Provedor de Justiça
Documento Estabelecimento_Prisional_de_Pinheiro_da_Cruz
- Meio processual
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- Emitente
- O PROVEDOR DE JUSTIÇA, AS PRISÕES
Texto integral (4514 palavras)
O PROVEDOR DE JUSTIÇA, AS PRISÕES
E O SÉCULO XXI:
DIÁRIO DE ALGUMAS VISITAS (XII)
RELATÓRIO DA VISITA AO
ESTABELECIMENTO PRISIONAL DE PINHEIRO DA CRUZ
Na defesa do Cidadão: perceber para prover.
Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz
15 de março de 2017
10h:40m – O céu estava nublado no Litoral Alentejano.
Percorro uma estrada alcatroada, gasta pelo uso constante que dela é feita e
com passagem condicionada por duas cancelas: a primeira, próxima de uma pequena
casa caiada de branco com uma barra horizontal de azul claro, é aberta por um
recluso; a segunda, por sua vez, move-se por meio do automatismo que os
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elementos do corpo da guarda prisional acionam. De ambos os lados, observo
alguns edifícios – antigas instalações do pessoal de vigilância e pavilhões que,
rodeados por uma grande malha hexagonal de arame, acomodam as pessoas que
cumprem a sua pena em regime aberto – e algumas frações de terreno cultivadas
com árvores. Ao fundo, um portão cinzento delimita o acesso ao complexo
penitenciário que, tal como leio no ordenado conjunto de letras metálicas que uma
das suas paredes laterais ostenta, se denomina Estabelecimento Prisional de Pinheiro
da Cruz.
I. Tal como os demais visitantes, ingresso no estabelecimento penitenciário
pela portaria, zona com um pequeno guichet para identificação de quem ali acede e
com um detetor de metais para controlo do que entra.
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Na companhia do responsável pelo corpo de guardas prisionais, conheço a
senhora adjunta da direção, Dra. Adélia Carretas de Palma, e perante a presença
destas pessoas, explico o motivo da minha visita: entender, in loco e de modo atual, o
específico microcosmo que é a penitenciária em que me encontro.
II. Saio da portaria e é em um pequeno espaço exterior intra muros que
antecede a entrada no principal complexo prisional que troco algumas palavras com
quem me acompanha. De entre os vários assuntos abordados, foi referido o
reduzido número de reclusos que estão afetos ao “Bairro do Monte”, uma secção
desta prisão que, como verei mais tarde, acomoda as pessoas que se encontram na
fase final do cumprimento da sua sanção privativa da liberdade e que demonstram
estar aptas a serem reintegradas na sociedade. Foi, de igual jeito, mencionada a
existência de problemas de saúde mental em alguns reclusos; deficiências cognitivas
e problemas emocionais que, em algumas situações, tocam a (in)imputabilidade ou a
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(des)necessidade de aplicação de uma pena, sendo, nas palavras da senhora adjunta,
uma «linha muito ténue e difícil de gerir».
III. O complexo prisional no qual me encontro foi construído na segunda
metade do século XX, devendo a autoria do seu projeto de ampliação ao arquiteto
Raul Rodrigues Lima. A par dos pavilhões destinados aos reclusos que cumprem a
sua pena em regime aberto e os que estão no “Bairro do Monte”, é em quatro
pavilhões – identificados pelos números de um a quatro – que as demais pessoas
privadas da sua liberdade observam a medida processual de coação ou a sanção
jurídico-penal privativa da liberdade que lhes foi aplicada. São, no total e ao dia da
minha visita, 645 as pessoas do género masculino que ali estão afetas, um
quantitativo que se equipara ao da sua lotação.
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IV. Entro no edificado onde estão instalados os serviços administrativos. No
hall da entrada deparo-me com alguns elementos do corpo da guarda prisional com
quem troco algumas palavras.
Como tem sido minha constante preocupação, pergunto pela existência de
situações que possam representar descontentamento para quem tem a missão de
zelar pela ordem e pela paz no interior da prisão. Já o disse em outros momentos,
mas ali reiterei, que os guardas prisionais são peças essenciais ao funcionamento do
sistema penitenciário. Mais: são peças essenciais ao salutar funcionamento do
sistema penitenciário. Em resposta, escuto que nem sempre é fácil conseguir o
consenso na elaboração dos turnos. Ainda assim, registo que os 128 elementos do
corpo da guarda prisional que ali trabalham – cifra que abrange todas as categorias,
incluindo chefias – não necessitam de fazer 24 sobre 24 horas.
