Provedor de Justiça
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Texto integral (1959 palavras)
29031
Alocução evocativa do
50º Aniversário do Provedor de Justiça
27.09.2024
Senhor Presidente da Assembleia da República
Senhora Provedora de Justiça de Portugal
Senhores Provedores de Justiça e Senhores Representantes das
Comissões Nacionais de Direitos Humanos dos Países de Língua
Portuguesa
Senhores Embaixadores em Portugal e Senhores Representantes
junto da CPLP
Senhor Presidente da Associação 25 de abril, Coronel Vasco
Lourenço
Minhas Senhoras e Meus Senhores
No meu país não acontece nada
Este é o verso que abre o primeiro poema do livro “País Possível” que
um desesperançado Ruy Belo publicou em Junho de 1973.
Mas afinal aconteceu. Menos de um ano depois, na madrugada de
25 de Abril de 1974, um golpe de estado militar levado a cabo por um
grupo de jovens oficiais, auto-denominado Movimento das Forças
Armadas (MFA), pôs fim ao regime do Estado Novo.
Ao mesmo tempo que as forças afectas ao regime soçobravam como
um castelo de cartas, a dinâmica social espontaneamente
desencadeada rapidamente fez evoluir a situação política para um
movimento de natureza revolucionária, que surpreendeu os autores
do golpe e os próprios políticos que se tinham oposto ao antigo
regime.
Mas os militares vitoriosos cumpriram rigorosamente os
compromissos do seu programa, entregando o poder a uma Junta de
Salvação Nacional, composta por sete oficiais generais, um dos
quais viria a assumir a Presidência da República (António Spínola) e
outro a chefia do Estado Maior das Forças Armadas (Francisco da
Costa Gomes).
O novo Presidente nomeou um Governo Provisório civil e um
Conselho de Estado. Segundo o programa do MFA, esta arquitectura
vigoraria até que uma Assembleia Constituinte a eleger aprovasse
uma nova Constituição e se completasse o quadro institucional
democrático.
Entre o golpe do 25 de Abril e a posse do governo provisório mediou
apenas uma vintena de dias (16 de Maio de 1974). Este governo era
presidido por um professor de direito, oposicionista moderado
(Adelino da Palma Carlos), incluía representantes dos principais
partidos políticos vindos da clandestinidade (o Partido Comunista, o
MDP-CDE e o Partido Socialista) e emergentes (o Partido Popular
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Democrático), da associação cívica SEDES, personalidades
independentes e um único militar, o tenente coronel Firmino Miguel,
como ministro da Defesa, a quem cabia fundamentalmente a
articulação com as chefias militares dependentes da Junta de
Salvação Nacional.
A seta do tempo movia-se, no entanto, a um ritmo alucinante e
tumultuoso, entre a esperança, as ilusões, as reivindicações e os
concretos problemas a que urgia atender, desde a situação
económica, com uma inflação de dois dígitos, vinda da crise do
petróleo de Outubro de 1973, à resolução da situação militar e
política nas colónias, em especial nas três onde, há mais de uma
década, se travava uma guerra.
O governo enfrentava enormes dificuldades com a situação social e
com as tensões dentro do próprio MFA e de parte deste com o
Presidente da República, para além das decorrentes da sua evidente
falta de homogeneidade política.
A polícia e a GNR, muito conotadas com o antigo regime, não tinham
capacidade de intervenção na ordem pública e os militares não
tinham vocação nem aptidão para actuar nessa área.
Mas o tema mais agudo era a questão do antigo Ultramar e o
objectivo da descolonização, inscrito no programa do MFA, em que
uns defendiam a consulta referendária às populações daqueles
territórios e outros o reconhecimento da legitimidade representativa
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dos movimentos de libertação. O caso mais complexo era, sem
dúvida, Angola, onde havia três movimentos no terreno e onde, no
plano internacional, os protagonistas da guerra fria estavam
empenhados em dominar ou influenciar decisivamente o futuro
domínio daquele território.
O primeiro solavanco institucional aconteceu logo em Julho, com a
queda do primeiro governo na sequência de uma proposta do então
Primeiro Ministro de alteração do quadro constitucional, que teria o
acordo do Presidente da República, mas que foi rejeitada pelo
Conselho de Estado e pela maioria dos militares do MFA.
