Diário da República, 1.ª série
Resolução do Conselho de Ministros n.º 98/2020
- Data
- 2020-11-13
- Tipo
- Resolução do Conselho de Ministros
- Emitente
- PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE MINISTROS
Texto integral (33 363 palavras)
Resolução do Conselho de Ministros n.º 98/2020
Sumário: Aprova a Estratégia Portugal 2030.
O processo de preparação da Estratégia Portugal 2030 iniciou-se no final de 2017, tendo sido
realizada uma alargada auscultação da sociedade portuguesa e que envolveu consultas junto dos
parceiros económicos e sociais, da academia, da sociedade civil e dos agentes regionais, bem
como a consulta de todos os partidos políticos com assento parlamentar na legislatura anterior.
Os pressupostos para a sua definição foram ainda objeto de um largo consenso político, social e
económico sobre o rumo que o País deve trilhar com vista a alcançar mais crescimento, melhor
emprego e maior igualdade no horizonte da próxima década.
No início de 2020, a pandemia da doença COVID-19 e as profundas consequências em matéria
de desenvolvimento económico e social vieram suscitar, quer em Portugal, quer na União Europeia,
a necessidade de um ajustamento estratégico e operacional, no sentido de uma resposta de esta-
bilização de curto prazo e de promoção da recuperação e resiliência, a médio e longo prazos.
O Programa de Estabilização Económica e Social, aprovado pela Resolução do Conselho de
Ministros n.º 41/2020, de 6 de junho, veio estabelecer um quadro de medidas de apoio, visando a
progressiva estabilização nos planos económico e social, sem descurar a dimensão sanitária de
combate à pandemia.
A recessão económica e os efeitos na sociedade, a par da imprevisibilidade das suas con-
sequências, quer em termos económicos e sociais, quer em termos de duração, exigem de forma
complementar a adoção de um quadro estratégico robusto que promova a recuperação da economia
nacional, crie as condições de suporte a um país mais resiliente a futuros choques externos, como o
que vivemos atualmente decorrente da pandemia da doença COVID-19, e contribua decisivamente
para um processo de convergência externa de Portugal com a Europa, assegurando simultanea-
mente a coesão e resiliência social e territorial interna.
O Conselho Europeu aprovou, em julho de 2020, um pacote financeiro ambicioso, que inclui o
Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027 e o Next Generation EU, para dar resposta aos novos desafios
decorrentes da pandemia da doença COVID-19, mediante a implementação de políticas económicas
e sociais de recuperação e promoção da resiliência dos Estados-Membros, devendo Portugal adotar
um quadro estratégico para uma década de crescimento económico e desenvolvimento.
O Governo designou, pelo Despacho n.º 6033-B/2020, publicado no Diário da República, 2.ª série,
n.º 108, de 3 de junho de 2020, o Professor Doutor António Costa Silva para assegurar a coordenação
dos trabalhos preparatórios de elaboração do Programa de Recuperação Económica e Social 2020-2030,
o qual foi também discutido amplamente e objeto de consulta pública durante o mês de agosto, tendo
este trabalho constituído um contributo relevante para a definição deste quadro estratégico.
Face ao exposto, é definida a Estratégia Portugal 2030, doravante designada por Estratégia,
estruturada em torno de quatro agendas temáticas centrais para o desenvolvimento da economia,
da sociedade e do território de Portugal no horizonte de 2030: i) as pessoas primeiro: um melhor
equilíbrio demográfico, maior inclusão, menos desigualdade; ii) digitalização, inovação e qualifica-
ções como motores do desenvolvimento; iii) transição climática e sustentabilidade dos recursos, e
iv) um país competitivo externamente e coeso internamente.
Esta Estratégia, densificada em domínios e eixos estratégicos de intervenção, consubstancia
a visão da próxima década de recuperação e convergência de Portugal com a Europa, entretanto
interrompida com a pandemia da doença COVID-19, assegurando, simultaneamente, a coesão e a
resiliência social e territorial interna. A Estratégia tem em conta os desafios estruturais que a recente
pandemia revelou e acentuou, desde a necessidade de aumentar a resiliência da economia, das
sociedades e dos territórios, até certas disrupções socioeconómicas com impacte nas formas de
organização da economia e da sociedade. Assume-se, igualmente, como referencial estratégico
para as políticas públicas em Portugal e para a mobilização das respetivas fontes de financiamento
nacionais e comunitárias, incluindo o Plano de Recuperação e Resiliência.
Em concomitância, os Programas Nacionais de Reformas, no âmbito do Semestre Europeu,
e as Grandes Opções asseguram igualmente o alinhamento com as prioridades estabelecidas na
Estratégia Portugal 2030.
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Assim:
Nos termos da alínea g) do artigo 199.º da Constituição, o Conselho de Ministros resolve:
1 — Aprovar a Estratégia Portugal 2030, doravante designada por Estratégia, enquanto refe-
rencial principal de planeamento das políticas públicas de promoção do desenvolvimento económico
e social do País, que consta do anexo à presente resolução e da qual faz parte integrante.
2 — Estabelecer que a coordenação global e a monitorização da Estratégia são asseguradas
pelo membro do Governo responsável pela área do planeamento.
3 — Determinar que a Estratégia assenta nas seguintes quatro agendas:
a) As pessoas primeiro: um melhor equilíbrio demográfico, maior inclusão, menos desigualdade;
b) Digitalização, inovação e qualificações como motores do desenvolvimento;
c) Transição climática e sustentabilidade dos recursos;
d) Um país competitivo externamente e coeso internamente.
4 — Determinar que os documentos de estratégias transversais, regionais ou setoriais, designa-
damente os Programas Nacionais de Reformas e as Grandes Opções, devem estar alinhados com
a Estratégia, devendo esses documentos de planeamento incluir uma análise dessa conformidade.
5 — Estabelecer que a Estratégia deve ainda constituir a orientação para o desenho dos
instrumentos de apoio ao desenvolvimento económico e social, designadamente os financiados
pelos fundos europeus, como sejam o Plano de Recuperação e Resiliência, o Acordo de Parceria,
os Programas Operacionais nele incluídos e o Plano Estratégico da Política Agrícola Comum, a
implementar no ciclo de programação 2021-2027.
6 — Determinar que as estratégias regionais e sub-regionais, incluindo os Planos Territoriais
de Transição Justa, devem evidenciar o seu alinhamento e contributo para a prossecução da Es-
tratégia, observando o modelo de organização territorial definido no Programa Nacional da Política
do Ordenamento do Território, através da Lei n.º 99/2019, de 5 de setembro.
7 — Estabelecer que o acompanhamento e a avaliação da execução da Estratégia é da
competência do membro do Governo responsável pela área do planeamento em articulação com
os membros do Governo responsáveis pela coordenação dos respetivos desafios estratégicos
previstos no Programa do Governo.
8 — Determinar que Agência para o Desenvolvimento e Coesão, I. P., assegura o suporte
técnico da Estratégia, em articulação com as estruturas de planeamento dos ministérios envolvidos.
9 — Determinar que seja elaborado e objeto de divulgação pública um relatório anual de
acompanhamento, o qual é submetido ao Conselho de Ministros.
10 — Determinar que o Governo assegura a plena informação à Assembleia da República e
ao Conselho Económico e Social sobre a implementação e avaliação da Estratégia.
11 — Estabelecer que a presente resolução entra em vigor no dia seguinte ao da sua publicação.
Presidência do Conselho de Ministros, 29 de outubro de 2020. — O Primeiro-Ministro, António
Luís Santos da Costa.
ANEXO
(a que se refere o n.º 1)
Estratégia Portugal 2030
1 — Introdução
Para dar resposta eficaz aos desafios que enfrentamos é necessário definir onde queremos chegar.
O presente anexo sistematiza os principais elementos da Estratégia Portugal 2030.
A Estratégia Portugal 2030 beneficia da «Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Econó-
mica de Portugal 2020-2030» desenvolvida pelo Professor Doutor António Costa Silva por solicitação
do Governo Português e que foi objeto de um amplo processo de debate e auscultação pública.
Encontra-se ainda alinhada, no contexto europeu, com a nova Agenda Estratégica da União
Europeia (UE) para o período de 2019 a 2024, adotada pelo Conselho Europeu, em 20 de junho
de 2019, complementada com o Plano de Recuperação da Europa, apresentado pela Comissão
Europeia, a 27 de maio de 2020, e aprovado pelo Conselho Europeu, em julho, que visa preparar
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o futuro e criar as condições de crescimento após a crise desencadeada pela COVID-19, e no con-
texto internacional, com a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, aprovada na Cimeira da
Organização das Nações Unidas, em 25 de setembro de 2015, e em vigor desde 2016.
A nível nacional, reflete igualmente as grandes linhas do Plano de Melhoria da Resposta do
Serviço Nacional de Saúde (SNS), do Plano de Ação para a Transição Digital (Portugal Digital), do
Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030), do Plano Nacional de Investimentos 2030, do
Programa Nacional da Política do Ordenamento do Território (PNPOT), do Programa Internaciona-
lizar 2030 e do Programa de Valorização do Interior, documentos de natureza estratégica que se
destacam pela sua relevância de entre os muitos que têm vindo a ser aprovados.
Para além dos desafios estruturais do País, a Estratégia Portugal 2030 não poderia deixar de
considerar os problemas que a recente pandemia revelou e acentuou, desde a necessidade de
aumentar a resiliência da economia, da sociedade e dos territórios, a dar uma resposta ativa às
disrupções socioeconómicas nos modos de organização, cujo impacte global ainda não é conhecido
na plenitude da sua dimensão ou intensidade.
Começa por apresentar a visão para o País, para, em seguida, descrever as agendas temá-
ticas que a consubstancia e materializa. Identifica ainda os objetivos prioritários e os domínios de
intervenção estratégicos que serão prosseguidos.
Para além de detalhar e precisar o caminho estratégico para o desenvolvimento do País na
próxima década, a Estratégia Portugal 2030 propõe-se constituir o elemento enquadrador e es-
truturador dos grandes programas de modernização que, com o financiamento de fundos da UE,
serão executados nos próximos anos — o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o Acordo
de Parceria e os Programas Operacionais no âmbito dos fundos da Política de Coesão e o Plano
Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC).
2 — Estratégia Portugal 2030: A visão e as agendas de política pública
As últimas décadas testemunharam significativos progressos na economia, sociedade e ter-
ritório portugueses.
Portugal conheceu um importante processo de transformação estrutural e de desenvolvimento
económico, social, cultural e territorial, que se materializou num progresso significativo da generali-
dade dos indicadores de desenvolvimento humano, intimamente ligado à democratização, à nossa
participação no processo de construção europeia e a ciclos sucessivos de políticas estruturais que
responderam a bloqueios na economia, sociedade e território, nomeadamente ao nível das infraestru-
turas e equipamentos, da qualificação dos recursos humanos e da transformação do tecido económico.
Não obstante os progressos registados, persistiam, no início de 2020, importantes bloqueios
ao desenvolvimento económico, social e territorial português, nomeadamente ao nível das qualifi-
cações, da especialização da economia, das desigualdades e da coesão territorial.
A crise sanitária provocada pela pandemia da doença COVID-19 veio constituir um elemento
de disrupção no processo de crescimento em curso, o qual exigiu a adoção de medidas de controlo
da transmissão da doença, que vieram introduzir um profundo choque nas cadeias económicas,
quer do lado da oferta, quer da procura. Os efeitos são complexos e múltiplos, desde a abrupta
interrupção das cadeias de produção e fornecimento, com empresas a encerrar, desemprego a
aumentar, fluxos de pessoas e bens e serviços a abrandar significativamente e bolsas de pobreza
a alargar. Ao mesmo tempo, são introduzidas medidas de política de proteção interna, como sejam
o reforço do SNS, o apoio à manutenção dos contratos de trabalho (apoio ao layoff), o apoio à
produção nacional de bens e serviços no domínio da saúde e em outros domínios estratégicos para
reposição das cadeias de fornecimento internacionais interrompidas e o reforço dos apoios sociais
e a setores mais debilitados, como sejam o turismo, o comércio, a indústria e a cultura.
Não obstante a adoção rápida de medidas de contingência, Portugal vê os principais indica-
dores macroeconómicos deteriorarem-se de forma significativa, com o País a entrar em recessão
e as previsões a apontarem para uma das piores crises económicas e sociais.
Assim, a par de um conjunto de medidas de estabilização económica e social (1) em curso, Por-
tugal tem de responder de forma inovadora e reforçada, fazendo dos constrangimentos estruturais
oportunidades para promover uma recuperação e transformação alinhadas com os novos desafios
da transição digital e climática, pugnando por uma sociedade mais justa e igualitária.
Portugal irá receber nos próximos nove anos e, de forma particular, nos próximos seis anos,
um montante de apoios europeus que rondará os 50 mil milhões de euros, pelo que a presente
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Estratégia Portugal 2030 deverá, de forma consensualizada, estabelecer as agendas estratégicas
e prioridades de intervenção a concretizar na programação operacional dos instrumentos que a
implementam (nomeadamente PRR, PEPAC e Acordo de Parceria).
2.1 — «Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030»
Síntese do contributo do Professor Doutor António Costa Silva
Após descrever a dinâmica da crise, alertando para a sua natureza global e sistémica, aliada
à crise ambiental e climática, o documento do Professor Doutor António Costa Silva identifica as
opções estratégicas que devem traduzir-se em medidas que possam promover a alteração dos
constrangimentos estruturais que inibem e limitam o desenvolvimento económico do País (v. fig. 1).
Figura 1 — Constrangimentos estruturais e oportunidades
Fonte: «Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030», António Costa Silva,
Lisboa, 21 de julho de 2020.
Estas opções estratégicas devem ter presente o posicionamento geopolítico de Portugal e as
oportunidades e constrangimentos decorrentes das tendências pesadas do século XXI. Vivemos num
mundo em acelerada mudança tecnológica, digital e climática, que, a par dos efeitos positivos na
economia e sociedade, produzem profundas desigualdades na disseminação e apropriação desses
resultados. Ao mesmo tempo que vivemos a revolução na robótica, na inteligência artificial, nas
nanotecnologias, na ciência dos materiais, nas ciências da vida, que promovemos a mudança na
produção e consumo de energia e na utilização dos recursos, alargamos o fosso entre os mais ricos
e os mais pobres, os que conseguem aceder às mais-valias da inovação e criatividade e os que se
encontram excluídos, os que promovem o interesse coletivo e do planeta e os autocentrados no
poder individual e económico momentâneo (terrorismo, guerras civis, pirataria, ciberataques, etc.).
Os futuros possíveis de Portugal, tendo presente o seu posicionamento geoestratégico, refle-
tem a forte ligação do País ao Atlântico, à Europa e a África, e as suas capacidades de diplomacia
e posicionamento de cooperação e parceria a nível global, a importância de se estar conectado
globalmente (redes energéticas, redes de transportes, plataformas logísticas, redes de conheci-
mento e tecnologia, redes comerciais, etc.), de se proteger e potenciar os ecossistemas e recursos
(nomeadamente, a Zona Económica Exclusiva, fontes renováveis de energia), e de se potenciar a
capacidade de industrialização (setores tradicionais e setores emergentes) e de competências dos
recursos humanos, reforçando a inovação e a criatividade, o empreendedorismo e novos modelos
de negócio, a educação e os valores culturais.
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As vantagens competitivas de Portugal permitem configurar importantes oportunidades que
deverão ser trabalhadas em complementaridade com as medidas de resposta à resolução dos prin-
cipais constrangimentos estruturais, incluindo aos efeitos mais recentes na economia e sociedade,
decorrentes da pandemia da doença COVID-19.
Figura 2 — Futuros possíveis de Portugal
Fonte: «Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030», António Costa Silva,
fig. 3, p. 26, Lisboa, 21 de julho de 2020.
Finalmente, a «Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030»
do Professor Doutor António Costa Silva aponta para 10 eixos estratégicos e nove objetivos.
Figura 3 — Eixos estratégicos da «Visão Estratégica para o Plano de Recuperação
Económica de Portugal 2020-2030»
Fonte: «Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030», António Costa Silva,
Lisboa, 21 de julho de 2020.
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Ressalta a relevância de se completarem infraestruturas de conectividade, como sejam a
rede ferroviária nacional, as redes de metropolitano, o reforço da capacidade aeroportuária da
Área Metropolitana de Lisboa e o alargamento competitivo dos portos e infraestruturas logísticas.