É-me dito outrossim que, do universo do pessoal de vigilância, nove pessoas
são do género feminino e mais de três quartos do seu cômputo total tem residência
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na área geográfica circundante.
V. Pela mesma porta por onde entrei, saio e tomo a direção da cozinha. Pelo
caminho conheço as outras duas senhoras adjuntas da direção que a nós entretanto
se juntaram.
Apontam-me, à esquerda, os sectores laborais, espaços onde os reclusos se
ocupam profissionalmente em tarefas várias, como sejam as relacionadas com a
mecânica e o arranjo de máquinas de café, esta última decorrente de um protocolo
celebrado com uma empresa de fabrico e distribuição de cafés e equipamentos
conexos.
Pergunto, depois, como se processa a transmissão de saberes quando as
pessoas que ali laboram regressam à vida em liberdade, sendo-me comunicado,
como esperava, que, via de regra, os mais velhos acompanham e ensinam os mais
novos nas atividades a desempenhar. Para além disso, há guardas prisionais que têm
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conhecimentos em alguns trabalhos que ali são executados e também eles partilham
o seu saber e a sua experiência.
VI. São cerca de 1600 os hectares que fazem parte do Estabelecimento
Prisional de Pinheiro da Cruz. Por esta razão, atividades como a agricultura, a
pecuária e a floresta são ali desenvolvidas, tendo o vinho produzido pelos reclusos
visto, em um pretérito recente, a sua qualidade reconhecida com a atribuição de um
prémio.
É-me informado, do mesmo modo, que está em estudo um protocolo com a
Câmara Municipal de Grândola para que os cães abandonados fiquem no
estabelecimento penitenciário e ao cuidado dos reclusos.
Passamos pela sala de visitas, ocupada ao momento, como observo do seu
exterior pela porta que se encontra aberta. Pelo que vejo, o espaço que serve de
parlatório, não obstante estar dotado de mesas e cadeiras de plástico em número
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aparentemente suficiente, parece exíguo e com pouca iluminação natural.
VII. Encontro-me em um pequeno pátio central, pavimentado em cimento,
em redor do qual se situam, entre outras funcionalidades, as escolas, as caldeiras e a
padaria. Tendo como mote os espaços de ensino, é-me dito que somente cerca de
10% da população reclusa frequenta as atividades escolares que ali são facultadas, as
quais contemplam a aquisição de competências básicas e os ensinos básico,
secundário e superior. É, esclarecem-me, uma percentagem diminuta fundada – pelo
menos em parte – na carência de espaços.
VIII. À entrada da cozinha vejo umas estruturas de ferro, com forma
paralelepipedal, assentes em rodas de ferro. São os carrinhos usados para transportar
os alimentos (já confecionados) para os refeitórios dos diversos pavilhões.
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A cozinha corresponde a uma divisão ampla, com as paredes parcialmente
revestidas a azulejo, e recheada por uma parafernália de utensílios e de
equipamentos necessários à preparação e à confeção das refeições dos reclusos.
Entre eles, observo um forno, dois fogões e três panelas de generosas dimensões
nas quais se ultima a jardineira que será servida como prato principal do almoço.
Vejo, de igual modo, as arcas de refrigeração e de congelação, diferenciadas para
laticínios e derivados, produtos hortícolas, carnes e peixes.
Passo por uma pequena divisão que é usada como refeitório por parte de
quem ali trabalha (os trabalhadores da empresa contratada para a confeção de
refeições: UNISELF) e pela zona de lavagem, separada das restantes.
IX. Encaminho-me, então, para os serviços clínicos, próximos da cozinha.
Após a entrada, percorro um corredor, ladeado parcialmente pelas portas dos
gabinetes médicos dos especialistas que ali prestam a sua atividade. No lado oposto,
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cadeiras possibilitam o descanso dos reclusos que aguardam a sua vez para serem
atendidos.
No fundo do corredor, localiza-se o gabinete de enfermagem, contíguo com
o do nutricionista e o da psicóloga que ali trabalham. Como é usual, a sala de
enfermagem está apetrechada, para além de mesas e cadeiras, com uma marquesa e
uma bancada em inox para higienização de pessoas e materiais, bem como com uma
botija de oxigénio.
