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Documento 22%20Relat%c3%b3rio%20EP%20Viseu%20-%20julho%2025%20(sum%c3%a1rio)
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- RELATÓRIO DE VISITA
Texto integral (1549 palavras)
RELATÓRIO DE VISITA
LOCAL DA VISITA Estabelecimento Prisional de Viseu
N.º DE VISITA 22/2025
DATA 14 de julho de 2025
TIPO DE VISITA Análise global de fatores de risco de maus-tratos
A visita teve como objetivo realizar uma análise global dos fatores de risco de maus-tratos no EP. Foi
levada a cabo, como é regra, sem aviso prévio e teve a duração de uma tarde. A visita iniciou-se numa
conversa com a Diretora, a chefia guardas e um adjunto da direção, para diálogo acerca do
funcionamento do EP e dos seus principais desafios
Ao longo da visita, a equipa do MNP repartiu-se, tendo sido visitados o pavilhão principal que aloja
reclusos em regime comum, o edifício destinado ao alojamento de reclusos em regime aberto, três
pavilhões (ainda inativos) em fases diferentes de remodelação (com recurso a mão-de-obra reclusa),
os serviços jurídicos, os serviços clínicos, os quartos de visitas íntimas, a zona administrativa, a quinta,
a igreja e o pavilhão gimnodesportivo.1 A Diretora acompanhou a visita às zonas prisionais, mas os
elementos do MNP tiveram oportunidade de conversar, em condições de privacidade, com vários
reclusos, bem como com uma jurista e vários elementos do corpo da guarda prisional, incluindo de
chefia. Um dos elementos do MNP assistiu ainda ao momento de Reconhecimento, Validação e
Certificação de Competências de um recluso.
Quanto à análise documental, foram consultados processos de inquérito por uso de meios coercivos,
processos disciplinares contra reclusos, queixas apresentadas por reclusos ao abrigo da Circular n.º
9/2021, expedientes referentes à sinalização de lesões anteriores ao ingresso de reclusos, um processo
de óbito e imagens de videovigilância.2
Na reunião final, para conclusão da visita, o MNP expôs as suas conclusões preliminares à Diretora,
que – tal como no decurso da visita – se fez acompanhar do seu adjunto e do chefe da equipa de
segurança, uma opção positiva que não só evidencia o trabalho em equipa no quotidiano do EP,
como proporcionou um diálogo mais amplo acerca dos aspetos sinalizados pelo MNP e fomentou o
compromisso com as melhorias necessária.
O MNP destaca, como muito positivo, o encerramento definitivo das anteriores instalações do EP
de Viseu e a transferência da totalidade dos reclusos para instalações novas, remodeladas e com
potencial de crescimento. De facto, nos termos já relatados na visita realizada pelo MNP em 2021:
1
O EP não dispõe de um setor disciplinar, sendo as medidas de colocação em cela disciplinar cumprida no EP de Lamego.
2
Segundo informação prestada ao MNP, não existiram, nos últimos dois anos, processos (de inquérito ou disciplinares)
instaurados contra funcionário por maus-tratos a recluso.
“A principal informação que o MNP retirou desta visita foi que este EP não deveria continuar
aberto. Tal como referido pelo Diretor, as suas condições são “muito deficitárias”, e a DGRSP
espera conseguir esvaziar e subsequentemente encerrar o EP de Viseu num futuro próximo,
transferindo os reclusos na sua totalidade para o EP do Campo”
O MNP terminou a visita com a perceção da existência no EP de uma Direção presente e proativa e
de uma boa colaboração entre a Diretora e a chefia do corpo de guardas, o que tem possibilitado,
entre outros aspetos, a realização de obras significativas para recuperação gradual de três novos
pavilhões com boas condições de alojamento. Igualmente digna de destaque é a qualidade do
trabalho desenvolvido pelos serviços jurídicos do EP, que contam com uma equipa reforçada de
três jurista e garantem uma tramitação globalmente muito rigorosa dos expedientes. Trata-se de um
ótimo exemplo de como os serviços jurídicos podem desempenhar um papel fundamental na
sinalização e prevenção de maus-tratos, designadamente cumprindo obrigações de reporte ao
Ministério Público e aos serviços de inspeção competentes.
O MNP destaca negativamente a falta de homologação pela DGRSP da lotação oficial do EP e os
atrasos significativos do IGFEJ (Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos de Justiça) no início
dos trabalhos nos «pavilhões de apoio» – onde deverão funcionar as oficinas, o setor disciplinar, o
ensino, a formação profissional e a cozinha – fundamentais ao quotidiano prisional que, atualmente,
se caracteriza por uma grande desocupação da população reclusa.
O MNP recomenda que a DGRSP [i] promova a homologação da lotação oficial do EP
(respeitando as áreas mínimas de alojamento definidas em padrões internacionais) e [ii] procure,
em articulação com o Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça, assegurar o
início das obras nos “Pavilhões de Apoio” do EP num curto prazo.