Ainda ao nível das infraestruturas, são relevadas as necessidades de construção e otimização das
infraestruturas ambientais e de energia, como sejam a gestão integrada do ciclo urbano da água,
dos resíduos urbanos e a rede nacional de transporte de eletricidade. A transição digital assume uma
relevância central dada a sua natureza sistémica, quer ao nível da atividade produtiva e empresarial,
da saúde, da educação e dos serviços do Estado (inteligência artificial, tecnologia 5G, computação
em nuvem, Internet das Coisas, etc.). Igualmente o reforço e consolidação do SNS emerge no
contexto da recuperação e resiliência, sendo estratégico o investimento quer em equipamentos e
infraestruturas mas também ao nível dos recursos humanos e da investigação e desenvolvimento
tecnológico. A reconversão industrial e a reindustrialização do País como alavanca do crescimento
económico, centrado na eficiência coletiva, investigação e inovação (produtos e serviços de alta
qualidade e valor acrescentado), produtividade, emprego qualificado, qualificação dos recursos hu-
manos e atração de investimento. A transição energética, reforçando a boa prestação de Portugal ao
nível das energias renováveis e intensificando a eficiência energética, as redes elétricas inteligentes
e o sistema de transporte da energia. A valorização do território e a diminuição das assimetrias
económicas e sociais constitui igualmente um objetivo estratégico a prosseguir, incluindo a gestão
integrada dos setores agrícola e florestal, a promoção da defesa do ambiente e dos ecossistemas
naturais, a conservação da natureza e a biodiversidade e o combate à desertificação e às alte-
rações climáticas; mas também o desenvolvimento de clusters tecnológicos regionais através da
implementação de projetos geoeconómicos integrados. Por fim, mas não menos relevante, importa
destacar a proteção e reforço da resiliência da cultura e dos setores económicos mais atingidos
pela presente crise pandémica, como sejam o turismo, o comércio e os serviços.
2.2 — A visão da Estratégia Portugal 2030 e a definição das suas agendas temáticas
Portugal está assim confrontado com a necessidade de responder a um conjunto de novos
desafios e tendências de transformação das economias e sociedades, nomeadamente o desafio
demográfico, das desigualdades, da digitalização e das alterações climáticas. A estes novos obje-
tivos junta-se ainda a necessidade de completar os esforços para continuar a combater problemas
estruturais antigos e ainda não resolvidos, como são os casos da qualificação dos Portugueses,
das múltiplas desigualdades e do desenvolvimento equilibrado do território.
A recente pandemia teve um impacto fortíssimo e veio igualmente revelar ou acentuar um
conjunto de fragilidades e de desafios, à escala nacional e global, a que urge dar resposta. Neste
processo de fazer face aos bloqueios estruturais e aos novos desafios, importa reforçar a resiliên-
cia da economia e sociedade portuguesas a choques, como o provocado pela doença COVID-19,
evitando, desde logo, que algumas consequências imediatas enfraqueçam os pilares fundamentais
dos nossos sistemas sociais, económicos e políticos.
Sem prejuízo das respostas imediatas de emergência e de estabilização ao contexto sanitário e
económico, no médio e longo prazos, as atenções devem centrar-se nos aspetos de natureza mais
estrutural ou que reclamem uma abordagem de recuperação e reforço da resiliência dos sistemas
económicos, sociais, territoriais e institucionais.
A resposta aos bloqueios, aos novos desafios e aos impactos da pandemia global exige
assim um novo ciclo de políticas estruturais, com uma ambição renovada, que promova a dupla
transição — climática e digital — e, ao mesmo tempo, reforce a resiliência, a coesão e a compe-
titividade da nossa economia, sociedade e território, e responda ao desafio demográfico, visando
garantir a transformação estrutural necessária e a convergência dos níveis de vida dos cidadãos
portugueses com os níveis médios verificados na UE.
É nesse contexto que é adotada a Estratégia Portugal 2030 como quadro de orientação geral
para a definição e implementação das políticas públicas estruturais na próxima década.
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Figura 4 — Agendas temáticas da Estratégia Portugal 2030 e a visão estratégica
“Visão estratégica para o plano de
Agenda Estratégica Portugal 2030 recuperação económica de Portugal
2020-2030”
1.1 Sustentabilidade demográfica
As Pessoas Primeiro: 1.2 Promoção da inclusão e luta Eixo 3 – O setor da saúde e o futuro
um melhor equilíbrio contra a exclusão
demográfico, maior 1.3 Resiliência do sistema de saúde
inclusão, menos 1.4 Combate às desigualdades e à
Eixo 4 - O Estado Social
desigualdade discriminação
Eixo 2 - Qualificação da população, transição digital,
Ciência e Tecnologia
Inovação, Digitalização 2.1 Promoção da sociedade do
e Qualificações como conhecimento
2.2 Inovação empresarial Eixo 5 - A reindustrialização do País
motores do
desenvolvimento 2.3 Qualificação dos recursos humanos
2.4 Qualificação das instituições Eixo 6 - A Reconversão Industrial
3.1 Descarbonizar a sociedade e
promover a transição energética
Transição climática e Eixo 7 - A transição Energética e a Eletrificação da
3.2 Tornar a economia circular
sustentabilidade dos Economia
3.3 Reduzir os riscos e valorizar os
recursos ativos ambientais
3.4 Agricultura e florestas Eixo 8 - Coesão do Território, Agricultura e Floresta
sustentáveis
3.5 Economia do mar sustentável
Eixo 1 - Rede de infraestruturas
Um país competitivo
externamente e coeso 4.1 Competitividade das redes
urbanas
internamente 4.2 Competitividade e coesão na Eixo 8 - Coesão do Território, Agricultura e Floresta
baixa densidade
4.3 Projeção da faixa atlântica Eixo 9 - Um Novo Paradigma para as Cidades e a
4.4 Inserção territorial mercado Mobilidade
ibérico
Eixo 10 - Cultura, Serviços, Comércio, Turismo
A Estratégia Portugal 2030 assume-se assim como a base estratégica para documentos de
natureza programática transversal, como são as Grandes Opções e o Programa Nacional de Re-
formas, bem como dos programas estratégicos de mobilização de fundos europeus (Acordo de
Parceria, PRR e o PEPAC) e os programas e planos setoriais que a venham a concretizar.
Assume-se como visão desta estratégia:
Recuperar a economia e proteger o emprego, e fazer da próxima década um período de re-
cuperação e convergência de Portugal com a UE, assegurando maior resiliência e coesão, social
e territorial.
Para prosseguir esta visão, a Estratégia Portugal 2030 integra quatro agendas temáticas:
• Agenda temática 1 — As pessoas primeiro: um melhor equilíbrio demográfico, maior inclusão,
menos desigualdade;
• Agenda temática 2 — Digitalização, inovação e qualificações como motores do desenvolvimento;
• Agenda temática 3 — Transição climática e sustentabilidade dos recursos;
• Agenda temática 4 — Um país competitivo externamente e coeso internamente.
A agenda temática 1 coloca as pessoas no centro das preocupações e pretende promover
uma sociedade mais inclusiva e menos desigual, respondendo ainda aos desafios da transição de-
mográfica e do envelhecimento. Estes desafios são tanto mais necessários face às consequências
socioeconómicas desencadeadas pelo surgimento da doença COVID-19 com reflexos no agudizar
dessas desigualdades nos públicos-alvo da presente agenda.
São assumidos como objetivos para esta agenda mitigar a perda populacional atualmente
projetada para 2030, prosseguindo a recuperação dos indicadores de natalidade e reforçando os
saldos migratórios, reduzir a incidência de fenómenos de exclusão, incluindo do desemprego de
longa duração e pobreza e os indicadores de desigualdade e de precariedade laboral nos adultos,
e especialmente nos jovens, convergindo para os níveis médios da UE.
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A agenda temática 2 enfrenta os bloqueios das qualificações e da competitividade e transformação
estrutural do tecido produtivo, respondendo também aos novos desafios tecnológicos e societais asso-
ciados à transição digital e à indústria 4.0, às novas dinâmicas de crescimento setorial pós-COVID, à
necessidade de contribuir para a autonomização e resiliência geoestratégica da UE e ao mesmo tempo
garantir a capacitação e modernização do Estado para promover a resposta a estes desafios.
Os objetivos para esta agenda são: o aumento da despesa total em investigação e desenvol-
vimento (I&D) para 3 % do produto interno bruto (PIB) em 2030; reduzir a percentagem de adultos,
incluindo jovens, em idade ativa sem o nível de ensino secundário; alcançar um nível de 60 % dos
jovens com 20 anos que frequentem o ensino superior, com 50 % dos graduados de educação
terciária na faixa etária dos 30-34 anos até 2030; alcançar um nível de liderança europeia de com-
petências digitais até 2030; aumentar a participação de adultos em formação ao longo da vida;
reforçar a autonomia e soberania produtiva da UE; aumentar as exportações de bens e serviços,
ambicionando-se atingir um volume de exportações equivalente a 50 % do PIB na segunda metade
desta década, com enfoque na performance da balança tecnológica; aumentar a resiliência financeira
e a digitalização das pequenas e médias empresas (PME); aproximar os níveis de investimento em
capital de risco à média da Europa, e reforçar a atração de investimento direto estrangeiro (IDE).
A agenda temática 3 está focada na transição climática e na sustentabilidade e uso eficiente
de recursos, promovendo a economia circular e respondendo ao desafio da transição energética
e à resiliência do território.
Assumem-se como objetivos para 2030 reduzir as emissões globais de gases com efeito de estufa
(GEE) em 45 % a 55 % e em 40 % no setor dos transportes face a 2005; aumentar para 47 % do peso das
energias renováveis no consumo final bruto de energia; reduzir em 35 % o consumo de energia primária,
e reduzir para metade a área ardida, de modo a aumentar a capacidade de sequestro do carbono.
Por último, a agenda temática 4 está focada na coesão territorial, visando promover um de-
senvolvimento harmonioso do conjunto do território nacional e, em especial, contribuir para reduzir
a disparidade entre os níveis de desenvolvimento das diversas regiões, em particular das regiões
mais desfavorecidas, num contexto de promoção de transições ecológicas e digitais com forte in-
cidência territorial e de superação dos impactos da pandemia e da crise económica nos territórios
mais afetados, em particular nos mais desfavorecidos.
O objetivo é promover o desenvolvimento harmonioso do território nacional, assegurando que
todas as regiões NUTS II convergem em PIB per capita com a média europeia.
Tendo por base as agendas temáticas da Estratégia Portugal 2030, são identificados, nos
capítulos seguintes, os objetivos prioritários e as lógicas de atuação ou vetores de mudança que
estruturam as intervenções que permitirão concretizar os objetivos estabelecidos.
As lógicas de atuação ou vetores de mudança apresentados não esgotam as áreas de interven-
ção pública nem correspondem necessariamente às prioridades globais dessa intervenção, sendo
sim aquelas que respondem aos principais desafios de caráter estrutural da economia, sociedade
e território que constituem o foco desta agenda.
Cada uma das agendas parte de um diagnóstico da situação e dos problemas existentes, pon-
dera as grandes tendências que condicionarão nas próximas décadas a evolução das economias,
das sociedades e dos territórios, em geral, e da economia, sociedade e território portugueses, em
particular, e consagra uma estratégia de intervenção para ultrapassar os bloqueios existentes e
criar condições para atingir os objetivos definidos identificando os domínios estratégicos e os eixos
de intervenção.
3 — As agendas temáticas da Estratégia Portugal 2030
3.1 — Agenda temática
As pessoas primeiro: Um melhor equilíbrio demográfico, maior inclusão, menos desigualdade
A primeira agenda temática visa garantir a sustentabilidade demográfica e uma sociedade
menos desigual e com elevados níveis de inclusão.
No domínio demográfico, as projeções mais recentes apontam para que, em 2070, Portugal
tenha apenas cerca de 8 milhões de habitantes — uma redução de 23 % da população residente face
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ao contexto atual —, o que, a confirmar-se, configura um dos maiores decréscimos populacionais
registados na Europa. Acresce que a redução deverá ser ainda mais acentuada na população em
idade ativa, que deverá sofrer um recuo na ordem dos 37 %, o que corresponde a uma perda líquida
de mais de 2,5 milhões de pessoas. A concretização destas projeções resultaria numa situação em
que Portugal seria o país europeu com maior peso dos «muito idosos» no conjunto da população,
com as pessoas acima dos 80 anos a representar 16,1 % da população.
Um dos fatores subjacente aos baixos níveis de natalidade, além das atuais condições para
o exercício da parentalidade, é a dificuldade de conciliação entre trabalho e vida familiar e pessoal
bem evidente durante a pandemia e nos indicadores «Balanço vida-trabalho» do índice de bem-estar
do Instituto Nacional de Estatística, I. P., que tem vindo a piorar desde 2012, ou nos indicadores
do Eurobarómetro, em que uma grande proporção dos respondentes diz não ter acesso a formas
flexíveis de trabalho na sua organização.
No mercado de trabalho, em consequência da crise pandémica, antecipa-se uma redução no
emprego de 3,9 % em 2020, após registar-se um crescimento de 0,8 % em 2019, e prevê-se um
aumento da taxa de desemprego, a qual deverá atingir 9,6 % até final do ano. Também se pers-
petiva a manutenção de níveis de taxa de desemprego jovem muito mais elevados do que o da
taxa de desemprego global (à semelhança do ocorrido em 2018: 20,3 % face a 7 % do conjunto
da população), em particular no caso dos menos qualificados, ou de incidência de contratos a
termo muito elevada nos jovens (64,5 % dos jovens trabalhadores por conta de outrem dos 15 aos
24 anos tinham em 2018 contratos não permanentes), o que condiciona as escolhas e os projetos
de vida das pessoas, nomeadamente no que respeita à parentalidade, resultando em idades mais
elevadas de saída de casa dos pais e de nascimento do primeiro filho, com impacto na natalidade
e fecundidade.
O fenómeno migratório, que em muitas situações permite compensar os movimentos naturais,
tem no período mais recente, com a profunda crise registada, contribuído para agravar o pano-
rama demográfico, com saldos migratórios muito negativos. Os anos mais recentes evidenciaram
alguma recuperação, com o registo em 2017 e 2018 de saldos migratórios positivos, mas ainda de
magnitude limitada, e de evolução incerta no atual contexto pandémico.
A conjugação dos saldos naturais e migratórios resultou num acelerado envelhecimento da
população portuguesa. Com efeito, as mais recentes projeções demográficas colocam Portugal
como sexto país mais envelhecido do mundo. De acordo com os dados de 2019, existem em Por-
tugal mais de 161,3 pessoas com mais de 65 anos por cada 100 jovens até aos 15 anos, e quase
34,2 pessoas com 65 e mais anos por cada 100 pessoas em idade ativa. Ao longo das últimas
décadas, Portugal viu a esperança média de vida da sua população aumentar consideravelmente,
de tal forma que hoje é superior à média europeia. No entanto, somos também um dos países com
menor número de anos vividos sem doença.
No domínio relativo aos riscos de exclusão social, há indicadores que exigem atenção das
políticas públicas.
Não obstante a melhoria revelada pelos indicadores referentes aos rendimentos e às condi-
ções de vida, com a redução do risco de pobreza ou exclusão social (atingiu 21,6 % da população
em 2018), do risco de pobreza monetária (17,3 %), da intensidade per capita da privação material
severa (5,6 %) ou das desigualdades na distribuição do rendimento, a situação social gerada pela
pandemia e a ausência de perspetivas a curto prazo na evolução das condições de vida e rendi-
mento irá, previsivelmente, agravar-se de forma significativa e afetar grupos sociais com grandes
vulnerabilidades, nomeadamente os idosos, as crianças e os desempregados. Esse agravamento
evidencia-se, por exemplo, na existência de segmentos da população que não têm condições para
seguir os conselhos de saúde pública no que respeita ao confinamento, privilegiar o teletrabalho,
evitar transportes públicos sobrelotados e, em caso de contaminação, garantir o necessário isola-
mento habitacional.
Os idosos viram mesmo o risco de pobreza agravar-se e as crianças continuam a ser o grupo
etário mais vulnerável. Os desempregados (45,7 % são pobres) e outros inativos (30,8 % são po-
bres) são também grupos que revelam uma grande vulnerabilidade.