Por meio desta sala, acedo ao gabinete do nutricionista que, a par do
mobiliário comum de escritório, possui um conjunto de estantes repletas de
processos. É, confessa-me este profissional, na verificação do cumprimento do
caderno de encargos e das normas de higiene que são efetuadas que se traduz a sua
rotina laboral.
O gabinete da psicóloga, também acessível através da sala de enfermagem,
possui mesas, cadeiras, armários para arquivo e um quadro para inscrição de
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informações várias, como sejam quais os reclusos que se encontram em greve de
fome.
São 25 as horas que semanalmente contam com a assistência desta
profissional, ainda assim não é um número suficiente para acabar com a lista de
espera. Lista que também existe quanto à assistência em Psiquiatria, prestada, no
interior desta prisão, durante seis horas semanais por uma médica da especialidade.
Pergunto pelas patologias que, no âmbito da saúde mental, são mais
frequentes entre quem se encontra privado da sua liberdade. Em resposta, escuto
serem as perturbações relacionadas com a ansiedade aquelas que são mais
recorrentes, não raras vezes fundadas na ausência de ocupação no interior da prisão.
Antes de sair dos serviços clínicos, é-me comunicado o modo como se
concretizam as consultas de Estomatologia que são facultadas intra muros e em
gabinete mobilado para o efeito. Além da possibilidade de recurso ao Hospital
Prisional São João de Deus, os reclusos podem ser consultados por um dos dois
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médicos que ali desempenham as suas funções: um deles provém do hospital
prisional e desloca-se ao Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz uma a duas
vezes por semana; o outro, por seu turno, é aquele que for indicado pelos
interessados e a sua deslocação e consulta ocorre a expensas daqueles.
X. Deixo o edificado onde funcionam os serviços clínicos, conhecendo,
entretanto, o senhor diretor, Dr. Carlos Fernandes Moreira, que a nós se juntou.
Caminhamos, então, pelo pátio central que, desde a violenta altercação
ocorrida em 2010, tem o seu uso bastante limitado. É, todavia, uma zona utilizada
para passagem dos reclusos que se deslocam aos serviços clínicos e à enfermaria,
assim como para os pavilhões onde trabalham e para a sala de visitas (por uma porta
situada na parede oposta àquela que anteriormente vi aberta), servindo, de forma
pontual, de palco a atividades desportivas. As duas balizas que vislumbro denunciam
este propósito.
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Este espaço, de formato retangular, é bastante amplo e dá acesso, como já
referi, aos quatro pavilhões em que os reclusos cumprem a sua sanção privativa da
liberdade em regime fechado, assim como ao pavilhão de segurança, para o qual me
dirijo. Para facilitar a circulação no seu interior, o pátio central possui um caminho
empedrado, atravessado perpendicularmente por um outro que visa ligar as entradas
das copas comuns aos pavilhões um e dois (de um lado) e três e quatro (de outro
lado). Ao fundo da área de terreno areado, vejo ainda a capela – onde, às sextas-
feiras, é celebrada a eucaristia – e quatro mesas rodeadas por bancos, todos feitos
em cimento.
XI. Diversamente do que sucede com os quatro pavilhões de alojamento –
que têm acesso ao pátio central por meio de uma porta –, o pavilhão de segurança
encontra-se no interior de uma estrutura de ferro e de arame. Entre esta e a porta do
seu edifício, um pequeno carreiro foi construído no meio de um espaço relvado,
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parcialmente plantado com flores, que, ao contrário do pátio central, se apresenta
bem cuidado.
No pavilhão que ora visito funcionam as celas de separação e as disciplinares;
é por estas que principio a inspeção.
A cor bege dos azulejos que cobrem as celas disciplinares observa-se
somente quando as suas portas de ferro, pintadas de castanho, se abrem. No
entanto, o acesso ao seu interior não é imediato, uma vez que uma estrutura
gradeada, composta por barras de ferro verticais e horizontais, se interpõe entre
aquele e a sua entrada. Nas suas restantes características, respeitam-se as normas
atinentes a espaços de alojamento desta natureza, isto é, a cama é um maciço de
betão que, com um colchão, serve para descanso dos seus ocupantes, tem uma
retrete de tipo turco e o lavatório é de inox e possui as arestas arredondadas. As
celas onde se cumprem as sanções disciplinares usufruem de luz natural e artificial, a
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primeira proveniente de uma janela e a segunda propiciada por um foco de
iluminação que está no exterior do gradeamento.
