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Documento Burocracia_e_Transparencia_-_Conferencia_Jornal_de_Noticias
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Texto integral (2233 palavras)
Burocracia, transparência, corrupção.
Vila Nova de Gaia, 4 de novembro de 2020
1. O tema do nosso encontro anda em torno de três palavras plenamente
instaladas na linguagem quotidiana do nosso espaço público:
burocracia, transparência, corrupção. Da conjugação destas três
palavras surge a formulação inevitável de uma dupla pergunta: é ou
não a burocracia - pela sua própria natureza – inimiga da
transparência? Ao sê-lo, até que ponto se torna ela (a burocracia) uma
amiga da corrupção, ou, pelo menos, um factor propulsor e não
dissuasor de fenómenos de corrupção?
A formulação desta dupla pergunta tem toda a razão de ser. Aliás, à
sua colocação conduz, inelutavelmente, a conjugação das três palavras
que fazem o mote do nosso encontro. Sempre que pomos em conjunto
burocracia, transparência e corrupção não chegamos a outro lugar
que não à equação do duplo problema que acima mencionei: mais
burocracia = menor transparência= mais corrupção. O problema é
sério e, no nosso particular contexto, seriíssimo.
No entanto, eu gostaria de poder começar a sua abordagem através da
colocação de uma questão prévia, que diz respeito ao uso incontestado
de certas palavras e à aceitação generalizada das ideias que lhe andam
vulgarmente associadas.
2. Num dos seus últimos e bem divertidos ensaios, Umberto Eco
descreveu a genealogia do ambiente cultural que, em matéria de
linguagem, hoje nos circunda. Explica-nos Eco, neste ensaio, onde e
como surgiu a expressão “politicamente correto” quando aplicada às
palavras que usamos; e como a partir daí foi o nosso ambiente cultural
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permitindo a instalação de uma mesa censória, destinada a
constantemente vigiar o que de mais humano temos: a linguagem e o
uso que dela fazemos. Ficamos a saber, ao ler o tal divertido ensaio,
que tudo terá sido desencadeado pela autoridade (ou poder) da
Supreme Court norte-americana. É que algures nos anos setenta a
Supreme Court terá dito, numa das suas decisões, que não era
politically correct referir, em alegações jurídicas, o poder dos Estados
da Federação. E que em vez disso se afigurava correto – politicamente
correto – aludir ao poder dos povos dos Estados da Federação. Não
desenvolvo mais a ideia, que me parece uma curiosidade. Mas parto
dela para apenas recordar o seguinte. Décadas antes, no princípio do
século XX, já um outro jurista (alemão, europeu continental) terá dito
a este propósito algo que me parece resumir tudo: soberano é aquele
que dita a linguagem em nome dos outros. Ou seja: quem domina o
discurso, nomeando as palavras devidas e o sentido dominante que
lhes deve ser dado, manda e manda muitíssimo. Como manda a
Supreme Court. De forma que nós, se queremos verdadeiramente
assegurar o escrutínio de quem manda e impedir que quem manda use
o poder que tem de forma excessiva e sem limites, uma coisa temos
que fazer: re-examinar as palavras correntes que usamos e o uso que
normalmente lhes atribuímos – seja porque todos lhe atribuem esse
uso, seja porque se tornou hábito atribuir-lhe esse uso.
3. Vem isto, antes do mais, a propósito da palavra burocracia. De que é
que falamos, quando falamos em burocracia? É quase instintivo
concluir que nestes domínios é do Estado que falamos: da ação do
Estado, dos serviços públicos por ele organizados e das decisões
política que os orçamenta e conduz. Mas, se assim é – e parece-me
que é natural que assim seja – então teremos também que concluir que
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nem toda a burocracia será, por natureza e condição, um mal em si
mesmo. E que nem toda ela será dispensável, pois que nos não será
possível organizar e fazer funcionar uma coletividade política que,
sendo inteiramente a-burocrática, nos proteja dos males políticos
como a assepsia nos protege dos males da infeção. Um mundo
“burocracy-free” não existe. Provavelmente nunca existiu. Mas num
Estado moderno, que tem a sofisticação (jurídica) que exigimos que
ele tenha, que presta os serviços que exigimos que ele preste e que
suporta uma Administração que exigimos que ele suporte, alguma
“burocracia” terá sempre que existir. Os atos administrativos terão
sempre que ser exercidos por entidades legitimadas e autorizadas por
leis e regulamentos. As decisões tomadas por essas entidades terão
sempre que seguir certos procedimentos, também eles suficientemente
regulados por leis. Ao longo desses procedimentos, as pessoas que
virão a ser destinatárias das decisões administrativas deverão ser
ouvidas e auscultadas. E entre essas decisões finais e as pessoas
concretas que venham por elas a ser afetadas haverá sempre a
mediação de entidades independentes, às quais se pede consulta,
fiscalização e mais regulação. Tudo isto se traduz em burocracia. Mas
no universo complexo e exigente do Estado contemporâneo essa
burocracia não é dispensável. Pelo contrário: é exigível, porque
decorre das premissas próprias de um Estado de direito, que tem, como
a própria democracia, custos inevitáveis. Num certo sentido, a
burocracia é um desses custos. Não há como escapar-lhe.