Há depois outros grupos específicos, cujas características e percursos os colocam em situação
de maior vulnerabilidade a fenómenos de exclusão social. Por exemplo, as pessoas com deficiência
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ou incapacidade (PDCI) apresentam dificuldades de inserção no mercado de trabalho, o que tem
impacto no risco de pobreza e exclusão social. As vítimas de violência doméstica, na sua grande
maioria mulheres, bem como as vítimas de tráfico de seres humanos, viram aumentar a sua situa-
ção de vulnerabilidade familiar, social e económica durante e após a crise, sendo particularmente
afetadas pela perda de emprego e agudização dos processos de pobreza e exclusão social dos
seus agregados. Também, de uma forma geral, a população mais vulnerável apresenta défices de
competências profissionais, reflexo de percursos profissionais inexistentes ou pouco desenvolvidos
e por elevada rotatividade, que resultam em dificuldades de inserção no mercado de trabalho, o
que também agrava o risco de pobreza e exclusão social.
A pandemia veio também realçar a relevância da capacidade de resposta dos serviços de saúde
para garantir a acessibilidade aos cuidados de saúde, nomeadamente perante a necessidade de
conjugar a resposta à emergência com o normal funcionamento do sistema.
Também no acesso à habitação, as desigualdades são evidentes. Só no Levantamento Nacio-
nal de Necessidades de Realojamento Habitacional, concluído em 2018, foram sinalizadas pelos
municípios 25 762 famílias como estando em situação habitacional claramente insatisfatória. Aliás,
importa ter em consideração o papel que as debilidades no acesso à habitação desempenham quer
na produção das desigualdades quer na promoção de segregação territorial. No que se refere às
desigualdades, apesar da melhoria recente dos principais indicadores de desigualdade na distribui-
ção dos rendimentos, Portugal permanece, no contexto europeu, entre os países mais desiguais.
Persistem também níveis significativos de desigualdade entre mulheres e homens, que, sendo
estruturais à sociedade portuguesa, significaram também impactos específicos da crise pandémica
e cujas consequências importa analisar, desde a elevada desigualdade na divisão do trabalho de
cuidado e doméstico, aos significativos níveis de segregação de mulheres e homens por áreas de
estudo e setores de atividade/profissões, à persistente disparidade de rendimentos entre mulheres
e homens, à sub-representação na tomada de decisão e nos níveis elevados de violência doméstica
e de violência contra as mulheres, particularmente agravados na atual crise socioeconómica.
A magnitude dos impactos duradouros da atual crise pandémica nos desafios da presente
agenda dependerá, em grande medida, do sucesso das medidas de resposta imediata que permi-
tam evitar o aprofundamento dos fenómenos de exclusão e desigualdade.
Por último, apesar de um dos traços marcantes da riqueza cultural portuguesa advir da presença
de comunidades com diferentes origens, continuam a manifestar-se fenómenos de discriminação
contra as minorias, que traduzem uma maior vulnerabilidade em termos de integração no mercado
de trabalho e na sociedade.
A agenda das pessoas primeiro incorpora intervenções focadas em cinco domínios estratégicos:
• Sustentabilidade demográfica;
• Promoção da inclusão e luta contra a exclusão;
• Resiliência do sistema de saúde;
• Garantia de habitação condigna e acessível;
• Combate às desigualdades e à discriminação.
Estes domínios consubstanciam os objetivos de limitar as perdas demográficas, com recu-
peração dos saldos natural e migratório e de atenuar os efeitos do envelhecimento da população,
de reduzir a incidência de fenómenos de exclusão e discriminação, de aumentar a capacidade de
resposta do SNS e de reduzir os indicadores de desigualdade.
3.1.1 — Sustentabilidade demográfica
As intervenções desenvolvidas no quadro deste domínio estratégico visam atenuar o declínio
populacional e os efeitos do envelhecimento da população, promovendo a recuperação da natali-
dade e o aumento do saldo migratório, para assegurar a sustentabilidade demográfica e os recursos
necessários ao crescimento da economia.
O diagnóstico demográfico revela bem a dimensão dos desafios que Portugal enfrenta. O atual
desafio de sustentabilidade demográfica não só envolve uma mudança estrutural na sociedade
portuguesa com implicação nos níveis de qualidade de vida e coesão social mas também coloca
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em causa o potencial de desenvolvimento da economia, levantando entraves à criação de emprego
e pondo em risco a sustentabilidade do sistema de segurança social.
É fundamental inverter a pirâmide etária, tendo em conta o envelhecimento da população e a
tendência de redução da natalidade, para assegurar a sustentabilidade demográfica e os recursos
necessários ao crescimento da economia. Para isso é fundamental assegurar a recuperação dos
saldos natural e migratório.
Tais desígnios exigem a criação de condições favoráveis para que os cidadãos possam fazer,
nestes planos, escolhas individuais verdadeiramente livres, contribuindo para aumentos da natalidade
e da fecundidade, para a redução da taxa de emigração e para um envelhecimento ativo e saudável,
e para que o País se torne atrativo para que os cidadãos estrangeiros e cidadãos portugueses ou
lusodescendentes atualmente residentes fora de Portugal o escolham para trabalhar ou viver.
Neste sentido, para fazer face aos desafios demográficos, as políticas públicas serão mate-
rializadas nos seguintes eixos de intervenção:
• Promover a natalidade e melhorar as condições para o exercício da parentalidade;
• Facilitar a conciliação da vida profissional, pessoal e familiar;
• Promover a empregabilidade e a qualidade do emprego, em particular de jovens, criando
condições para o aumento da natalidade;
• Promover uma gestão ativa dos fluxos migratórios e promover a integração de imigrantes,
de modo a contribuir para a sustentabilidade demográfica e territorial;
• Promover o envelhecimento ativo.
Para a promoção da natalidade e melhoria das condições para o exercício da parentalidade
serão criadas condições que favorecem a natalidade, sendo apoiadas as famílias que pretendem
ter filhos sem o conseguir. Serão igualmente reforçados os apoios às famílias, estimulando em
particular a transição para o segundo filho, envolvendo intervenções ao nível do aumento susten-
tado das prestações sociais de apoio à família, em particular na transição para o segundo filho; e
da melhoria do acesso aos equipamentos sociais de apoio à família, num quadro de promoção da
qualidade da parentalidade.
Relativamente à conciliação da vida profissional, pessoal e familiar, a intervenção envolverá a
promoção de práticas efetivas de conciliação no quadro das relações laborais, em particular formas
de trabalho flexíveis e de teletrabalho a pedido do trabalhador, sistemas de gestão promotores da
conciliação que respondam às necessidades dos trabalhadores ao longo do ciclo de vida, a melhoria
do acesso das pessoas e famílias a serviços e equipamentos sociais de qualidade, a promoção
de uma divisão igual do trabalho de cuidado e doméstico entre mulheres e homens e o apoio aos
cuidadores informais de pessoas dependentes nos seus domicílios.
Para promover a empregabilidade e a qualidade do emprego, em particular dos jovens, criando
condições para o aumento da natalidade, as intervenções envolvem a melhoria das condições de
empregabilidade dos jovens, não descurando o robustecimento das suas qualificações, e o aper-
feiçoamento dos instrumentos de facilitação da transição entre o sistema de educação e formação
e o mercado de trabalho, nomeadamente os estágios profissionais e a promoção da qualidade do
emprego e combate à precariedade, em particular nos jovens, através do reforço dos estímulos à
contratação permanente, nomeadamente no quadro da política ativa de emprego, direcionando os
apoios à contratação para a criação de emprego sustentável, e no quadro da ação de fiscalização
do cumprimento das normas relativas ao uso abusivo de contratos de trabalho atípicos.
No que respeita à gestão ativa dos fluxos migratórios e integração dos migrantes, as interven-
ções têm por objetivo a atração e facilitação da entrada e fixação de novos residentes, a prevenção
e combate da imigração ilegal e das redes de criminalidade transfronteiriça, o reforço dos instru-
mentos orientados para o acolhimento e a integração de migrantes, através de iniciativas no âmbito
da formação, capacitação e cidadania destinadas aos migrantes e à sociedade de acolhimento,
a luta contra todas as formas de discriminação da população migrante, desenvolvendo ações de
formação, informação e sensibilização, nomeadamente dirigidas para os profissionais das áreas de
política social e para os profissionais das forças de segurança, o reforço da capacidade de atuação
dos serviços públicos com intervenção na esfera das migrações, o reforço dos mecanismos de
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reunificação familiar e o reforço do alinhamento dos fluxos migratórios com as necessidades do
mercado de trabalho.
Relativamente ao envelhecimento ativo, as intervenções são centradas na facilitação e incentivo
do prolongamento das trajetórias profissionais a partir dos 55 anos, através do desenvolvimento
de estratégias de intervenção precoce numa perspetiva integrada de preparação das transições
ao longo do ciclo de vida, da facilitação da transição entre a vida ativa e a reforma, atuando no
sentido de promover um melhor ajustamento dos perfis ocupacionais ao longo do ciclo de vida e
estimulando a transformação organizacional no contexto do envelhecimento do incentivo à interge-
racionalidade, da promoção da integração e participação das pessoas mais velhas, nomeadamente
por via do voluntariado e do apoio à participação dos idosos em atividades de ocupação dos tempos
livres, lazer, cultura, turismo social e desporto amador, do reforço da qualidade dos mecanismos
assistenciais para idosos, em qualquer fase do seu ciclo de vida e em qualquer que seja o seu
estado de autonomia e/ou dependência e da garantia da segurança das pessoas mais velhas, no-
meadamente por via do reforço do policiamento comunitário e de proximidade, destinado a apoiar
populações em situações mais vulneráveis, como os idosos, e garantir melhores acessibilidades
para as pessoas mais velhas.
A natureza estruturante do modelo social, há muito ancorada nos mecanismos de coopera-
ção entre o Estado e o setor social e solidário e da economia social continuará a ser valorizada
e reforçada, apostando em respostas sociais inovadoras e de proximidade, capazes de apoiar a
promoção da natalidade, a conciliação da vida familiar e profissional e a autonomia e o retardamento
da institucionalização das pessoas idosas. Será fundamental um trabalho em estreita parceria com
o setor social e solidário, para priorizar novas respostas inovadoras para o envelhecimento ativo,
com um contributo transversal de diversas áreas governativas. Por outro lado, e não obstante já
há muito ter o nosso país atingido o referencial europeu definido pelas «Metas de Barcelona», urge
continuar a apostar no aumento da cobertura e do número de respostas para a infância e juventude,
especialmente no que respeita a vagas em creche.
O setor social e solidário é um importante motor de coesão social nacional e regional que
disponibiliza aos cidadãos serviços de apoio e respostas sociais diferenciadas, contribuindo para
a criação de emprego, para a fixação das populações e fortalecimento da economia dos territó-
rios, em plena cooperação com o Estado para melhor servir os cidadãos, desde os primeiros até
aos últimos anos de vida. Neste domínio, a Estratégia Portugal 2030 terá dois grandes objetivos:
aumentar e reforçar a capacidade de resposta do setor social e solidário e da economia social e,
em simultâneo, melhorar a qualidade dessas mesmas respostas com um olhar inovador para as
necessidades futuras dos seus beneficiários.
3.1.2 — Promoção da inclusão e luta contra a exclusão
Este domínio estratégico visa promover uma sociedade coesa e mitigar os riscos de exclusão.
De facto, os indicadores relativos ao risco de pobreza e exclusão social revelam a necessidade
de intervenção sobre este domínio estratégico para mitigar a manifestação dos diversos riscos
sociais, com particular enfoque os decorrentes da situação de desemprego, promovendo uma
sociedade inclusiva e coesa. Também os impactos da pandemia e da profunda crise económica
associada, com o aumento da presença de situações de desemprego e subemprego, justificam
uma atenção reforçada a esta dimensão.
As intervenções incidirão fundamentalmente sobre os grupos com maiores riscos de exclusão
e com particular incidência nos mais vulneráveis.
Prosseguindo o objetivo identificado, as políticas públicas envolverão os seguintes eixos de
intervenção:
• Promover o emprego, a empregabilidade e a inclusão de todos, com uma especial atenção
aos grupos mais vulneráveis;
• Promover a criação do próprio emprego, de empresas e o empreendedorismo social;
• Promover a inclusão das PDCI;
• Promover o combate à pobreza e exclusão social.
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Estas intervenções têm como metas a redução da taxa de desemprego e, em particular, da
taxa de desemprego de longa e de muito longa duração e o aumento da taxa de cobertura das
prestações de desemprego, o reforço da proporção de PDCI em educação, formação ou empre-
gadas, erradicar as carências habitacionais graves, a redução das taxas de risco e de intensidade
de pobreza e a redução da taxa de privação material, tendo presente que tais indicadores têm
tendência a agravar-se em contextos de crise económica.
Relativamente à promoção do emprego, da empregabilidade e da inclusão, as intervenções
partem do reconhecimento de que existe uma relação simbiótica entre exclusão do mercado
de trabalho e risco de exclusão social, assim como uma maior exposição ao risco de pobreza e
exclusão social está tipicamente associada à exclusão do mercado de trabalho e à situação de
desemprego, fenómenos agravados com a atual crise de saúde pública. A resposta, com o duplo
cariz preventivo e reparador, exige medidas ativas de proteção e de promoção do emprego e de
prevenção do desemprego e do afastamento prolongado do mercado de trabalho, associadas a
uma melhoria da proteção dos desempregados, através do reforço da cobertura das prestações
de desemprego, em particular junto dos desempregados de longa e muito longa duração e dos
trabalhadores independentes, e da melhoria da articulação entre a atuação do serviço público de
emprego e dos serviços da segurança social e outros organismos com atuação na área da saúde
e da proteção social, bem como o reforço da capacitação dos serviços públicos de emprego e
restantes agentes do mercado de trabalho; a promoção da ativação e inclusão dos desemprega-
dos, em particular dos desempregados de longa e muito longa duração, dos menos qualificados e
de outros públicos vulneráveis afastados do mercado de trabalho; a promoção das competências
sociais, a empregabilidade e a integração no mercado de trabalho de outros grupos vulneráveis; a
promoção da cultura, do turismo, do lazer, da participação e da educação, enquanto instrumentos
de inclusão social.
O eixo de intervenção de promoção da criação do próprio emprego, de empresas e do em-
preendedorismo social constitui uma resposta relevante de ativação e de inclusão de desempre-
gados e/ou inativos e, portanto, de luta contra a exclusão, envolvendo o apoio à criação do próprio
emprego através de projetos empresariais de pequena dimensão e o reforço de competências na
área do empreendedorismo, por via de apoios à incubação vocacionados para estes públicos e
realidades, e à criação de mecanismos de financiamento e programas de capacitação; e o fomento
da criação de novos projetos das diferentes tipologias da economia social, estimulando um conjunto
extenso de atividades económicas com grande capilaridade, para reforçar o trabalho em rede de
base territorial e para potenciar condições favoráveis à implementação de respostas adequadas e
sustentáveis face aos desafios económicos, sociais, culturais, ambientais e territoriais. As respostas
da economia social, enquanto mecanismos de inclusão e luta contra a exclusão, devem ser ajus-
tadas às especificidades dos territórios, estando as intervenções desenvolvidas no âmbito deste
eixo articuladas com as abordagens territoriais, nomeadamente os territórios urbanos deprimidos
ou territórios de baixa densidade/interior, identificadas na agenda temática 4.
No que respeita à inclusão das PDCI, embora tenha sido significativo o avanço no sentido da
sua inclusão, há ainda um longo caminho a percorrer, configurando-se a necessidade de sensibilizar
cada vez mais o conjunto da sociedade, de reforçar e consolidar as medidas de política estruturantes,
assegurando nomeadamente as condições para a sua plena implementação, para dar resposta às
necessidades que se vão constituindo ou tornando mais evidentes. As intervenções a desenvolver
relativamente às PDCI envolvem a garantia de melhor qualidade no sistema de educação e forma-
ção profissional; a promoção da empregabilidade; a garantia e aprofundamento da inclusão social;
a melhoria dos seus rendimentos, nomeadamente por via do aprofundamento da prestação social
para a inclusão; a garantia de melhores acessibilidades; e a capacitação de organismos, públicos
estratégicos e a opinião pública para as questões da deficiência. Cruzando esta temática com a
das desigualdades, importa em todas as medidas anteriores valorizar as dimensões de luta contra
a discriminação e contra a violência doméstica e de género.