Os reclusos que fiquem, de modo temporário, ali afetos têm os seus espaços
de alojamento apenas identificados pelo seu número, escrito em um pedaço de papel
fixado no exterior das celas.
Passo por uma porta de ferro, pintada de vermelho, que serve de passagem
para os pequenos pátios da zona disciplinar: um pequeno retângulo de cimento,
circundado por altas paredes e, no topo, fechado por uma malha de ferro é o que
vejo. Estes pátios – quatro no total – servem para a permanência dos reclusos a céu
aberto durante duas horas por dia (uma de manhã e outra na parte da tarde).
As celas de separação, embora também possuam maciços de betão que
servem como camas, estão equipadas com sanitas e lavatórios em inox e uma
bancada de madeira. Para além disso, não possuem porta gradeada intermédia, tendo
apenas a porta de ferro que permite, por meio do seu visor, olhar o seu interior.
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O sistema de chamada do pessoal de vigilância, em caso de necessidade de
auxílio, não estava operacional, o mesmo não se verificando com as câmaras de
videovigilância que ali estão instaladas e que são visualizadas no gabinete dos
elementos do corpo da guarda prisional. No tocante às demais zonas do
estabelecimento prisional, encontrava-se, de acordo com o que me foi transmitido,
ainda em curso a operação de instalação dos equipamentos do circuito interno de
televisão.
Antes de abandonar este edifício, passo por uma zona com armários nos
quais ficam depositados os bens dos reclusos – que são, à chegada e à saída, objeto
do respetivo registo – e observo ainda que o almoço daqueles é transportado em
marmitas de plástico azul, às quais se juntam um saco com pão e uma embalagem
com a sobremesa.
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XII. No exterior da secção disciplinar, retorno ao pátio central com destino
ao pavilhão três.
Os metros que percorro são acompanhados de uma troca de palavras sobre a
relação que se estabelece entre as pessoas privadas da liberdade que professam a
religião muçulmana e os restantes reclusos, escutando, em sequência, que esta é, não
obstante as diferenças de hábitos e de crenças, saudável. Ouço, de igual jeito, que,
apesar de o imã não se deslocar ao estabelecimento penitenciário, os reclusos que
professam o islamismo recebem produtos vários (v.g., alimentos e calendários) que
lhes são enviados, por sobre tudo na altura do Ramadão.
A tipologia delitiva predominante constituiu um outro tópico discutido,
concluindo-se serem os crimes relacionados com o tráfico de estupefacientes os que
motivaram a reclusão de muitas das pessoas que ali estão acomodadas.
XIII. Antes de entrar no pavilhão três, observo a invulgar chegada do
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almoço. Os carrinhos de ferro que o transportam já os conheço mas o modo como
são movidos é, deveras, sui generis: um homem puxa o pegadouro e outros dois
empurram, correndo quando se aproximam da rampa por meio da qual se acede à
copa comum de dois pavilhões e que serve de antecâmara aos respetivos refeitórios.
Tarefa nada fácil e, por certo, de desagradável execução em dias frios e, alternada ou
conjuntamente, chuvosos.
A hora justifica a azáfama característica do momento da refeição. Ainda
assim, não posso deixar de frisar que me surpreendeu a confusão existente à entrada
do pavilhão três, gerada pelo amontoado de reclusos que, provenientes dos três
andares, aguardavam o ingresso no espaço onde iriam tomar a sua refeição.
XIV. O refeitório localiza-se no piso térreo do pavilhão, junto à sua entrada.
É um espaço dotado de 10 mesas retangulares de madeira, pintadas de azul claro, e
com bancos corridos pintados com a mesma cor. Em cima de cada uma delas,
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toalhas de plástico com padrão axadrezado vermelho e branco cobrem o seu tampo
sobre o qual pousam terrinas em inox com a sopa fumegante que, no dia da minha
visita, consistia em puré de feijão com couve. Efetuo a sua prova, concluindo que
está quente e saborosa mas aguada.
