha permanecido no interior do estabelecimento
prisional a ideia forte e estruturante de que o Provedor de Justiça, no cumprimento
do múnus que lhe foi confiado, está – como sempre esteve e continuará a estar – ao
serviço dos seus concidadãos, independentemente do local onde se encontrem. O
Provedor de Justiça está onde é necessário tutelar os direitos humanos. O Provedor
de Justiça está, assim, onde estão as pessoas. E há muitas e diferentes pessoas nas
prisões.
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