4. No entanto, coisa diferente desta é aquela que ocorre sempre que uma
burocracia funciona mal. E uma burocracia funciona mal sempre que
é servida por uma administração que leva a sua ineficiência e pouca
racionalidade a pontos tais que tornam a sua atuação prejudicial para
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todos quantos por ela deveriam ser beneficiados. Quando se atinge tal
situação, os problemas que surgem, por serem causados por uma teia
complexa de fatores que se foram cristalizando ao longo do tempo,
transformam-se em problemas de sistema, que já não são resolúveis
pela intervenção estrita da legalidade feita caso a caso. E é isto mesmo
que muitas vezes acontece no nosso País. As causas que o explicam
são várias e bem conhecidas. Nós temos, neste momento, uma
Administração Pública envelhecida, que deveria assegurar a sua
própria sucessão geracional mas que o não consegue fazer porque o
serviço público não atrai as novas gerações. Nós temos, neste
momento, serviços administrativos ineficientes e mal organizados,
que muitas vezes nem sequer comunicam entre si, e que reclamam por
direções hierárquicas firmes que ponham termo à disfunção e
irracionalidade. Mas nem sempre o conseguimos fazer, porque as
chefias existentes são frequentemente instáveis, pouco preparadas,
pouco dignificadas e muito dependentes de elos de confiança política.
Nós temos, neste momento, uma Administração que deveria estar
mais do que nunca preparada para se adaptar às exigências decorrentes
das transformações tecnológicas. Mas tal aggiornamento é difícil de
realizar, quanto mais não seja pelas razões já explicadas: porque quem
o poderia fazer seriam os jovens e eles não estão presentes; porque
quem o poderia planear seriam as chefias eficientes e estas, muitas
vezes, também não existem.
São todos estes fatores que, conjugados e persistentes no tempo,
transformam a nossa burocracia naquilo que ela não deve ser: uma
disfunção nociva da inevitabilidade burocrática do Estado
contemporâneo, e não o custo saudável das normais exigências da
Rule of law. Assim, quando pomos em equação o trinómio burocracia,
transparência, corrupção, antes do mais devemos recordar-nos que,
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quando mencionamos o primeiro elemento desse trinómio, será neste
sentido preciso que o mencionamos.
5. O mesmo acontece com o seu segundo elemento, a transparência.
De algum modo, acontece aqui o mesmo que acontece com o uso
indiscriminado da referência à burocracia. Tal como se afigura
impossível imaginar um Estado inteiramente a-burocrático, também é
impossível conceber uma qualquer sociedade política que seja
integralmente transparente, como se a vida coletiva pudesse e devesse
habitar um edifício onde tudo estivesse à vista de todos em qualquer
circunstância e a qualquer hora. Alguns aspetos da vida cultural
contemporânea, e da estrutura do espaço público que a sustenta,
assentes ambos na comunicação através da imagem e na transmissão
em tempo real do que vai ocorrendo, podem dar a ilusão de que é desta
tessitura de vidro de que falamos, quando falamos na necessidade que
sentimos de que a vida política seja transparente. Mas não o é nem
pode ser assim, por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar,
porque qualquer Estado ou sociedade política pressupõe um governo
e governar significa decidir. Reduzir a complexidade da decisão
política a um dado que a todo o momento e em qualquer circunstância
pode ser imediatamente intuído e compreendido por todos não é, pura
e simplesmente, realista. Aliás, foi precisamente com base nesta
premissa – segundo a qual a complexidade das sociedades
contemporâneas seria tal, que não se coadunaria com decisões
tomadas a qualquer momento por qualquer um dos seus destinatários
– que se construiu todo o edifício do Estado moderno, fundado na ideia
de representação política. Elegemos pessoas para que decidam em
nosso nome e no nosso interesse porque partimos do princípio
segundo o qual nem todos podemos, queremos ou devemos ocupar-
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nos a todo o tempo da vida pública. A chamada “liberdade dos
modernos”, por oposição à “liberdade dos antigos”, tão intensamente
estudada por quem teorizou, há pouco mais de dois séculos, essa forma
de vida a que hoje damos o nome de “democracia liberal”, assenta
justamente neste pressuposto. Não estamos a renunciar à liberdade
quando escolhemos representantes eleitos que irão decidir sobre
assuntos que interessam a todos; ao fazê-lo, estamos apenas a
organizar-nos de outro modo (em relação ao mundo antigo, com
comunidades bem mais pequenas e com assuntos públicos de menor
complexidade), adequando a nossa organização às exigências dos
tempos modernos. Não vejo como é que esta ideia, formulada há mais
de duzentos anos, pode hoje ser, na sua essência, substituída pela tese
segundo a qual todas as decisões políticas, a qualquer momento e em
qualquer lugar, devem ser tomadas de modo tal que se torne inteligível
para quem quer que seja a teia complexa dos motivos, das
circunstâncias e dos contextos em que foram produzidas. Não pode
ser disto que falamos quando falamos em transparência, porque isto,
assim pensado, é insensato e irrealizável.