O prato principal é, ao contrário da sopa que está ao dispor dos reclusos para
que estes se sirvam da quantidade que quiserem e das vezes que o desejarem,
empratado em um espaço adjacente, provido de uma bancada com barras
horizontais que servem para apoiar e correr tabuleiros e, no seu interior, com zona
de armazenamento da comida em grandes tabuleiros. Provo, assim, o conteúdo de
um dos pratos de alumínio que corresponde à ementa geral: a jardineira que, em
momento anterior, vi estar em confeção na cozinha. As carnes, cortadas em
pedaços, eram abundantes e a batata, também cortada, estava bem cozinhada, o
mesmo sucedendo com o feijão-verde e a cenoura, embora estes fossem fornecidos
em parca quantidade. Como opção de dieta, havia jardineira de frango e, como
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ementa vegetariana, massa com vegetais.
O almoço era igualmente composto por um pão – disponível em uma caixa
na entrada do refeitório – e, como sobremesa, por uma porção de pudim.
Registo que, não obstante a refeição ser constituída por vários elementos,
inexistiam tabuleiros para que o seu transporte se efetuasse em segurança e em
simultâneo. Situação que exigia, com frequência, algum equilíbrio de mãos por parte
de quem ali se encontra em reclusão.
XV. Encaminho-me depois para a saída, não para abandonar, em definitivo,
o Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz mas para me deslocar ao “Bairro
do Monte”. Este dista, aproximadamente, três quilómetros e meio do complexo
prisional onde nos encontramos e o percurso é feito em um jipe, passando pela
vinha e pelo exterior da adega.
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Entretanto, a conversa continua entre mim e quem me acompanha – que
são, recordo, o senhor diretor, as três senhoras adjuntas da direção e dois elementos
do corpo da guarda prisional, um deles seu responsável –, aflorando a importância
da alimentação em contexto prisional e como o descontentamento quanto a esta
pode ser fonte de revolta. A evolução do comportamento dos reclusos após a sua
saída em liberdade é, de igual jeito, discutida, por sobre tudo na forma como a
estada em uma prisão – e o contacto com pessoas que relatam diferentes
experiências – pode agravar e diversificar a prática de infrações criminais.
XVI. “Bairro do Monte”: a sua denominação não podia ser mais assertiva,
uma vez que se trata de um pequeno bairro situado em um monte. Um monte
alentejano e, por isso, praticamente plano.
Do universo das quase seis centenas e meio de reclusos, 64 cumprem o
remanescente da sua sanção privativa da liberdade em regime aberto, sendo que sete
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deles fazem-no no “Bairro do Monte”. Neste local, o tratamento de animais (gado
bovino e abelhas), a adega e o trabalho de cancela são as ocupações profissionais
que, de modo rotativo, ajudam a passar o tempo, perspetivando a boa reinserção na
sociedade após a sua libertação.
Os portões estão abertos. Estou em uma prisão e os portões estão, reitero,
abertos. Este é um dos primeiros sinais que observo indiciadores do elevado grau de
confiança que se tem nos reclusos que ali se encontram. Uma confiança que deriva
da personalidade da pessoa privada da sua liberdade e do comportamento que
demonstrou desde o seu ingresso no estabelecimento prisional.
Sem obstáculos, o jipe acede a um caminho ladeado, de ambos os lados, por
edifícios: à direita, casas térreas construídas contiguamente servem de alojamento a
quem ali termina a sua pena; à esquerda, por seu turno, os edifícios que vejo servem
de arrumos e de vacaria. E é esta que visito em primeiro lugar.
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Ao momento da minha passagem, apenas um vitelo se encontrava na vacaria,
estando as vacas a pastar em terrenos pertencentes à penitenciária. Passo, depois,
pela zona onde se processa a ordenha dos animais e ingresso em uma oficina de
generosas dimensões que é usada como armazém. Atento o espaço disponível, noto
que há potencial apto a ser explorado no desenvolvimento de outras atividades
agropecuárias como outrora aconteceu com a exploração de suínos, entretanto
vendidos. Atividades que poderiam ocupar mais reclusos, como, em um passado
recente, ocuparam mais de cinco dezenas de pessoas.
Do outro lado da estrada, também as casas existentes possibilitariam a
acomodação de mais reclusos, sendo que algumas delas, em virtude da sua constante
desocupação, carecem de obras de remodelação por forma a estarem habitáveis. As
que estão ocupadas encontram-se, contudo, em condições de habitabilidade
satisfatórias, como atesto com a visita a uma delas.