Com a queda do primeiro Governo provisório, há uma clara mudança
de rumo, com a intervenção visível e efectiva da Comissão
Coordenadora do MFA, que como que saiu de uma clandestinidade
a que se auto impusera, e com a perda de peso político do Presidente
da República.
No segundo governo provisório, que toma posse a 18 de Julho, o
Primeiro Ministro é o Coronel Vasco Gonçalves, o mais graduado
oficial do MFA e entram no elenco mais cinco oficiais do Movimento:
os majores Melo Antunes e Vitor Alves, como ministros sem pasta, o
capitão Costa Martins, ministro do Trabalho, o Major José Sanches
Osório, ministro da Comunicação Social, o tenente coronel Manuel
da Costa Brás, ministro da Administração Interna, que viria a ser, em
1975, o primeiro Provedor de Justiça. E ainda mais dois militares, o
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tenente-coronel Firmino Miguel, que continua como ministro da
Defesa, e o coronel José Augusto Fernandes, como Ministro do
Equipamento Social, este não membro do MFA.
Quanto aos ministros civis continuaram Álvaro Cunhal, Mário
Soares, Francisco Salgado Zenha, Joaquim Magalhães Mota e o
então independente Almeida Santos; entra Vitorino Magalhães
Godinho e três secretários de Estado passaram a ministros: Maria de
Lourdes Pintasilgo, José da Silva Lopes e eu próprio que, de
secretário de Estado do Comércio e Turismo, fiquei com a Economia.
Apesar de a situação económica e social continuar complexa e com
movimentos anarquizantes e à esquerda do Partido Comunista a
ganharem protagonismo, o respaldo político da forte presença dos
militares deu ao arranque do segundo governo um novo clima de
autoconfiança para enfrentar a tomada das medidas difíceis e
inadiáveis que se impunham. Uma delas era o aumento dos preços,
em que avultava simbolicamente o do pão, cuja estabilidade de
muitos anos tinha sido uma bandeira social do antigo regime, mas
que era uma das muitas causas dos volumosos deficits do Fundo de
Abastecimento.
Outras eram a definição de uma política salarial e as leis da greve e
das associações sindicais para tentar enquadrar as crescentes
reivindicações.
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A lei das associações sindicais, que suscitaria a questão da
unicidade sindical, veio a ser, no terceiro governo, um dos temas de
grande controvérsia dentro do próprio MFA e de choque frontal entre
o Partido Comunista e o Partido Socialista, onde Mário Soares e
Salgado Zenha assumiram decididamente a primeira linha na defesa
da liberdade.
Também devo referir a inflexão de rumo no processo de
descolonização com a conclusão das negociações para o
reconhecimento da independência da Guiné, no dia 30 de Agosto de
1974, numa reunião conjunta da Junta de Salvação Nacional, do
Governo provisório e do Conselho de Estado, o que significou outra
pesada derrota política para o presidente Spínola, que tinha
defendido o processo referendário.
Mas, ao lado dos problemas de fundo, o governo era confrontado
com tudo e mais alguma coisa. Lembro-me, por exemplo, das horas
de debate no Conselho de Ministros sobre os vendedores
ambulantes que tinham invadido o Rossio e que se discutiu, e
aprovou, um subsídio às festas da Senhora da Agonia, em Viana do
Castelo …
Voltando ao princípio do segundo governo, no ambiente de
confiança trazido pela presença dos militares, logo numa das
primeiras reuniões, o Major Vitor Alves propôs que cada ministro
fizesse a apresentação do respectivo programa sectorial com vista à
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elaboração de um programa de governo que completasse o inicial –
e breve – do MFA.
O primeiro a fazê-lo foi o Ministro da Educação e o segundo foi o
Ministro da Justiça, Francisco Salgado Zenha, cuja apresentação,
agendada para 27 de Agosto, foi adiada para 20 de Setembro, sinal
da multitude de assuntos urgentes que caíam nas reuniões do
Conselho de Ministros e das longas discussões geradas pela
dificuldade dos problemas e pelas cada vez mais evidentes
divergências políticas no interior do governo.