Relativamente à promoção do combate à pobreza e exclusão social, as intervenções envol-
vem o combate à pobreza e à privação, renovando e robustecendo em particular as abordagens
integradas territoriais de combate à pobreza (e. g. rede social), o combate à pobreza monetária,
por via do aumento dos rendimentos monetários mais baixos (considerando medidas ao nível do
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salário mínimo, complemento solidário para idosos, indexante de apoios sociais, pensões, rendi-
mento social de inserção), o combate à pobreza infantil, nomeadamente com o reforço do abono
de família até aos 6 anos, e a inclusão social de crianças e jovens provenientes de contextos mais
vulneráveis, a compensação dos obstáculos e garantia do acesso a bens e serviços básicos, com
a consolidação da política de mínimos sociais e o apoio à redução dos custos com bens e serviços
essenciais (como a eletricidade, transportes, habitação, etc.), mitigando por essa via a ligação entre
a pobreza monetária e a privação material.
3.1.3 — Resiliência do sistema de saúde
O SNS constitui-se como um dos pilares do Estado Social em Portugal assegurando que todos
os cidadãos têm acesso a serviços de saúde de qualidade independentemente da sua condição
económica e do local onde residam, bem como a equidade na distribuição dos recursos.
A existência de inúmeros determinantes da saúde que podem influenciar a saúde das pes-
soas e das comunidades pressupõe uma perspetiva holística da saúde. A temática dos ambientes
e estilos de vida saudáveis está fortemente associada aos fatores que mais influenciam a saúde:
fatores comportamentais e de estilo de vida, genética, nível socioeconómico, educação, fatores
geográficos ou ambientais, económicos, sociais e culturais, tipo e qualidade dos serviços de saúde
prestados.
As intervenções desenvolvidas no quadro deste domínio estratégico visam, a montante, pro-
mover a prevenção de doenças e de estilos de vida saudáveis e, a jusante, melhorar a resposta
do SNS às necessidades dos cidadãos (aumentando a qualidade da prestação de serviços e a
abrangência da provisão de serviços), mas também torná-lo mais resiliente, conjugando respostas
urgentes com o normal funcionamento do sistema, capaz de se adaptar às mudanças estruturais
(e. g. envelhecimento da população) e, em simultâneo, resistir às pressões conjunturais (e. g. atual
situação vivida com a pandemia).
Por conseguinte, é uma prioridade não só apostar fortemente na saúde preventiva, na literacia
em saúde e na proteção dos que não estão doentes mas também dotar o sistema de saúde de ins-
trumentos tendentes a incrementar a capacidade de responder melhor e de forma mais adequada
às necessidades e expectativas dos cidadãos, de se renovar e reorganizar e, simultaneamente,
de reduzir as desigualdades, promovendo a acessibilidade, a proximidade, a equidade e a univer-
salidade no acesso à saúde.
Para promover a concretização do objetivo serão prosseguidos os seguintes eixos de inter-
venção:
• Promover a prevenção de doenças e estilos de vida saudáveis;
• Garantir a universalidade do acesso e o aumento da resiliência e qualidade dos serviços de saúde.
A promoção da prevenção de doenças e estilos de vida saudáveis possibilita uma atitude
preventiva no que diz respeito às questões de saúde, de melhoria do bem-estar e da qualidade
de vida das pessoas ao longo do ciclo de vida. Envolve o reforço de estratégias intersetoriais que
promovem a saúde, através da minimização de fatores de risco (e. g. tabagismo, obesidade, ál-
cool) ou o incentivo à atividade física, fomentando o desporto e a formação desportiva em todo o
ciclo de vida, assim como a alimentação saudável, bem como uma maior aposta na educação em
saúde. Contempla, igualmente, a proteção da saúde dos que estão saudáveis, reduzindo a sua
exposição a riscos de saúde.
A obtenção de ganhos em saúde pela adoção de estilos de vida saudável, reduzindo os impac-
tos sociais e económicos das doenças, surge como uma oportunidade de influenciar positivamente
os cidadãos, sobretudo no que respeita à prevenção de doenças crónicas não transmissíveis,
designadamente através do aumento da cobertura de vacinação e rastreios, ou ao aumento da
esperança de vida saudável aos 65 anos.
Importa, também, aumentar os níveis de literacia em saúde e ter pessoas e comunidades
capacitadas para a autonomia e responsabilização pela sua própria saúde, que adotam comporta-
mentos protetores de saúde e de prevenção da doença, incluindo as decisões de consumo de bens
e serviços, o autocuidado, e por um papel mais interventivo no funcionamento do sistema de saúde.
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A capacitação dos cidadãos torna-os, assim, mais conscientes das ações promotoras de saúde,
bem como dos custos em que o sistema de saúde incorre pela utilização dos seus serviços.
Para garantir o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde é necessário que este
não fique condicionado por qualquer fator geográfico, de literacia, económico, tecnológico ou social.
A maior resiliência e qualidade do sistema de saúde está intimamente ligada à necessidade de
fortalecer a capacidade da saúde pública, dotando os serviços e os seus profissionais, nos diversos
níveis de intervenção (nacional, regional e local), dos meios técnicos, tecnológicos, de equipamento
e de sistema de informação adequados.
Neste âmbito, importa generalizar o acesso dos públicos vulneráveis aos cuidados de saúde
primários (apoio complementar nas áreas da psicologia e saúde mental, oftalmologia, obstetrícia,
pediatria, estomatologia e saúde oral, medicina física e de reabilitação e a meios complementares
de diagnóstico ou terapêutica), a cuidados específicos, mas também garantir a existência de uma
rede de equipamentos e serviços de qualidade e de proximidade, tendo em conta as desigualdades
regionais e as desvantagens decorrentes do isolamento geográfico com impactos no acesso aos
cuidados de saúde (assunto contemplado na quarta agenda temática).
Nesta linha de atuação, enquadra-se também a conclusão e melhoria da rede de equipamen-
tos, serviços e infraestruturas de qualidade capaz de responder atempadamente e com qualidade
à variação sazonal e episódica da procura de cuidados de saúde, adaptando-as às necessidades
dos territórios. Acresce a necessidade de consolidar a vigilância epidemiológica. Neste contexto,
devem ser desenvolvidas formas inovadoras de cuidados de saúde aproveitando as vantagens das
novas tecnologias (e. g. teleassistência e telemedicina).
Contribui ainda para este desígnio a melhoria da gestão dos diversos serviços de saúde
(cuidados primários, cuidados hospitalares e cuidados continuados), aperfeiçoando a articulação
entre os diferentes níveis de serviços, reforçando os meios técnicos, tecnológicos, equipamentos
e sistemas de informação e incrementando maior eficiência e rentabilidade na gestão de recursos
(e. g. gestão partilhada e afiliação entre unidades de saúde). A aposta na promoção de novas for-
mas de provisão de serviços irá assumir uma importância crescente, pelo que importa potenciar
as possibilidades da digitalização da saúde, dos processos, a melhoria da interoperabilidade, bem
como a desmaterialização da referenciação do utente aos cuidados de saúde, a otimização e par-
tilha dos recursos, a internalização dos cuidados e a qualidade assistencial, direcionados para os
ganhos em saúde.
3.1.4 — Garantia de habitação condigna e acessível
Segundo o Levantamento Nacional das Necessidades de Realojamento Habitacional reali-
zado pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, I. P., junto dos municípios em 2018,
existem em Portugal cerca de 26 000 famílias que vivem em condições claramente insatisfatórias,
nomeadamente em alojamentos degradados e outras construções precárias que não têm as con-
dições mínimas de habitabilidade e que necessitam de apoio, podendo, para tal, contar com uma
diversidade de respostas face à natureza das carências identificadas. A este número, por si só já
significativo, acrescem outras formas de precariedade e necessidades de públicos particularmente
vulneráveis (pessoas refugiadas, requerentes de asilo, imigrantes e agregados familiares itineran-
tes), abrangendo 141 mil pessoas e 150 famílias.
Por outro lado, Portugal destaca-se como um dos países onde se registou um elevado cresci-
mento dos preços da habitação, traduzindo-se em elevados níveis de esforço face aos rendimentos
disponíveis das famílias. A dificuldade no acesso à habitação não se encontra atualmente apenas nas
famílias com baixos rendimentos mas também para muitas famílias da classe média. Refira-se ainda
que a evolução mais recente dos valores residenciais nos mercados imobiliários condiciona fortemente
o acesso de habitação para as gerações mais novas, nomeadamente no acesso ao arrendamento.
É por isso necessário promover intervenções que garantam uma habitação condigna e aces-
sível, no quadro de uma nova geração de políticas de habitação:
• Promover uma nova oferta de habitação pública (habitação social e habitação a custos
acessíveis);
• Reabilitar o parque público de habitação existente.
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No primeiro objetivo, pretende-se dar resposta às famílias que vivem em situação de grave
carência habitacional e garantir o acesso à habitação aos que não têm resposta por via do mercado.
A prioridade, na habitação social, consubstancia-se na concessão de apoio financeiro, combinando
diferentes modalidades de financiamento, para a promoção de um leque diverso de soluções ha-
bitacionais ao universo dos destinatários. Já na promoção de habitação acessível, a prioridade
é a de reforçar o parque habitacional público, direcionando-o para a população de rendimentos
intermédios que não consegue aceder a uma habitação adequada no mercado, proporcionando
arrendamento a custos acessíveis.
De forma complementar, pretende-se melhorar as condições do parque habitacional público
através da reabilitação do património público que se encontra degradado e devoluto, reforçando a
oferta por forma a dar resposta às novas realidades sociais e demográficas e adequando o património
às necessidades de toda a população, nomeadamente as que têm mobilidade condicionada.
Refira-se, ainda, a necessidade de reforço da rede pública de resposta a necessidades ur-
gentes de alojamento, decorrentes de eventos inesperados ou imprevisíveis — como catástrofes
naturais, incêndios, pandemias, movimentos migratórios, pedidos de asilo, etc. —, ou situações de
risco eminente, como seja a violência doméstica, tráfico de seres humanos, risco de desalojamento
devido à precariedade e insegurança extrema do alojamento, desinstitucionalização, conflitos,
incumprimento, entre outros. A estas necessidades somam-se os pedidos de apoio ao alojamento
urgente junto da segurança social, decorrente de situações de desalojamento, efetivo ou eminente,
por razões de natureza diversa, para os quais o País tem de se preparar para poder aumentar a
sua resiliência e capacidade de mitigação dos mesmos.
Para responder a esta realidade, torna-se relevante criar a Bolsa Nacional de Alojamento
Urgente e Temporário, que visa dar resposta às situações de necessidade de alojamento de emer-
gência, a qual será efetivada tendo por base a reabilitação ou construção das unidades residen-
ciais, e poderá ser feita diretamente por entidades públicas ou por entidades do setor social com
competências nesta matéria, de forma individualizada ou em parceria.
Todas as intervenções desenvolvidas no âmbito deste eixo serão também articuladas com a
implementação da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem Abrigo,
tendo em conta a especial vulnerabilidade daquele grupo e de modo a encontrar as soluções ha-
bitacionais adequadas às especificidades deste grupo-alvo.
3.1.5 — Combate às desigualdades e à discriminação
Este domínio tem por objetivo promover uma redução sustentada das desigualdades, o combate
a todas as formas de discriminação e a concretização de uma igualdade substantiva na economia
e sociedade portuguesas.
De facto, o diagnóstico sobre a situação neste domínio estratégico identificou a persistência de
níveis de desigualdade significativos agora agravados e agudizados com a crise de saúde pública.
Continuam a registar-se, quer no mercado de trabalho quer na sociedade em geral, fenómenos de
discriminação que se traduzem, entre outros, em níveis diferenciados de rendimento, de partici-
pação, de oportunidades e de qualidade de vida que não são compagináveis com uma sociedade
moderna e digna.
Para promover a concretização do objetivo serão prosseguidos os seguintes eixos de intervenção:
• Promover a igualdade entre mulheres e homens, como elemento nuclear de uma sociedade digna;
• Combater todas as formas de discriminação e promover a igualdade substantiva;
• Promover uma redução sustentada e sustentável das desigualdades na distribuição de
rendimentos.
Uma estratégia nacional assente na igualdade e na não discriminação, como condição de
justiça e desenvolvimento, centraliza a promoção da igualdade entre mulheres e homens como eixo
nuclear de intervenção. Este eixo de intervenção envolve, entre outros, a promoção da igualdade
entre mulheres e homens em todas as esferas da governação, através do desenvolvimento de
ações concretas bem como através do mainstreaming de género em todas as áreas de políticas
pública, desde a educação, à cultura, ambiente, transição digital, ensino superior e investigação,
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economia, comunicação social, saúde, etc., incluindo pelo robustecimento dos orçamentos com
perspetiva de género. Este eixo envolve ainda a criação de condições para uma participação plena e
igualitária de mulheres e homens no mercado de trabalho, desde as questões da igualdade salarial,
à dessegregação das profissões, à representação equilibrada na tomada de decisão, à promoção
da conciliação da vida profissional, pessoal e familiar e à valorização e redistribuição do trabalho
de cuidado entre mulheres e homens.
A prevenção e o combate à violência contra as mulheres e à violência doméstica, incluindo as
práticas tradicionais nefastas, constituem eixo prioritário de atuação contra uma das formas mais
gravosas de discriminação contra as mulheres, através da consolidação e reforço dos mecanismos
de prevenção, de proteção, de investigação e punição, e de desenvolvimento de políticas integra-
das e que garantam a resiliência dos serviços de apoio, da intervenção e medidas de proteção, e
dos processos de autonomização das vítimas. Será também prosseguida e reforçada a política de
prevenção e combate ao tráfico de seres humanos. Neste âmbito, será dada ainda uma especial
atenção às condições de trabalho de mulheres migrantes e ao acesso à educação de meninas e
mulheres ciganas.
Por outro lado, será promovida a prevenção e o combate a todas as formas de discrimina-
ção, designadamente em razão de sexo, orientação sexual identidade e expressão de género,
características sexuais, origem racial e étnica, cor, nacionalidade, ascendência e território de
origem, deficiência, idade, incluindo a discriminação interseccional e múltipla. Em particular, serão
aprofundados e reforçados os instrumentos legais e institucionais de combate à discriminação, a
informação/sensibilização e a formação em matéria de literacia de direitos e de prevenção e com-
bate à discriminação, incluindo a formação de profissionais de setores estratégicos envolvidos na
prevenção e sanção de práticas discriminatórias, a informação/sensibilização e a formação em
matéria de literacia de direitos, bem como serão ainda aprofundados o conhecimento e os meca-
nismos de combate ao discurso de ódio nos media e nas redes sociais.
De forma complementar, importa continuar a promover o respeito pela diversidade e a defesa
dos direitos humanos, promovendo designadamente o relacionamento intercultural, reconhecimento
da relevância e contributo das migrações e da diversidade cultural e religiosa, uma cultura de escola
inclusiva e a difusão destes princípios e valores na sociedade portuguesa. Uma particular atenção
será dada ao combate do fenómeno do anticiganismo na sociedade portuguesa como manifestação
específica de discriminação étnico-racial.
Por último, no que respeita à promoção da redução sustentada e sustentável das desigualda-
des na distribuição de rendimentos, as intervenções envolvem reduzir as desigualdades salariais,
promovendo a redução dos leques salariais excessivos nas empresas, a negociação em sede de
concertação social de um acordo de médio prazo sobre salários e rendimentos e a valorização
das dinâmicas de responsabilidade social das instituições, empresas e grupos empresariais com
boas práticas de distribuição do rendimento, e o combate à excessiva concentração de riqueza, por
via da revisão do sistema de benefícios fiscais, do combate à fraude e à evasão e elisão fiscal e
contributiva e do aprofundamento da progressividade do imposto sobre o rendimento das pessoas
singulares.
3.2 — Agenda temática
Digitalização, inovação e qualificações como motores do desenvolvimento
A agenda temática 2 surge estruturada em torno do objetivo de promover uma recuperação
e um crescimento inteligente, sustentável e resiliente da economia portuguesa, alicerçado nas
qualificações, no conhecimento, na digitalização e na inovação, materializando uma estratégia de
especialização inteligente da economia portuguesa e das suas regiões que contribua também para
uma maior autonomia estratégica.