Além disso, quem é eleito para decidir em nosso nome e no nosso
interesse sobre assuntos que a todos dizem respeito deve ter as
condições adequadas para a boa realização do seu trabalho. Imputar
ao ideal da transparência o escrutínio, sem limites, da vida privada de
quem foi eleito para assumir funções públicas também não parece
acertado, nem tão pouco eficiente. A vida pública, para quem escolheu
segui-la, não pode transformar-se no calvário da arbitrária exposição
individual. É que, se tal acontece, só os piores – em todo o sentido do
termo – se mostrarão dispostos a sofrer o calvário. Não quer isto dizer,
bem entendido, que não seja justificado pedir contas especiais a quem
se ocupa dos assuntos públicos: a este tema – da prestação de contas
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– voltarei já de seguida, porque é dele que verdadeiramente nos
devemos ocupar. Quer apenas isto dizer que, tal como acontece com
o uso do termo burocracia, também o uso do termo transparência
deve ser feito com as reservas que a sensatez e as exigências próprias
daquilo a que chamamos Estado de direito democrático (ou, noutra
terminologia, democracia liberal) nos impõem.
6. A ser assim, em que é que deve consistir, afinal, a transparência? A
meu ver, na possibilidade integral de exigir de quem decide a
prestação periódica de contas quanto à forma e ao modo de exercício
do mandato que lhe conferimos. Sem a verificação deste pressuposto,
todos os alicerces que dão sustento aos valores comuns que
compartilhamos tornam-se frágeis. É necessário que mantenhamos a
capacidade de distinguir entre quem agiu efetivamente em nome e no
interesse de todos e quem não o fez, ou quem exerceu o poder que lhe
delegámos em interesse próprio. Na verdade, o termo corrupção
significa amplamente isto mesmo: não implica só que haja, ou tenha
havido, por parte dos agentes públicos, venalidade. Implica antes,
mais largamente, que aconteça ou tenha acontecido o que nunca
deverá ser permitido: que as instituições públicas e políticas sejam
usadas, por aqueles que em certo momento as ocupam, para a
prossecução de fins outros que não os fins de interesse público que
justificam e determinam a sua existência.
7. Uma sociedade política transparente será então, neste contexto, aquela
na qual os cidadãos dispõem de meios bastantes para prevenir que a
corrupção, entendida também neste sentido lato, ocorra; e para a
reprimir, caso ela, não obstante todas as prevenções tenha
efetivamente ocorrido.
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Uma sociedade deste tipo tem que munir-se, antes do mais, de sólidas
instituições, e de uma forte cultura institucional. Nada é mais amigo
da corrupção, e da falta de transparência na vida política, do que o
grassar social daquilo a que podemos chamar iliteracia institucional.
Tal como outros tipos de iliteracia, esta é o resultado de práticas
sedimentadas de ignorância e de desleixo quanto à ignorância. Só que,
aqui, a ignorância diz respeito ao conhecimento suficiente das
instituições, dos fins que elas prosseguem e dos benefícios que para
todos se retiram da disseminação de uma cultura de serviço no
cumprimento desses fins. Numa sociedade como a nossa, em que este
tipo de iliteracia é ainda dominante, prevenir e reprimir os fenómenos
de corrupção torna-se muitíssimo mais difícil. Numa sociedade como
a nossa, na qual se junta, a esta generalizada ignorância, uma ancestral
dependência face ao Estado, garantir a transparência ou a não
opacidade da vida pública torna-se também um desafio imenso.
Enfrentemos, pois, esse desafio, atuando sobre as causas profundas da
nossa opacidade: melhorando a Administração, forjando instituições
sólidas, combatendo a iliteracia institucional, abandonando o desleixo
no cultivo da ideia de serviço público. Esta será, a meu ver, uma boa
agenda a seguir, caso queiramos garantir que a burocracia não
continue a crescer, diminuindo a transparência e aumentando a
corrupção.
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