O programa de Salgado Zenha foi uma excepção. A súmula da
reunião diz que “foi aprovado com o aplauso generalizado do
Conselho, devendo ser divulgado nas revistas jurídicas” e o primeiro
ponto “salientado” é
“a criação do Ombudsman, com prioridade e sem articulação
com os movimentos espontâneos de petições e queixas
recebidos em todos os Gabinetes, e em especial nos do
Primeiro Ministro e do Presidente da República.”
O Plano de Acção do Ministério da Justiça veio a ser publicado no
Boletim do Ministério da Justiça de Novembro de 1974 e a sua
releitura hoje – quando o tema da reforma da justiça está na ordem
do dia – impressiona pela completude, abertura de espírito, visão
prospectiva e ambição. Mas era um tempo em que parecia não haver
impossíveis.
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A propósito da instituição do Provedor de Justiça, reza assim o ponto
11 do Plano:
“… Instituir-se-á entre nós o ombudsman, que visará
fundamentalmente a assegurar a justiça e a legalidade da
administração através de meios informais. Trata-se de uma
inovação que satisfará indiscutivelmente os profundos anseios
de justiça do povo, extremamente económica no seu
funcionamento e de resultados apreciáveis noutros países,
quer pela fiscalização imediata, quer na preparação de
reformas (v.g. administração, prisões, polícias, corrupção,
etc.).
A sua designação competirá à assembleia legislativa. Até lá,
parece que a sua independência poderá ser assegurada por um
mecanismo de escolha adequado (proposta do Governo e
escolha da Presidência da República).”
Estava lançada uma instituição nova e inovadora e que viria a ser
uma peça constituinte do edifício democrático que se ia erguer e
como tal ficou inscrita na pedra da Constituição da República de
1976.
A queda do segundo governo oito dias depois, com a demissão do
Presidente da República, as vicissitudes políticas e a premência do
imediato, levaram a que o diploma instituidor da figura do Provedor
da Justiça só viesse a ser publicado no quarto governo, o Decreto-Lei
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nº 212/75, de 21 de Abril, com a assinatura de Salgado Zenha, que
continuava como Ministro da Justiça.
É-me grato cumprir o dever cívico de prestar homenagem a
Francisco Salgado Zenha, como cidadão empenhado na luta pela
liberdade e pela democracia, como jurista e como político.
Tive o privilégio de o conhecer bem. Além da convivências nos
segundo e terceiro governos provisórios, fiz com ele a campanha
eleitoral nas eleições de 1976 para a Assembleia da República, em
que Salgado Zenha era o líder da lista do PS pelo distrito do Porto. Foi
Salgado Zenha, Ministro das Finanças do sexto governo provisório,
que me nomeou Vice-governador do Banco de Portugal, em Outubro
de 1975, pondo fim ao desemprego que experimentei a seguir ao 11
de Março. E quando, no primeiro governo constitucional, fui ministro
dos Transportes e Comunicações, Salgado Zenha era líder
parlamentar do partido que apoiava o governo.
Senhor de uma personalidade forte e combativa e de uma
inteligência acutilante, era um polemista temível, não resistindo por
vezes a uma cortante ironia. Desde estudante que se distinguiu
como oposicionista, fez um brilhante percurso como advogado,
ficando memoráveis as suas alegações no célebre processo da
herança Sommer, deixou obra assinalável como governante, na
Justiça e nas Finanças e, como disse, esteve sempre na primeira
linha da defesa e da liberdade e da democracia em momentos
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cruciais, desde a questão da unicidade sindical aos atropelos do
PREC e ao momento refundador do 25 de Novembro.
Não foi feliz no fim da sua carreira política quando, já afastado do
Partido Socialista, decidiu candidatar-se à Presidência da
República, em 1985, mas será sempre lembrado como figura maior
da primeira geração de governantes da nossa terceira República.
Termino, regressando ao poema de Ruy Belo que evoquei no início,
porque os poetas são sempre mais sagazes :
… e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia.
Tal como o primeiro verso “No meu país não acontece nada”,
também estes, afinal, pertencem ao passado.
O povo não mais requereu curvado porque passou a viver num
regime democrático e a ter um Provedor de Justiça.
Emílio Rui Vilar
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