Apesar dos progressos registados, persiste ainda na economia portuguesa um perfil de espe-
cialização produtiva com presença significativa de atividades com menor intensidade em tecnologia
ou conhecimento, insuficiente presença de atividades transacionáveis e nos mercados digitais, e
uma estrutura empresarial marcada por empresas com pequena dimensão e com insuficiente ro-
bustez financeira. A este diagnóstico acresce o legado de baixas qualificações e competências dos
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recursos humanos, quer ao nível dos ativos, quadros e dirigentes, que limita a sua empregabilidade
e produtividade, e que condiciona o desenvolvimento de uma economia assente na inovação e
conhecimento.
A recente pandemia veio por outro lado revelar a incapacidade de a indústria europeia asse-
gurar o fornecimento de bens de primeira necessidade, expondo a fragilidade europeia e a sua
dependência, que constituem limitações relevantes à sua soberania. Em termos prospetivos, im-
porta explorar as oportunidades resultantes dos novos desafios tecnológicos e societais, como a
digitalização, a indústria 4.0, as alterações climáticas/economia circular ou a evolução demográfica
e o envelhecimento, bem como a potencial reconfiguração das cadeias globais de criação de valor
em setores de maior intensidade tecnológica e de conhecimento, que encerram potenciais muito
elevados de geração de valor e criação de emprego transversais a toda a economia, no sentido da
alteração do perfil setorial do tecido produtivo, e que como tal merecem ser devidamente enqua-
drados na estratégia de desenvolvimento.
No que respeita à base de conhecimento, apesar dos progressos registados nas últimas décadas
em termos de investimento em I&D — 1,36 % do PIB em 2018 face a 0,7 % em 2000 —, permane-
cem constrangimentos que se constituem como obstáculos à produção em maior escala de bens
e serviços tecnologicamente mais avançados e à progressão na cadeia de valor, nomeadamente
a dificuldade de articulação e cooperação entre os atores do Sistema Nacional de Investigação e
Inovação (a percentagem de empresas portuguesas envolvidas em projetos de cooperação com
instituições do ensino superior, centros de investigação ou outros grupos empresariais é ainda muito
reduzida face à média da UE) e a insuficiente valorização económica do potencial científico e tecno-
lógico existente [o número de pedidos de patentes por entidades portuguesas é substancialmente
inferior à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
(OCDE) — cerca de 10 % da média da OCDE em 2014]. Adicionalmente, a investigação realizada
em Portugal e o conhecimento gerado têm sido muito orientados para o aumento do stock de co-
nhecimento na comunidade científica, com um menor enfoque na inovação e no desenvolvimento de
soluções que envolvam as empresas e na criação de produtos que cheguem ao mercado, falhando
muitas vezes em responder aos desafios reais do tecido produtivo.
Noutra dimensão, não obstante os esforços já desenvolvidos, o relatório do Semestre Europeu
de 2019 refere que as PME portuguesas registam ainda um atraso em termos de digitalização e
que a proporção dos investimentos em tecnologia digital no PIB tem diminuído desde 2000.
Apesar de se verificar uma recuperação do investimento [Formação Bruta de Capital Fixo
(FBCF)] nos últimos anos (em 2019, representava 18,3 % do PIB — mais 3,5 pontos percentuais
do que em 2013), a taxa de investimento em relação ao PIB continua a ser das mais baixas da UE
(em 2018 situava-se em menos 3,6 p. p. que a média da Zona Euro). A recuperação resultou prin-
cipalmente do aumento do investimento do setor privado, em especial por parte das empresas não
financeiras, cuja taxa de investimento (FBCF sobre valor acrescentado bruto do respetivo setor)
passou de 19,4 %, em 2013, para 25,6 %, em 2019.
Por sua vez, no plano da captação de IDE, não obstante os resultados positivos alcançados
nos últimos anos, subsistem algumas debilidades que decorrem, sobretudo, da concentração dos
fluxos de IDE nos setores financeiro e imobiliário, existindo margem para uma maior diversificação
que permitirá assegurar um maior impacto no tecido produtivo nacional.
No que respeita aos desafios relacionados com o crescimento e escala das startups, Portugal
continua a apresentar níveis de sobrevivência das empresas menores em relação a outros países
europeus (em 2017, 56 % em Portugal face a 69 % na UE27). Uma das dificuldades frequentemente
apontada está relacionada com a dimensão de financiamento das empresas portuguesas e o tipo
de instrumentos disponibilizados. Neste sentido, é essencial prosseguir o esforço de maior envol-
vimento de diferentes entidades do ecossistema empreendedor como incubadoras, aceleradoras,
mas também de investidores institucionais e não institucionais, como business angels, capital de
risco, entre outros.
Não obstante o rápido crescimento das exportações a que se assistiu nos últimos anos
(o peso das exportações no PIB praticamente duplicou em duas décadas, atingindo 43,8 % em
2019 e o número de empresas presentes nos mercados externos alcançou o valor recorde de
59 mil empresas em 2016, 15,5 % do total), as exportações são ainda concentradas em produtos
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de menor intensidade tecnológica (a percentagem de exportações de média-alta e alta tecnologia
é substancialmente inferior à média da UE28, com as exportações nacionais de produtos de alta
tecnologia a corresponder, em 2018, a 4 % do total das exportações face à média de 17,9 % na
UE28). Também o peso do valor acrescentado doméstico incorporado nas exportações portuguesas
continua abaixo da área do euro, apesar de o diferencial ter vindo a diminuir. Entre 2005 e 2016,
o peso do valor acrescentado doméstico incorporado nas exportações diminuiu, tanto em Portugal
(de 73,6 % para 72 %) como na área do euro (de 85,8 % para 83,6 %), refletindo a crescente inte-
gração nas cadeias de valor globais e a maior incorporação de produtos intermédios importados.
Mantém-se, também, uma forte dependência dos destinos europeus, sobretudo Espanha, o que
pode representar uma fragilidade tendo em conta o grau de desenvolvimento destes mercados e
as consequentes perspetivas de crescimento.
De acordo com a edição de 2020 do European Innovation Scoreboard, Portugal apresentou
em 2019 um perfil de Inovador Forte, mantendo o 17.º lugar entre as 37 economias analisadas, e
o 12.º lugar nos 27 da UE. Apesar disso, as empresas portuguesas continuam a registar números
reduzidos de investigadores e doutorados nos quadros, diminutos valores de despesa em investi-
gação e desenvolvimento (apenas metade da despesa total realizada em Portugal) e baixo número
de pedidos para patentes. Tal traduz-se no menor peso das atividades de inovação e I&D dificulta
a modernização da estrutura produtiva da economia e o reforço da produtividade das empresas
portuguesas.
No domínio das competências das pessoas, não obstante os progressos significativos alcan-
çados nas últimas décadas, o facto é que Portugal continua a enfrentar grandes desafios na quali-
ficação dos seus ativos, sendo que cerca de 48 % dos ativos do País com idades compreendidas
entre os 25 e os 64 anos não completaram o ensino secundário e 22 % não completaram o 3.º ciclo
do ensino básico (CEB). Ao mesmo tempo, as taxas de participação de adultos em atividades de
aprendizagem ao longo da vida (ALV) ainda são muito baixas, situando-se na casa dos 10 %, sendo
que é precisamente entre as pessoas menos qualificadas que se observam as taxas mais baixas
de participação (apenas 4,2 % nas pessoas que não concluíram o ensino secundário). Por outro
lado, cerca de um quarto dos jovens continua a entrar no mercado de trabalho sem concluir o en-
sino secundário. Também ao nível do insucesso escolar, apesar de evoluções positivas recentes,
os indicadores precisam ainda de ser consolidados. Importa igualmente acompanhar impactos de
novos modelos de aprendizagem adotados no quadro da pandemia, nomeadamente o ensino à dis-
tância, na evolução destes indicadores. Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Alunos,
17 % dos estudantes portugueses com 15 anos não demonstram competências básicas de leitura
e de literacia científica, sendo que essa percentagem sobe para 24 % no caso das competências
matemáticas. Está também identificado que o número de repetições de ano no ensino básico é
ainda elevado (cerca de um terço dos jovens com 15 anos de idade repetiu pelo menos um ano).
A taxa média de retenção e desistência em 2017, no continente, fixou-se nos 5,4 %, com destaque
para os 15,1 % verificados no ensino secundário e os 8,4 % registados no 3.º ciclo.
É também ainda elevada (9,5 % em 2019) a proporção de jovens entre os 15 e os 34 anos
que não estão integrados no mercado de trabalho, nem em atividades de educação ou de forma-
ção profissional (jovens Not in Education, Employment, or Training), correspondendo em termos
absolutos a cerca de 210 mil jovens. Positivamente, tem-se vindo a registar uma redução progres-
siva do abandono escolar precoce, com uma taxa de jovens a fazer o ensino secundário por vias
profissionalizantes (de dupla certificação), que tem revelado nos últimos anos alguma estabilidade
em torno dos 40 %.
Dados apurados no âmbito do Relatório Único (2017) mostram que apenas 40 % dos trabalha-
dores participaram em ações de formação em contexto de trabalho, sendo que nas microempresas
(menos de cinco trabalhadores), a participação dos trabalhadores em formação desce para menos
de 13 % e, mesmo nas grandes empresas (mais de 500 trabalhadores), a taxa de participação em
formação não passa dos 66 %. A mesma fonte mostra que são os mais jovens os que mais têm
acesso a formação, com uma taxa de participação próxima dos 42 %, e que, pelo contrário, apenas
34 % dos trabalhadores dos 45 aos 64 anos recebem formação. Na mesma linha, são também
os trabalhadores mais qualificados os que mais beneficiam de formação em contexto de trabalho,
sendo que a taxa de participação dos trabalhadores em formação ultrapassa os 50 % nos níveis
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de escolaridade superiores, mas não passa dos 30 % nos trabalhadores que têm apenas o ensino
básico.
Dados publicados pela Comissão Europeia revelam que metade da população portuguesa não
possui as competências digitais básicas necessárias para utilizar eficazmente a Internet e 30 %
dos portugueses não tem quaisquer competências digitais, sendo que 18 % da população ativa
também não possui quaisquer competências digitais. É neste contexto que, enquanto a maioria
dos países da UE aumentou a quota de emprego especializado em tecnologias de informação e
comunicação (TIC), Portugal está entre os países com menor proporção de trabalhadores nessas
funções: de acordo com a Comissão Europeia, Portugal tinha, em 2017, 2,2 % dos trabalhadores
especializados em TIC, um valor que corresponde a um dos níveis mais baixos na UE e distante
da média UE28 (3,7 %).
Adicionalmente, importa destacar que, apesar de os dados estatísticos recentes demonstrarem
um aumento do número de estudantes inscritos no ensino superior, ainda só 4 em cada 10 jovens
de 20 anos frequentam o ensino superior.
A capacitação do Estado para desempenhar os seus múltiplos papéis de forma coerente, efi-
caz e eficiente é fundamental, nomeadamente num quadro em que as estruturas do Estado, seja
na administração pública central, regional ou local, estão envelhecidas (a idade média é de quase
48 anos) e carentes de capacidade técnica (se excetuarmos os setores da educação, ciência e
ensino superior e a saúde, menos de 50 % dos funcionários do Estado têm formação superior),
financeira e organizativa.
Através do lançamento do Programa SIMPLEX foi traçado um caminho de simplificação e
digitalização da Administração Pública, com o propósito de a tornar mais eficiente, facilitando a
vida dos cidadãos e a atividade das empresas. Um estudo sobre o impacto de 40 medidas dos
programas SIMPLEX+ 2017 e 2018 estimou poupanças monetárias de 267 M€, às quais se juntam
17,9 milhões de horas poupadas. Para reforçar a relação de confiança que os cidadãos mantêm com
o Estado, é essencial continuar a desenvolver e disponibilizar soluções e respostas que venham
ao encontro das suas necessidades e expectativas. Têm vindo a ser desenvolvidos instrumentos
que contribuem diretamente para melhorar a capacidade de resposta da Administração, procurando
estimular internamente a experimentação e o desenvolvimento de práticas inovadoras na prestação
de serviços. Atualmente, são já 697 espaços cidadãos e 59 lojas de cidadão, sendo fundamental
continuar a alargar e melhorar a rede de serviços públicos, garantindo uma prestação eficiente,
territorialmente abrangente e centrada no utilizador. Para garantir um ambiente empresarial mais
favorável, importa aumentar a capacidade de resposta dos serviços e reduzir outros obstáculos
administrativos que impendem sobre a atividade económica, melhorando as condições para o in-
vestimento, como forte contributo para estimular a competitividade da economia e a confiança nas
instituições. Considerando que o tecido empresarial português é maioritariamente constituído por
micro, pequenas e médias empresas, especialmente vulneráveis a grandes cargas burocráticas,
com particular evidência nos territórios de baixa densidade/interior, importa continuar a simplificar
os procedimentos administrativos, promovendo ganhos de eficiência e reduzindo os custos de
contexto. Por fim, o Estado deve estar atento às mudanças que resultam do processo de trans-
formação digital, integrando as soluções decorrentes do progresso tecnológico na estratégia de
modernização da Administração, proporcionando vantagens económicas e sociais para a sociedade
em geral. Neste contexto da transformação digital devem ser tidos em conta os desafios associa-
dos à cibersegurança, bem como o potencial para a provisão de serviços públicos associados à
supercomputação, à inteligência artificial e à big data.
Tendo em conta o diagnóstico efetuado, esta agenda visa promover de forma transversal, e
em todos os setores da economia, a inovação como o motor do desenvolvimento da economia e
sociedades portuguesas, promovendo um aumento da produtividade total dos fatores.
A agenda é estruturada em quatro domínios estratégicos fundamentais:
• Promoção da sociedade do conhecimento;
• Digitalização e inovação empresarial;
• Qualificação dos recursos humanos;
• Qualificação das instituições.
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Estes domínios consubstanciam uma agenda focada na melhoria das bases de conhecimento
da sociedade e economia portuguesas, no reforço do investimento empresarial e na promoção de
uma maior eficácia dos processos produtivos, designadamente através da digitalização e da incor-
poração de conhecimento, na capacitação dos recursos humanos, e na melhoria da qualidade das
instituições e do ambiente de negócios em geral, materializando uma estratégia de especialização
inteligente da economia portuguesa e das suas regiões.
3.2.1 — Promoção da sociedade do conhecimento
Neste domínio as intervenções visam o reforço da capacidade de produção e transferência de
conhecimento e a valorização social do papel do conhecimento enquanto fator de desenvolvimento
económico, de soberania e autonomia geoestratégica.
O domínio justifica-se pelo reconhecimento de que o conhecimento é, de forma crescente, a
base do desenvolvimento económico e é central para criar uma sociedade aberta à descoberta e
às mudanças de perspetiva.
É ainda importante garantir que o conhecimento gerado dá resposta às necessidades de mer-
cado, pois só assim será suscetível de gerar valor acrescentado para a economia.
Neste domínio serão prosseguidos três eixos de intervenção chave:
• Reforçar a base de conhecimento científico alinhado com as prioridades de desenvolvimento
da economia e sociedade portuguesas e europeias e a capacidade de resposta aos desafios sociais
e económicos, estimulando a capacidade de investigação das entidades não empresariais do Sis-
tema de Investigação e Inovação (Sistema de I&I), de modo a garantir a afirmação e especialização
de Portugal no contexto das prioridades definidas a nível europeu;
• Reforçar a capacidade de transferência de conhecimento das entidades não empresariais
do Sistema de I&I, promovendo a sua ligação mais estreita com o tecido económico;
• Promover a cultura enquanto fator de cidadania e de valorização da informação e do conhe-
cimento, da aprendizagem, da qualificação e da formação contínua, da criatividade e a inovação
como fatores-chave da competitividade.
Todos estes eixos se articulam de forma muito intensa com os do domínio estratégico da qua-
lificação dos recursos humanos, que constituem condição necessária ao sucesso das intervenções
neste domínio.
O aumento da despesa total em I&D para 3 % do PIB em 2030, com um terço em despesa
pública e dois terços em despesa privada constitui a principal meta a prosseguir, no quadro das
intervenções neste domínio. Para tal, deve ser promovido, de forma subsidiária e associado a outros
domínios desta agenda, o aumento do rácio de novos doutorados de três para quatro por 10 mil ha-
bitantes até 2030 (domínio da qualificação dos recursos humanos) e a criação de 25 000 empregos
qualificados em atividades de I&D nas empresas (domínio da inovação empresarial).