FATORES DE RISCO
Condições materiais
• Falta de homologação da lotação oficial do EP3
• Sobrelotação do EP, com uma taxa de ocupação de 107%, tendo por referência os critérios
definidos pelo Comité Europeu de Prevenção da Tortura4
3
De acordo com a informação prestada ao MNP relativamente à cubicagem das celas, a lotação oficial do EP não deveria
exceder as 76 pessoas, de forma a respeitar os padrões definidos pelo Comité Europeu de Prevenção da Tortura (CPT)
quanto ao espaço mínimo de alojamento (individual e coletivo) por pessoa reclusa.
4
O EP alojava, à data da visita, 81 reclusos. Não estando a sua lotação oficialmente homologada, a direção do EP tem vindo
a operar no pressuposto de ter capacidade para instalar 81 pessoas (100%), mas o respeito pelos padrões internacionais
imporia uma lotação oficial não superior a 76 reclusos (107%). Em todo o caso, o MNP relembra que, segundo posição
expressa pelo Conselho de Europa – no Livro Branco sobre Sobrelotação das Prisões (disponível aqui) – uma lotação
superior a 90% corresponde já a uma situação de alto risco, que implica a tomada de medidas para evitar mais
congestionamento.
• Incumprimento, em alguns alojamentos, das áreas mínimas por
pessoa reclusa, definidas em orientações internacionais5
• Desrespeito pela regra de alojamento individual, sendo a grande maioria da população reclusa
alojada em camaratas, algumas das quais com 12 pessoas
• Falta de privacidade de duches nos balneários do pavilhão de reclusos em regime comum
• Exiguidade dos pátios que, aliada à altura dos muros, acentua a sensação de claustrofobia
Quotidiano prisional e Ocupação laboral, formativa e lúdica
• Ambiente de tensão nalgumas camaratas, devido ao número excessivo de ocupantes (10 a 12)
• Atraso significativo do IGFEJ no início da obra dos «pavilhões de apoio», fundamentais ao
quotidiano prisional, onde deverão funcionar as oficinas, o setor disciplinar, o ensino, a formação
profissional e a cozinha
• Escassez de técnicos de reeducação, sendo o único elemento de que o EP dispõe insuficiente
para a aplicação de programas
• Queixas relativas à baixa remuneração do trabalho prestado por reclusos, quer nos terrenos da
quinta, quer nas obras de remodelação do EP
• Queixas frequentes quanto ao tempo excessivo de permanência nos alojamentos (cerca de 19
horas diárias), sendo os períodos a céu aberto mais limitados aquando da realização de obras ou
nos períodos de greve do corpo da guarda prisional
• Queixas frequentes quanto à reduzida oferta de atividades para reclusos em regime comum
• Pouca utilização do campo de futebol por falta de recursos de vigilância
Reclusos em situação de vulnerabilidade
• Desconhecimento por reclusos estrangeiros do âmbito de atuação da técnica de reeducação
• Inadequação da alocação ao EP – com alojamentos maioritariamente coletivos – de reclusos com
problemas graves de saúde mental, inclusivamente quando existe uma “medida de
internamento em clínica psiquiátrica decretada pelo tribunal”
ASPETOS POSITIVOS
• Encerramento definitivo do antigo EP de Viseu, que apresentava condições manifestamente
incompatíveis com uma reclusão em condições de dignidade
• Bom estado de preservação dos alojamentos
• Corporação experiente de guardas prisionais
• Boa oferta laboral para reclusos em regime aberto, tanto na quinta do EP, como em obras de
remodelação de pavilhões
5
Vide anexo com dados estatísticos.
• Adaptação do ensino à realidade de reclusos preventivos, com
disponibilização de unidades formativas de curta duração (UFCD) e processos de
Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC)
• Equipa robusta de juristas, contando o EP com três profissionais nesta área
• Rigor ímpar na tramitação de expedientes jurídicos, com especial destaque para a produção
exaustiva de prova, a fundamentação de decisões e o cumprimento de deveres de reporte
• Qualidade da prestação de serviços clínicos, com uma equipa completa e boas infraestruturas
• Disponibilização de escola e de mais espaços comuns (tais como parlatório, sala de advogados
e refeitório), com a inauguração das novas infraestruturas do EP
• Cobertura total do sistema de videovigilância
• Possibilidade de realização de visitas remotas por Webex
• Produção hortícola com venda para 20 restaurantes da comunidade local
• Existência de um pavilhão gimnodesportivo utilizado por reclusos em regime aberto, uma tarde
por semana, e alugado a entidades externas, constituindo uma fonte de rendimento
• Recuperação gradual de três novos pavilhões com boas condições de alojamento (44 celas
individuais, uma cela adaptada a pessoas com mobilidade reduzida e apenas duas camaratas de
quatro pessoas)
• Indícios de bom relacionamento entre os elementos de vigilância e a população reclusa
• Vontade da Direção em promover uma interação cada vez maior com a comunidade local, seja
através do fornecimento de produtos, da utilização do gimnodesportivo ou da reabertura da
igreja do EP a eventos de culto pontuais
• Tramitação rigorosa dos expedientes referentes a lesões anteriores ao ingresso de reclusos sob
custódia policial, com destaque para o exercício opcional da comunicação dos factos
subjacentes ao Comandante do Posto Territorial que custodiou o recluso