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XVII. Com a anuência do seu ocupante – que ultimava o seu almoço –,
ingresso em uma das casas do “Bairro do Monte”, encontrando-me em um espaço
que, no imediato e temporariamente, me criou a dúvida de estar em um
estabelecimento prisional ou, ao invés, na residência de um qualquer cidadão. A sala
de estar e a cozinha correspondem a zonas plenamente diferenciadas no interior de
uma mesma divisão. Os sofás e o móvel com a televisão encontram-se, assim, a um
canto e a bancada com o fogão, o frigorífico e demais equipamentos e utensílios
necessários à preparação e à confeção dos alimentos estavam em outro canto. Pelo
meio, uma mesa com cadeiras permitia a toma das refeições. Desta divisão acedo
aos dois quartos, apetrechados com o mobiliário que comummente se coloca em
espaços similares (v.g., cama e mesa-de-cabeceira), e a uma casa de banho equipada
com usuais sanitários de louça. Registo que, conquanto cada casa tenha
possibilidade de albergar duas pessoas, ao momento da visita, as que estão ocupadas,
estão-no apenas com um recluso.
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Retorno à sala para, de seguida, aceder a um pequeno pátio traseiro. Observo
pequenos pedaços de terreno aproveitados para o cultivo de produtos hortícolas e
de ervas aromáticas, como sejam couves, feijões, cenouras e coentros. Vejo, ainda,
um pequeno alpendre sob o qual se assam pedaços de carne em um grelhador a
carvão.
XVIII. É hora de regressar ao complexo prisional principal do
Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz. O regresso é feito do mesmo modo:
de jipe. O que difere da chegada é tão-só o ponto de partida não ser aquele onde me
apeei mas sim a estrada que dá acesso à Praia da Raposa, um espaço propício à
prática balnear com passagem condicionada a pedido e deferimento por parte dos
serviços prisionais.
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Em visitas a outros estabelecimentos penitenciários dei, por diversas
ocasiões, nota do perigo que consubstancia a existência de barras horizontais em
celas disciplinares e da possibilidade de estas serem utilizadas para que os reclusos
atentem contra sua própria vida. Repito, assim, a importância de se encontrarem
soluções alternativas que aniquilem ou, pelo menos, diminuam a probabilidade de o
perigo mencionado se concretizar. Uma chapa de metal ou uma rede metálica com
malha de pequena dimensão foram duas das soluções que, em outras prisões,
analisei e que podem ser ponderadas para este estabelecimento prisional.
O Provedor de Justiça tem, no recorte institucional das suas competências, e
entre outros, o dever de cuidar dos direitos de quem está em uma situação de
reclusão. De quem está, por força de uma decisão judicial, ao cuidado do Estado.
Por esta razão, deparar-me, no presente, com barras horizontais em celas
disciplinares constitui uma circunstância que não posso não relevar, salientando a
premência da sua alteração. Da modificação que pode ser levada a cabo com a
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simples introdução de um mecanismo que impossibilite o recurso às referidas
barras, não carecendo, por conseguinte, de uma substituição integral da referida
estrutura.
É também em uma lógica de segurança e de respeito pela integridade dos
reclusos que evidencio o não funcionamento do sistema de chamada de assistência
em caso de necessidade. Se esta situação é, por si só, merecedora de reparo, ela
revela-se de particular gravidade quando a pessoa se encontra sozinha e fechada em
uma cela, não havendo outros reclusos que possam, dando conta disso, chamar por
auxílio.
Registo, por último, o desaproveitamento dos espaços do vulgarmente
designado “Bairro do Monte”. Estou ciente de que nem todas as pessoas que se
encontram na fase terminal do cumprimento da pena que lhes foi aplicada reúnem
as condições para a sua afetação àquela área. Estou, porém, convicto de que as
instalações ali existentes poderiam beneficiar um maior número de reclusos e, em
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consequência, toda a comunidade, na medida em que os prepara para o momento da
sua libertação e consectária reinserção na sociedade.
12h:50m – Saí. O céu continuava enublado mas menos. Como é habitual,
trago comigo um pouco das pessoas com quem me cruzei, das histórias que me
contaram e dos problemas que fazem parte da prisão que visito. Mas hoje trago
também uma outra coisa: o que poderia ser o Estabelecimento Prisional de Pinheiro
da Cruz se aproveitado na sua plenitude.
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