No que respeita ao reforço da base de conhecimento científico da economia e sociedade
portuguesas, pretende-se estimular a capacidade nacional em todas as áreas do conhecimento e
a sua internacionalização, juntamente com o emprego científico e o desenvolvimento de carreiras
académicas e científicas em Portugal, assim como o reforço das infraestruturas científicas, de forma
a garantir a melhoria progressiva das condições de atratividade dos sistemas de investigação e
inovação em Portugal quando comparados ao melhor nível de excelência europeu. Esta aposta na
I&D e no reforço do Sistema Nacional de Investigação e Inovação assegurará a base de conheci-
mento científico, incluindo em áreas alinhadas com as Estratégias de Investigação e Inovação para
Uma Especialização Inteligente e com a Agenda de Inovação para a Agricultura 2020-2030 («Terra
Futura»), e promoverá a sua orientação para as necessidades do setor produtivo e da sociedade
em geral, envolvendo a atração e promoção de recursos humanos altamente qualificados, refor-
çando o emprego científico e o desenvolvimento de carreiras académicas e científicas; a promoção
de programas temáticos de investigação e inovação que estimulem a especialização nacional no
contexto europeu; a capacitação e reforço das instituições (unidades I&D, laboratórios associados,
laboratórios do Estado, laboratórios colaborativos, polos da rede de inovação da agricultura e centros
de interface tecnológico) e das redes entre instituições; a qualificação das infraestruturas científicas
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e tecnológicas e estimulando a sua participação nas redes europeias de infraestruturas científicas
e tecnológicas de excelência; e a promoção da cultura científica e tecnológica, a comunicação do
conhecimento e dos resultados da atividade de I&D.
Relativamente ao reforço da capacidade de transferência de conhecimento das entidades não
empresariais do Sistema de I&I, a intervenção privilegia uma lógica de interação entre todos os
atores do Sistema de I&I, com especial enfoque nas entidades de investigação e de transferência
do conhecimento (entidades do ensino superior, laboratórios do Estado, centros de I&D públicos
e entidades de interface, como sejam os centros tecnológicos), e nas empresas, sensibilizando
o tecido empresarial para a importância da digitalização e da inovação e garantindo uma maior
aproximação aos centros de conhecimento da envolvente empresarial, para potenciar a valorização
económica dos resultados de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico (I&DT), designadamente
através da promoção e apoio à defesa da propriedade intelectual e industrial, e incrementar o nível
de transformação de resultados em projetos empresariais; reforçar a cooperação e transferência de
conhecimento e tecnologia entre as entidades não empresariais do Sistema de I&I e o tecido produ-
tivo, reforçando o seu papel na concretização da mudança estrutural do perfil de especialização da
economia portuguesa; e para reforçar a cooperação interempresarial e a dinamização de projetos
de I&DT entre empresas, sobretudo entre PME e não PME, potenciando o efeito multiplicador da
inovação e do conhecimento.
A Agenda de Inovação para a Agricultura 2020-2030 é um exemplo disso mesmo, que pretende
reforçar e consolidar o ecossistema de inovação no setor agroalimentar, através do incremento do
investimento e da consolidação das diversas infraestruturas de investigação aplicada, da formação
de recursos humanos, da capacitação das instituições, da conservação e valorização os recursos
genéticos endógenos (vegetais e animais) dos laboratórios especializados e de instalações-piloto
e de demonstração, de centros de interface e de entidades empresariais do setor agroalimentar e
florestal, mobilizando os recursos públicos e promovendo a cocriação de conhecimento e as par-
cerias para a inovação e para a competitividade e sustentabilidade do setor agroalimentar.
Quanto à promoção da cultura enquanto fator de cidadania e de valorização da informação e
do conhecimento, da aprendizagem, da qualificação e da formação contínua, da criatividade e a
inovação como fatores-chave da competitividade, a mesma deve assumir as suas múltiplas dimen-
sões. Nesse sentido, as intervenções envolverão a promoção da sustentabilidade e do potencial
económico da cultura, com a criação de rotas e itinerários culturais temáticos, a estruturação da
oferta turística de base histórico-cultural, a promoção do comércio de proximidade enquanto elemento
identitário de cada território, a dinamização do potencial económico dos espaços comerciais dos
equipamentos culturais, através da disponibilização de artigos baseados na qualidade dos acervos
museológicos, o desenvolvimento de projetos no domínio das indústrias culturais e criativas que
criem novas oportunidades de emprego/ autoemprego nos territórios a partir do património cultural
(material e imaterial), a criação de uma plataforma de contacto para promover a eficiência das
entidades do setor cultural e criativo, promovendo a cooperação e o intercâmbio entre empresas;
o reforço do conhecimento e desenvolvimento de uma cultura de inovação e competitividade, com
o desenvolvimento de novos produtos digitais e plataformas tecnológicas, criando instrumentos
que contribuam para a competitividade do setor da cultura e do património cultural; a promoção
da internacionalização da cultura portuguesa, com a exploração de novos mercados para a divul-
gação das obras e de autores portugueses e em língua portuguesa junto do público estrangeiro,
nomeadamente através do desenvolvimento de ferramentas digitais de promoção de obras e de
autores portugueses e língua portuguesa; e o aumento da qualificação no setor cultural e criativo,
por forma a aumentar o seu dinamismo, a capacidade de inovação e a sua competitividade, com
o reforço e desenvolvimento das artes por via da educação e capacitação.
3.2.2 — Digitalização e inovação empresarial
As intervenções neste domínio estratégico têm por objetivo incentivar a digitalização, inovação e
o investimento empresarial, sobretudo de natureza qualificada e estruturante, e apostar no aumento
das qualificações do capital humano, incluindo na gestão das empresas, como forma de promover
a mudança do perfil de especialização produtiva para atividades intensivas em conhecimento e
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com mais valor acrescentado, sobretudo em setores expostos à concorrência internacional, bem
como o reforço da autonomia e soberania produtiva europeia.
A mudança do perfil de especialização da economia nacional, que constitui o objetivo deste
domínio, estará alicerçada no desenvolvimento de setores emergentes e setores com maiores níveis
de intensidade de tecnologia e/ou conhecimento, tipicamente mais produtivos, bem como no aprovei-
tamento das dinâmicas de reconfiguração das cadeias de valor globais. Nesta transição de perfil de
especialização, importa ainda promover a modernização e resiliência dos setores mais tradicionais,
de baixa e média/baixa intensidade tecnológica, dotando-os de condições para ascenderem na cadeia
de valor. Esta mudança deverá ainda atender à convergência com os termos de transição para um
modelo de economia circular, bem como o cumprimento das metas de descarbonização e de transi-
ção energética. Importa também reforçar a capacidade de resposta do tecido produtivo em setores
estratégicos, contribuindo para o reforço da autonomia e soberania produtiva europeia.
A mudança deve ainda incluir uma abordagem integrada à digitalização, num reconhecimento
claro que a economia digital é já hoje uma força motriz do crescimento económico e da compe-
titividade das economias e a qual se reforçará no horizonte da próxima década. Neste domínio,
as intervenções pretendem prosseguir os esforços em curso para ultrapassar os bloqueios que
subsistem e que se traduzem numa menor intensidade inovadora do tecido empresarial por forma
a dar uma prioridade bastante mais vincada à criação de novas realidades empresariais ligadas a
posicionamentos mais qualificados em cadeias de valor internacionais e ao acesso a competências
dispersas numa lógica de colaboração em rede.
Esta prioridade é transversal a todos os setores produtivos e deverá estar focada principal-
mente nas micro, pequenas e médias empresas, da agricultura à indústria e desta aos serviços,
com particular foco nos serviços transacionáveis, e conjuga a qualificação do tecido existente com
a sua transformação estrutural por via da atração de novo investimento estruturante e da dinami-
zação do empreendedorismo.
Presente em todas as dimensões de intervenções, a digitalização apresenta-se como um driver
de transformação de natureza transversal, impondo-se estratégias que respondam aos novos desa-
fios, incorporando-os quer nos seus processos quer em novos produtos ou soluções a desenvolver
pelas empresas. A adaptação dos sistemas produtivos e tecnológicos e dos modelos de negócios
e de organização e de ligação aos clientes, bem como a inserção em cadeias de valor mais bem
posicionadas para o aproveitamento das oportunidades da digitalização, constituirão outros objetivos
relevantes a prosseguir no quadro da política de desenvolvimento empresarial.
Em linha com o Programa Internacionalizar 2030, consolidar a internacionalização da economia
portuguesa, aumentando a sua orientação para o exterior, diversificando os seus mercados e pro-
movendo a focalização em produtos com procuras mais dinâmicas e geradoras de valor compatíveis
com as competências e vantagens instaladas no País, é um dos objetivos fundamentais. Tal como
é também a criação das condições para melhorar a atratividade de Portugal enquanto destino para
o IDE e o apoio ao investimento empresarial dos vários setores em fatores de competitividade so-
fisticados centrados na capacidade de resposta rápida aos mercados com base na disponibilidade
de novas tecnologias suportadas na digitalização (Indústria 4.0) e no desenvolvimento de novos
produtos ou soluções para cadeias de valor. Também a melhoria das condições de financiamento
das PME, apostando na inovação dos instrumentos e com foco no objetivo da capitalização das
empresas pela via do reforço do capital próprio, é uma dimensão central.
Todas as dimensões anteriores devem ser conjugadas com a incorporação do conhecimento
na atividade económica, que assume um papel central na dupla vertente de cooperação/interface
com as instituições de I&I e o desenvolvimento de competências digitais internas e de I&D nas
empresas.
Visando prosseguir aqueles objetivos, os eixos de intervenção neste domínio são:
• Transformar estruturalmente a economia, com a catalisação de novo investimento estruturante,
em particular IDE, e a promoção de um ecossistema de empreendedorismo, que atraia investidores
nacionais e estrangeiros para investirem em startups e promovam e acelerem o seu crescimento,
em particular das orientadas para os mercados externos, assumindo-se como fatores de mudança
disruptiva da estrutura produtiva;
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• Promover o empreendedorismo e o espírito empresarial, nomeadamente facilitando o apoio
à exploração económica de novas ideias e incentivando a criação de novas empresas, inclusive
através de incubadoras, viveiros de empresas, entre outras;
• Qualificar o tecido empresarial e aumentar a sua dimensão média, promovendo posiciona-
mentos mais qualificados das empresas portuguesas em cadeias de valor internacionais, explo-
rando também as oportunidades decorrentes da digitalização, das alterações climáticas/economia
circular dos serviços dos ecossistemas e economia azul ou da evolução demográfica e do enve-
lhecimento;
• Aumentar a intensidade em conhecimento, através do reforço das condições de incorporação
de conhecimento e da digitalização na atividade produtiva, promovendo um sistema de inovação
aberto e a melhoria do quadro de absorção de conhecimento no tecido económico nacional, seja
reforçando os mecanismos de incorporação de I&D realizada pelas entidades não empresariais do
Sistema de I&I seja reforçando a criação de conhecimento no seio das empresas;
• Estimular a produção de bens e serviços por via do aproveitamento das oportunidades de
mercado criadas pela dinamização do investimento público e privado, sobretudo em novos domí-
nios emergentes (e. g. digitalização, transição energética, mobilidade, reabilitação), contribuindo
simultaneamente para a competitividade da produção nacional.
O reforço do peso do investimento empresarial no PIB, para valores em torno dos 14,5 % em
2030, o crescimento anual positivo de IDE até 2030, o aumento em 100 % face a 2017 do número
de novas empresas de base tecnológica, serviços intensivos em conhecimento e indústrias criati-
vas, o aumento de 25 % face a 2017 do número de empresas nacionais exportadoras, um rácio de
50 % das exportações no PIB até 2027 e de 53 % até 2030, um rácio das exportações nacionais
de alta tecnologia de 9 % das exportações totais de mercadorias até 2030, um aumento em 25 %
do número de patentes nacionais registadas até 2030 e a criação de 25 000 empregos qualificados
em atividades de I&D nas empresas são metas a atingir no quadro deste domínio.
Relativamente à transformação estrutural da economia, as intervenções ancoram-se na acele-
ração da transformação estrutural do perfil de especialização do tecido produtivo, nomeadamente
através da digitalização e da inovação, em especial com o reforço dos setores transacionáveis,
de maior valor acrescentado, intensidade tecnológica e digital e de conhecimento; da promoção
de um ecossistema de empreendedorismo, que atraia investidores nacionais e estrangeiros para
investirem em startups e promoverem e acelerarem o seu crescimento; e da atração de IDE es-
truturante, incluindo da diáspora, que acelere a transformação da economia, com especial foco na
indústria transformadora e nos setores transacionáveis, inovadores e disruptivos, que apostam na
sustentabilidade ou expostos à concorrência internacional.
No que se refere à promoção do empreendedorismo e do espírito empresarial, as intervenções
têm por objetivo a capacitação de empreendedores e o financiamento no arranque e na fase de
crescimento das empresas e envolvem a promoção do empreendedorismo qualificado e criativo
e a criação de novas empresas, especialmente de base tecnológica e digital ou intensivas em
conhecimento, a capacitação e expansão da rede de infraestruturas de suporte ao empreendedo-
rismo e à exploração económica de novas ideias, incluindo incubadoras, aceleradoras e viveiros
de empresas, zonas de teste e prototipagem, e acesso a ambientes naturais relevantes, de licença
zero e sem burocracia, o apoio à capacitação dos empreendedores e agentes que dinamizam a
rede de infraestruturas de suporte ao empreendedorismo e à exploração económica de novas
ideias, incluindo com recurso a plataformas de e-learning e Massive Open Online Courses (MOOC),
reforçando competências transversais em áreas críticas para o sucesso de qualquer negócio,
potenciando a taxa de sobrevivência das startups, a melhoria das condições de financiamento,
designadamente através da dinamização de instrumentos de dívida e capital, incluindo capital de
risco, aumentando o investimento, nacional e internacional, em projetos escaláveis, inovadores
e de projeção internacional, e a afirmação de Portugal como polo de referência e excelência no
empreendedorismo a nível mundial.
Quanto à qualificação e dimensionamento empresarial, as intervenções visam apostar na qua-
lificação empresarial e no estímulo de ganhos de escala como forma de aumentar a produtividade
das empresas nacionais e a competitividade da economia portuguesa, seja continuando a incenti-
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var dinâmicas de cooperação e concentração empresarial (i. e., ganhos de escala internamente),
seja prosseguindo a estratégia de internacionalização que tem vindo a ser seguida e que assenta
na tripla dimensão de fomento das exportações, fomento do investimento no exterior e atração
de IDE (i. e., ganhos de escala externamente), incluindo o aproveitamento de novas dinâmicas de
localização industrial, e envolve a promoção do investimento em fatores imateriais da competitivi-
dade e inovação, com vista à implementação de novos métodos e processos organizacionais, que
aproveitem, inter alia, as oportunidades decorrentes da digitalização, e o incremento da flexibili-
dade e da capacidade de resposta das empresas no mercado global; a promoção de dinâmicas
de clusterização e cooperação ativa entre empresas, associações e outros agentes, em particular
nos domínios prioritários das Estratégias de Investigação e Inovação para Uma Especialização
Inteligente, estimulando ganhos de escala e o reforço da competitividade empresarial por via de
processos de concentração empresarial e de eficiência coletiva, sobretudo em setores de elevado
nível de inovação e valor acrescentado; o reforço da orientação externa das empresas e o seu posi-
cionamento mais qualificado em cadeias de valor europeias e globais, nomeadamente dos setores
de alta e média-alta intensidade tecnológica de maior valor acrescentado, através do aumento da
intensidade exportadora e da incorporação de valor acrescentado nacional, do alargamento e di-
versificação da base exportadora, da diversificação dos mercados e dos canais de comercialização
das exportações. E, no que respeita às atividades de comércio e serviços de proximidade, que se
pugne pela qualificação e maior sofisticação dos seus modelos de negócios.
No que respeita ao aumento da intensidade em conhecimento, pretende-se continuar a estimular
a produção e incorporação de conhecimento científico e tecnológico pelas empresas, sobretudo
em PME e em domínios prioritários das Estratégias de Investigação e Inovação para Uma Espe-
cialização Inteligente, de modo a inverter a baixa intensidade de incorporação de investigação e
desenvolvimento no processo produtivo em Portugal. As intervenções continuarão a privilegiar as
dinâmicas de eficiência coletiva e de clusterização, permitindo às empresas nacionais ultrapassar
os obstáculos criados pela pequena dimensão e garantindo a definição de uma estratégia comum,
que assegure uma resposta integrada e articulada aos novos desafios que o País enfrenta num
contexto cada vez mais globalizado e envolverão a sensibilização do tecido empresarial, sobretudo
dos micro e pequenos empresários, para a importância da digitalização e inovação e do reforço do
investimento em I&DT; a melhoria do perfil de especialização da economia portuguesa, promovendo
atividades económicas intensivas em conhecimento e de elevado valor acrescentado, através do
aumento do investimento empresarial em I&DT, sobretudo nas PME, e do IDE, acima referido, e
que se focalize em atividades de I&D realizadas em território nacional, inserido numa lógica de
aproveitamento da proximidade aos mercados europeus; o reforço das capacidades internas de as
empresas produzirem e obterem conhecimento e desenvolverem atividades de I&D, digitalização
e inovação; e o aumento do valor económico da inovação, promovendo e apoiando a proteção da
propriedade industrial resultante da I&D empresarial.
No que se refere ao estímulo da produção de bens e serviços por via do aproveitamento das
oportunidades de mercado criadas pela dinamização do investimento público e privado, as inter-
venções envolvem o aumento da competitividade da oferta nacional e da incorporação nacional
em projetos estruturantes, promovendo a capacidade concorrencial dos atores locais, incluindo na
resposta a concursos públicos; e a promoção da transformação do tecido produtivo nacional e da
inovação por via do mercado público.
3.2.3 — Qualificações dos recursos humanos
As intervenções neste domínio serão centradas no reforço das qualificações e das competên-
cias dos Portugueses, contribuindo para a sua empregabilidade e para assegurar a disponibilidade
de recursos humanos com as qualificações e as bases de conhecimento necessárias ao processo
de desenvolvimento e transformação económica e social que se pretende promover.
Todas as intervenções visam colmatar um dos défices mais estruturais do nosso país, que nos
mantém afastados dos padrões europeus e que compromete os nossos níveis de produtividade e
crescimento económico e que reside justamente no plano das qualificações.
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Particular atenção será dada ao ajustamento entre a oferta e procura de qualificações, dando
também resposta às grandes tendências que se verificam nas economias em termos de digitaliza-
ção. Neste âmbito, importa aumentar a ligação entre o sistema de ensino e do ensino formativo e
o sistema empresarial, nomeadamente no âmbito da formação e das vias profissionalizantes.
No domínio estratégico das qualificações, serão prosseguidos os seguintes eixos de intervenção:
• Combater o abandono e insucesso escolar e desenvolver competências adequadas à socie-
dade atual e potenciadoras de transformações sociais;
• Alinhar a qualificação inicial dos jovens com as novas especializações económicas, dando
particular atenção às competências digitais, e à promoção da inserção profissional dos jovens;
• Promover a formação contínua e a ALV, incluindo a elevação dos níveis de qualificação e a
melhoria e reconversão de competências dos ativos, dando particular atenção às competências
digitais e às novas competências alinhadas com as novas profissões;
• Aumentar o número de jovens a frequentar o ensino superior e promover o sucesso/conclusão
deste nível de ensino (garantindo o aumento da taxa de progressão dos estudos até à aquisição
do respetivo diploma), com foco nas competências alinhadas com as novas especializações eco-
nómicas;
• Promover a formação avançada de recursos humanos em todas as áreas do conhecimento,
dando particular atenção aos domínios e áreas alinhados com novas especializações económicas
e as necessidades do mercado de trabalho, assim como às competências digitais.
A redução para menos de 5 % da taxa de abandono precoce da educação e formação, o au-
mento da proporção da população adulta que concluiu o ensino secundário para 70 % até 2030,
alcançar 55 % dos diplomados com o ensino secundário completo nas vias de dupla certificação,
garantir uma percentagem de 60 % dos jovens com 20 anos a frequentar o ensino superior em
2030, a aproximação da taxa de participação de adultos em ALV à média europeia e atingir 80 %
de indivíduos com competências digitais básicas ou mais do que básicas são metas a prosseguir
neste domínio.
No que se refere ao combate ao abandono e insucesso escolar e desenvolvimento de com-
petências adequadas à sociedade atual, as intervenções envolvem a garantia a todos os alunos
de condições equitativas de frequência escolar, aprendizagem e sucesso educativo, incluindo no
contexto de novos modelos de ensino e aprendizagem assentes nas novas tecnologias, o investi-
mento na melhoria da governança, qualidade, e eficiência do sistema de educação e formação, e o
aumento da participação das crianças e jovens em projetos educativos e atividades de desenvolvi-
mento de competências, adequadas à sociedade atual e potenciadoras de transformações sociais,
promovendo o reconhecimento de aprendizagens e o sucesso educativo.
Relativamente ao alinhamento da qualificação inicial dos jovens com as novas especializa-
ções económicas, dando particular atenção às competências digitais, e à promoção da inserção
profissional dos jovens, as intervenções envolvem o aumento do número de jovens diplomados
em ofertas educativas e formativas de dupla certificação de nível secundário e pós-secundário não
superior em áreas que correspondem a necessidades económicas, promovendo a sua empregabi-
lidade, e o investimento na melhoria da governança, qualidade e eficiência das ofertas educativas
e formativas de dupla certificação de nível secundário e pós-secundário não superior, de forma a
garantir o seu alinhamento com as necessidades reais do tecido produtivo, no âmbito do Sistema
Nacional de Qualificações (SNQ).
Quanto à promoção da formação contínua e da ALV, as intervenções envolvem a generalização
do ensino secundário enquanto patamar mínimo de qualificação, também da população adulta, inte-
grada numa lógica de promoção da ALV, a prevenção do desemprego tecnológico e a promoção do
envelhecimento ativo através da renovação de competências, nomeadamente digitais, ao longo da
vida, o aumento, sobretudo nas PME, da produtividade do trabalho através do reforço das compe-
tências de gestão e da qualificação dos trabalhadores, capacitando as empresas para prosseguirem
modelos de negócio mais avançados e estimulando a capacidade de adaptação à mudança dos
seus recursos humanos, a valorização das profissões dos diferentes setores da economia, com
particular atenção àqueles que revelam maior dinamismo e potencial de crescimento, através da
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generalização da formação contínua, assegurando a formação de recursos humanos que respondam
às necessidades de cada setor, nomeadamente no contexto da implementação das estratégias de
especialização inteligente, e a melhoria e atualização de competências de adultos ativos, através
da oferta de formações curtas de nível superior decorrente da criação e dinamização de escolas de
pós-graduação de âmbito multi-institucional, constituídas por consórcios de instituições de ensino
superior, instituições de I&D e de interface, empresas e Administração Pública. Adicionalmente,
importa ainda promover a elevação e a reconversão de competências dos ativos, com particular
foco nos desempregados, bem como a elevação das competências digitais entre estes públicos,
de modo a garantir a sua empregabilidade e a disponibilidade de competências alinhadas com as
novas profissões e as necessidades do mercado de trabalho.
Relativamente ao aumento do número de jovens a frequentar o ensino superior e à promoção
do sucesso/conclusão deste nível de ensino, as intervenções envolvem o aumento do número de
jovens a frequentar o ensino superior, através do reforço da ação social no ensino superior, incluindo
a discriminação positiva dos estudantes que pretendam frequentar o ensino superior em regiões do
País com menor procura e menor pressão demográfica, bem como através da construção, adapta-
ção e recuperação de residências para estudantes, por forma a potenciar a diminuição dos custos
de frequência, o reforço das ofertas de curta duração, incluindo oferta de ensino à distância, estes
últimos especialmente destinados a públicos adultos, e o apoio à atratividade da oferta de ensino
superior em Portugal para alunos estrangeiros.
No que respeita à promoção da formação avançada em todas as áreas do conhecimento,
dando particular atenção aos domínios e áreas alinhados com novas especializações económicas,
as necessidades do mercado de trabalho e o perfil de especialização dos territórios, assim como às
competências digitais, as intervenções envolverão o reforço da formação avançada a nível doutoral,
visando o reforço da capacidade de investigação e inovação e facilitando estratégias de especia-
lização no quadro europeu e em áreas críticas para as estratégias de especialização nacional e
regionais ou para estratégias de eficiência coletiva, designadamente para a política de clusters;
o desenvolvimento de competências digitais ao nível da formação superior, designadamente em
áreas emergentes e de manifesta necessidade ao nível do mercado de trabalho, e o apoio à inter-
nacionalização e à inserção em redes europeias de ensino superior inovadoras.
3.2.4 — Qualificação das instituições
As intervenções neste domínio estratégico visam promover a modernização, capacitação e
digitalização da Administração Pública e a simplificação administrativa com vista a reduzir os custos
de contexto, contribuindo para a melhoria do ambiente de negócios.
A mudança da Administração Pública, ao nível central e local, para melhorar, de forma sus-
tentada, a capacidade de responder às transformações sociais, ambientais, económicas e às
necessidades dos cidadãos em matéria de serviços públicos, só poderá ser alcançada através de
uma estratégia abrangente de modernização, inovação, capacitação institucional e formação da
Administração Pública. A capacitação dos dirigentes em gestão e liderança, a capacidade de atrair
e reter talento, o desenvolvimento de competências para o futuro dos trabalhadores públicos e o
desenvolvimento de uma cultura de inovação constituem os principais desafios a superar.
A necessidade de intervenção decorre da constatação de que as administrações públicas não
poderão deixar de acompanhar as tendências de transformação disruptiva nos modelos sociais e
de negócio potenciados pela Internet e pelas tecnologias digitais, beneficiando plenamente das
ferramentas digitais, para melhorar a forma como os cidadãos e as empresas se relacionam com o
Estado e o ambiente em que desenvolvem a sua atividade. Importa ainda aumentar a capacidade
de resposta dos serviços com vista à redução de obstáculos administrativos que impendem sobre
a atividade económica, melhorando as condições para o investimento.
Deste modo, neste domínio serão prosseguidos os seguintes eixos de intervenção:
• Modernizar, capacitar institucionalmente e formar a Administração Pública, explorando em
particular as vantagens associadas aos serviços públicos digitais e ao acesso às TIC e promovendo
ganhos de eficiência, a inovação nos modelos de gestão e a promoção da ética;
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• Simplificar os procedimentos administrativos, reduzir os custos de contexto e aproximar as
estruturas públicas, procurando garantir um ambiente mais favorável para o setor empresarial,
desenvolver a sua atividade e os cidadãos cumprirem as suas obrigações.
O reforço do número de serviços públicos destinados aos cidadãos e/ou empresas objeto de
desmaterialização de forma integrada, o aumento do número de espaços cidadãos, lojas de cida-
dão e espaços empresa são metas a prosseguir neste domínio e o aumento da abrangência dos
trabalhadores da Administração Pública envolvidos em medidas de capacitação para a inovação
e modernização.
Relativamente à modernização, capacitação institucional e formação da Administração Pública,
as intervenções envolvem a melhoria da eficiência da Administração Pública, fomentando a intero-
perabilidade entre serviços, incentivando a partilha e a reutilização da informação e promovendo
a transformação digital, a capacitação dos dirigentes da Administração Pública com competências
de liderança, de gestão do talento e de inovação, o desenvolvimento de competências para o fu-
turo, nomeadamente nas áreas da inovação, das TIC, da cibersegurança e em áreas emergentes,
como a inteligência artificial, os algoritmos, a ciência dos dados, a robótica e as novas formas de
organização do trabalho, incluindo o teletrabalho, o fomento do trabalho colaborativo na Adminis-
tração Pública, o reforço das atividades de planeamento, acompanhamento e avaliação das po-
líticas públicas, articulando as diversas políticas, atores e escalas territoriais, nomeadamente em
áreas particularmente relevantes para o reforço da resiliência económica e social, a promoção da
utilização de técnicas avançadas de inteligência artificial, supercomputação e ciência dos dados, o
reforço da capacidade de combate à corrupção, à fraude e aos conflitos de interesse e promover
a ética e a integridade, e a promoção da qualificação dos trabalhadores da Administração Pública
sem o ensino secundário completo.
No que respeita à simplificação administrativa e redução dos custos de contexto, as inter-
venções envolvem a promoção da racionalização dos procedimentos da Administração Pública,
através de ações de digitalização e desburocratização, eliminando etapas desnecessárias, visando
uma maior e mais eficiente interação com cidadãos e empresas, o desenvolvimento e aplicação
de tecnologias inovadoras para melhorar a interação dos cidadãos e empresas com os serviços, a
antecipação das necessidades dos cidadãos e empresas na sua relação com os serviços, adotando
práticas que incentivem uma melhor interação com a Administração Pública, a avaliação do impacto
dos regimes jurídicos que imponham obrigações às empresas, no sentido de identificar eventuais
custos de contexto que possam ser simplificados ou eliminados, e a modernização dos serviços
críticos para a competitividade, com destaque para o sistema judicial.
3.3 — Agenda temática
Transição climática e sustentabilidade dos recursos
Esta agenda tem como objetivo central promover uma utilização eficiente dos recursos, va-
lorizando a dimensão de sustentabilidade e potenciando todas as oportunidades associadas aos
mesmos em termos de geração de valor económico e de melhoria do desempenho ambiental, em
particular em termos da transição climática.
A sustentabilidade dos recursos a par da transição climática assume uma relevância central
numa estratégia de desenvolvimento de médio e longo prazos.
Portugal apresenta hoje níveis de intensidade carbónica elevados, desde logo como conse-
quência de uma elevada intensidade energética nos diferentes setores. Indústria e transportes
assumem parcelas elevadas das emissões de GEE, refletindo ineficiência do aparelho produtivo e
uma ainda elevada dependência de combustíveis fósseis. Nos serviços e na Administração Pública,
as oportunidades de economia de recursos por via da eficiência energética estão longe de estarem
esgotadas, assim como ao nível do setor residencial, onde a ineficiência energética comporta um
duplo ónus, ambiental e social. Mesmo no setor da energia, a posição relativamente favorável de
Portugal, no panorama europeu, no que se refere à produção de energia a partir de fontes renová-
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veis, pode ser reforçada, complementando o esforço de eficiência energética nos demais setores
e contribuindo para a redução da dependência energética do País.
No domínio dos recursos, o metabolismo em Portugal é lento, ou seja, a economia portuguesa
é uma economia tendencialmente acumuladora de materiais na medida em que extrai e importa
mais matérias-primas do que exporta produto acabado, acumulando materiais em stock, sobretudo
do tipo imobiliário (e. g. edifícios, infraestruturas). Se olharmos para a produtividade material (euro
gerado por quilograma de material consumido), Portugal não evoluiu tão favoravelmente como, por
exemplo, os seus parceiros Espanha e Irlanda — países que em 2005 estavam no mesmo patamar
de produtividade que o português. Em 2018, Portugal gerou € 1,11 de valor para a economia por
cada quilograma de material, ao passo que a média europeia se cifra nos € 2,04. Acrescente-se o
facto de que, segundo os indicadores de economia circular do Eurostat, Portugal apresenta uma taxa
de cobertura de matérias-primas por materiais recuperados de 2,1 % (média UE: 11,7 %), uma das
mais baixas da UE. Tal significa que Portugal necessita de ser mais eficaz ao nível da recirculação
das matérias-primas secundárias e subprodutos, também ao nível da produção industrial e atividade
económica. Esta baixa produtividade e eficiência conduz a impactes ambientais significativos, quer
em termos de emissões de GEE (e. g. associados ao transporte e produção) quer em termos de
qualidade de solo, ar e água (e. g. extração, uso de fertilizantes, impermeabilização do solo), para
além das perdas económicas associadas ao desperdício material ao longo de toda a cadeia de
valor e ciclo de vida dos produtos.
Noutra área, apesar dos múltiplos esforços, a recolha de resíduos urbanos em Portugal
concentra-se ainda na recolha indiferenciada (cerca de 80 % das recolhas). Para melhorar a quali-
dade dos materiais secundários, é importante que a diferenciação comece logo no ponto de geração
do resíduo, isto é, no cidadão. Enquanto a taxa de recolha diferenciada não aumentar (e tem-se
mantido entre 10 % e 20 % nos últimos 10 anos), será difícil garantir uma maior qualidade dos fluxos
de materiais que permita taxas de reciclagem e de circularidade mais elevadas. Logo, é evidente
que as principais necessidades infraestruturais terão de ser direcionadas para o reforço dos equi-
pamentos que dinamizem a recolha diferenciada (e. g. recolha seletiva porta-a-porta, biorresíduos,
embalagens, papel/cartão, vidro, têxteis, resíduos domésticos perigosos, monstros), reforçando os
pontos e centros de recolha de resíduos, disponibilizando soluções de reciclagem na origem para os
biorresíduos, na reconversão dos equipamentos de tratamento mecânico e tratamento mecânico e
biológico (phase out em 2027) e infraestruturas de valorização de resíduos orgânicos (e. g. centrais
de valorização orgânica com aproveitamento do biogás).
Encontram-se em desenvolvimento o Plano Nacional de Gestão de Resíduos (PNGR 2030),
o Plano de Resíduos Urbanos (PERSU 2030) e o Plano de Resíduos não Urbanos (PERNU 2030)
com o horizonte temporal 2030, bem como a Estratégia dos Biorresíduos, que definirão as medi-
das a desenvolver e investimentos necessários para a concretização dos objetivos setoriais, o que
poderá trazer novos desafios à presente estratégia.
Pretende-se dotar o País com infraestruturas de tratamento e valorização de lamas de estação
de tratamento de águas residuais (ETAR) que assegurem o aproveitamento deste recurso (que
é atualmente tratado na maioria dos casos como um resíduo) numa lógica de economia circular,
transformando-as num produto com potencial de utilização no mercado (compostagem), possibili-
tando ao mesmo tempo uma redução das emissões de CO2 associadas ao tratamento e ao transporte
de lamas e o incremento da produção de energia renovável nas instalações de hidrólise, sendo,
por isso, dois objetivos em linha com o previsto no RNC 2050 e no PNEC 2030. É nesta ótica que
estão a ser desenvolvidos a Estratégia Nacional para a Gestão de Lamas de ETAR e o Plano de
Ação das Lamas do Grupo Águas de Portugal, que visa ainda obter maior eficiência pela redução
de custos de gestão destes recursos.
A classificação do estado das massas de água nas oito regiões hidrográficas existentes em
Portugal continental é de 53 % das massas de água superficiais com estado «Bom e superior» e
cerca de 84 % das massas de águas subterrâneas com estado «Bom». As reservas hídricas su-
perficiais são principalmente determinadas pelo armazenamento de água disponível nas albufeiras,
localizadas nas principais bacias hidrográficas do País. A capacidade de regularização interanual
permite minimizar o impacto das secas meteorológicas, contudo, a persistência de baixa precipi-
tação em anos hidrológicos consecutivos pode conduzir a situações de conflitos no uso da água.
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A irregularidade na distribuição dos recursos hídricos em Portugal, em termos espaciais e temporais,
tem implicações diretas e indiretas no planeamento e gestão da água e está na base de situações
de escassez hídrica, assim como de eventos extremos, como secas e cheias. A diminuição da
disponibilidade de água em regime natural, por efeito das alterações climáticas, poderá vir a fazer-
-se sentir em quase todos os meses do ano. Esta diminuição generalizada, e não apenas a sua
concentração numa época húmida mais curta, ainda que acompanhada de fenómenos extremos
de alta pluviosidade num curto período temporal, coloca desafios muito particulares, devendo o
aumento da capacidade de armazenamento de água ser cuidadosamente avaliado numa dupla
perspetiva de modernização tecnológica do regadio com vista ao aumento da eficiência no uso do
recurso água e na avaliação do volume de afluências que estão na base do investimento de novas
infraestruturas. Encontram-se em desenvolvimento planos regionais de eficiência hídrica para as
regiões do Alentejo e Algarve (podendo naturalmente suceder-se outros), que serão fundamentais
para identificar novas prioridades para complementar a presente estratégia. Sendo a agricultura o
setor maior utilizador de água, cerca de 73 %, é sobre ele que recaem as maiores preocupações
relativas à escassez de água e às medidas de adaptação necessárias num contexto de alterações
climáticas. Neste contexto, assume especial importância a aposta crescente na inovação nas
práticas agrícolas de modo a melhorar a sustentabilidade da produção agroalimentar (incluindo
a produtividade hídrica), contribuindo para a redução de um dos principais défices da economia
nacional em bens essenciais para a população.
Os serviços públicos de abastecimento de água e de gestão de águas residuais e pluviais são
essenciais ao bem-estar dos cidadãos, à saúde pública e às atividades económicas, e constituem
atualmente uma das grandes prioridades da humanidade. Os recursos infraestruturais do ciclo
urbano da água revelam a existência de um vasto património construído para o qual importa asse-
gurar um consistente esforço na sua gestão, em termos de operação, manutenção e reabilitação
das infraestruturas, indispensável à prestação sustentável de um serviço de qualidade. A atempada
reabilitação de infraestruturas permite aumentar a fiabilidade do sistema e assegurar a continuidade
do serviço. Por fim, a aposta em inovação e desenvolvimento de novas soluções de dessalinização,
energética e economicamente eficientes, num país com o ativo de mar que tem Portugal, faz todo
o sentido face aos desafios da próxima década.
Existem, por outro lado, em Portugal situações de contaminação de solos, geograficamente
delimitadas, consequência de atividades industriais que entraram em declínio, encontrando-se as
respetivas instalações atualmente desativadas ou abandonadas, que comportam riscos para a
saúde pública, para o ambiente e/ou para a segurança de pessoas e bens. Trata-se de passivos
ambientais relativamente aos quais não é aplicável o princípio do poluidor-pagador, o princípio da
responsabilidade ou não é possível obrigar o responsável a suportar os custos da recuperação.
A revitalização e a recuperação de locais contaminados ou degradados classificados como passivos
ambientais comportam áreas essenciais de intervenção neste domínio, em particular as zonas de
antiga atividade industrial e as zonas mineiras e pedreiras abandonadas.
Noutra dimensão, o território de Portugal continental encontra-se sujeito a diversos perigos, de
origem natural ou tecnológica, associados às alterações climáticas e a outras dimensões da ação
humana, os quais, seja pela frequência da sua manifestação ou pela gravidade das suas conse-
quências, tornam necessário o incremento das ações de prevenção, preparação e resposta, em
ordem a reduzir o risco de catástrofes ou mitigar as suas consequências. Destaca-se, a este nível,
pelo potencial destrutivo, a forte exposição ao perigo de incêndios rurais de grandes dimensões,
colocando em perigo pessoas, equipamentos e bens, a que se somam à destruição da floresta e
dos bens e serviços por ela produzidos.
Por outro lado, as características dos solos agrícolas, as condições climatéricas, em parti-
cular a exposição solar e a pluviosidade, são elementos que colocam a agricultura portuguesa
em desvantagem nos mercados europeus onde concorremos. A grande dispersão a montante da
cadeia de valor alimentar gera desequilíbrios negociais, que se traduzem numa evolução negativa
dos preços agrícolas e, portanto, numa pressão negativa sobre o rendimento. Para além disso, o
número elevado de pequenas explorações com uma estrutura etária envelhecida e baixos níveis
de educação é outro elemento que limita o desenvolvimento agrícola.
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Noutro recurso, o mar, depois de um período em que este não assumiu um papel central nas
estratégias de desenvolvimento do País, maior atenção tem vindo a ser concedida ao mesmo,
tendo em conta as características únicas ao nível de biodiversidade marinha, dos recursos geoló-
gicos do solo e subsolo marinhos, da qualidade do pescado, das condições naturais para a prática
de atividades náuticas e o desenvolvimento do turismo náutico e turismo de desportos náuticos
(como, por exemplo, o surf), das redes internacionais de contactos e de parcerias, da sinergia de
várias atividades económicas, da forte dinâmica de criação de empresas de base tecnológica, do
aumento do comércio por via marítima, do aumento do consumo de pescado a nível mundial e da
procura de produtos marinhos, assim como da extensão da plataforma continental, para além das
dimensões associadas à localização geoestratégica de rotas de navegação mundiais, infraestruturas
portuárias dinâmicas e competitivas referenciadas na agenda 4.
Esta agenda será assim estruturada em cinco domínios estratégicos:
• Descarbonizar a sociedade e promover a transição energética;
• Tornar a economia circular;
• Reduzir os riscos e valorizar os ativos ambientais;
• Agricultura e florestas sustentáveis;
• Economia do mar sustentável.
Estes domínios materializam as várias dimensões em que importa atuar para garantir a
transição climática num quadro que, cumulativamente, permita combater e adaptar os impactes
consequentes das alterações climáticas, melhorar a qualidade do ambiente e assegurar a susten-
tabilidade no uso dos recursos.
3.3.1 — Descarbonizar a sociedade e promover a transição energética
Este domínio tem por objetivo promover uma importante redução de emissões para cumprir
o compromisso assumido por Portugal de atingir a neutralidade carbónica até 2050, enquanto
contributo para o Acordo de Paris.
Para cumprir o objetivo de neutralidade carbónica será necessária uma redução de emissões
superior a 85 %, em relação às emissões de 2005, e uma capacidade de sequestro de carbono de
12 milhões de toneladas, conforme identificado no Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050. É na
próxima década que deve ser colocado um maior esforço na redução de emissões de GEE. Pretende-
-se com todas as intervenções reduzir a dependência energética em cerca de 10 pontos percentuais.
Isso exige intervenções transversais nos vários setores da economia e sociedade portugue-
sas, com particular foco naqueles que mais contribuem para as emissões quer na produção quer
no consumo energético.
Nesse quadro, o PNEC 2030 estabelece entre os seus objetivos a «Promoção da mobilidade
sustentável», no contexto do qual o setor dos transportes e mobilidade deve alcançar uma redução
de 40 % das suas emissões, em relação a 2005, e atingir uma incorporação de renováveis de 20 %,
contribuindo de forma significativa para a redução dos consumos de energia.
Considerando que as emissões da indústria representaram em 2015 cerca de 19 % das emis-
sões nacionais, das quais 62 % associadas à queima de combustíveis fósseis e 38 % a emissões
de processo, a descarbonização da indústria é um passo fundamental para alcançar o objetivo da
neutralidade carbónica. Este é um setor particularmente regulado na medida em que está abran-
gido pelo comércio europeu de licenças de emissão de gases com efeitos de estufa, o principal
instrumento de descarbonização, que se aplica a 74 % das emissões da indústria nacional.
Pretende-se que o setor da energia seja aquele que mais contribua para a redução de emis-
sões na próxima década, assumindo a transição energética um papel especialmente relevante no
contexto da transição para uma sociedade descarbonizada.
As ações a prosseguir neste domínio envolvem a prossecução dos seguintes eixos de intervenção:
• Promover a mobilidade sustentável;
• Descarbonizar a indústria;
• Promover a transição e eficiência energética.
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A redução, no horizonte de 2030, de 45 % a 55 % dos GEE, de 35 % do consumo de energia
primária, das emissões de GEE no setor dos transportes em 40 % face a 2005, o aumento em 20 %
da quota de energia renovável no consumo final de energia no setor dos transportes e o aumento
para 47 % do peso das energias renováveis no consumo final bruto de energia são metas a atingir
neste domínio.
Relativamente à promoção da mobilidade sustentável, as intervenções pretendem acelerar a
mudança de paradigma neste setor, no sentido da sua descarbonização, com os combustíveis fósseis
tradicionais a serem progressivamente substituídos por eletricidade, biocombustíveis avançados ou
outros vetores energéticos de origem renovável, como o hidrogénio, e a aposta continuada no trans-
porte público, alterando os padrões de mobilidade dos Portugueses. Envolvem o reforço do sistema
de mobilidade em transporte público no território nacional, com a garantia de ofertas de transportes
públicos coletivos mais eficientes, atrativos e ambientalmente sustentáveis, com especial incidência
em zonas urbanas de maior densidade populacional, sem descurar funções flexíveis e adaptadas
aos territórios de baixa densidade/interior além de ter de responder igualmente a novas exigências
em termos de saúde pública, como se tornou patente durante a pandemia. Importa impulsionar a
promoção da descarbonização do setor de transportes, através da aquisição de material circulante
e do incentivo à introdução de energias limpas no setor dos transportes, a promoção de uma mo-
bilidade multimodal, ativa e sustentável, tirando partido de soluções inovadoras e inteligentes de
transporte e fomentando padrões de mobilidade ativa, partilhada, flexível, conectada e sustentável,
e a melhoria do planeamento da mobilidade, para contribuir para as estratégias de baixo carbono
e para o ordenamento do território e desenvolver ferramentas de monitorização.
No que respeita à descarbonização da indústria, as intervenções envolvem a promoção da
redução da intensidade carbónica da indústria, através da incorporação de processos e tecnologias
de baixo carbono, e o fomento do desenvolvimento de soluções inovadoras que contribuam para
este objetivo, a promoção da eficiência energética na indústria e a promoção da incorporação de
energias de fonte renovável no consumo final bruto de energia neste setor, com especial destaque
para o hidrogénio renovável associado a setores da indústria com maior intensidade carbónica.
Quanto à promoção da transição e eficiência energética, a Estratégia Portugal 2030 assenta
numa combinação de diversas opções de políticas e medidas bem como de opções tecnológicas,
procurando encontrar sinergias entre as várias opções. O caminho para uma economia neutra
em carbono exige uma ação conjunta em diversas áreas estratégicas, com prioridade à eficiência
energética, que contempla todos os setores da economia, incluindo o residencial e os serviços, ao
reforço da diversificação de fontes de energia, ao aumento da eletrificação, reforço e modernização
das infraestruturas, desenvolvimento das interligações, estabilidade do mercado e investimento,
reconfiguração e digitalização do mercado, incentivo à investigação e inovação, promoção de
processos, produtos e serviços de baixo carbono e melhores serviços energéticos e uma escolha
informada dos consumidores. A promoção da transição energética do setor obrigará necessariamente
também a equacionar um novo modelo para as redes de transporte e distribuição, que assentará
na procura de sinergias entre as várias opções, entre elas o reforço e modernização das infraes-
truturas e a reconfiguração e digitalização do mercado. O planeamento das redes de transporte e
de distribuição de eletricidade deve igualmente assegurar a existência de capacidade de receção
que dê resposta à procura, com níveis adequados de qualidade de serviço e de segurança, e o
seu desenvolvimento adequado e eficiente, no âmbito do mercado interno da eletricidade. Estas
intervenções envolverão o reforço da aposta nas energias renováveis e redução da dependência
energética do País, através da aceleração da produção de eletricidade a partir de fontes renováveis
de energia, incluindo o hidrogénio, da promoção da produção distribuída de energia a partir de
fontes renováveis e as comunidades de energia, do fomento do aproveitamento de outras fontes
de energia e dos sistemas de armazenamento e do incentivo da investigação, desenvolvimento
e inovação nos domínios da eficiência energética, energias renováveis, armazenamento e outros
combustíveis 100 % renováveis, e a ligação entre os organismos de investigação e as empresas
com vista à transferência de conhecimento para o sistema económico, a redução do consumo de
energia nos vários setores da economia, incluindo a renovação energética do edificado e a redu-
ção dos consumos no setor dos serviços, e o reforço das interligações e promoção de um sistema
energético resiliente e flexível.
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3.3.2 — Tornar a economia circular
Este domínio estratégico visa promover a transformação de um modelo económico linear para
um modelo económico circular, o que implica uma abordagem sistémica, que considere, por um
lado, a circularidade de materiais técnicos — associados ao processamento de matérias-primas
não renováveis e produtos — e, por outro, a circularidade de materiais biológicos — associados
aos ciclos de nutrientes, presentes em efluentes com materiais biológicos, sólidos ou líquidos.
Numa economia circular, conforme definida pela Comissão Europeia, o valor dos produtos,
materiais e outros recursos é mantido na economia pelo máximo tempo possível, melhorando a
sustentabilidade dos processos de produção e facilitando o consumo sustentável, reduzindo o
impacto ambiental e minimizando a produção de resíduos e a emissão de substâncias perigosas
em todas as fases do ciclo de vida.
A redução do consumo de matérias-primas por via da eficiência, mesmo que em percentagens
reduzidas, traduzir-se-á num aumento considerável do valor disponível nas empresas para o investi-
mento, criação de emprego e expansão da produção, melhorias da remuneração dos trabalhadores
e capitalização das empresas. Claramente, Portugal tem aqui um caminho ainda a percorrer, não
só do ponto de vista da produção e circulação de matérias-primas mas também do ponto de vista
de extração de valor do stock já disponível na economia.
A economia circular deve, por isso, abordar quatro áreas fundamentais enquanto visão sistémica:
a eficiência/eficácia dos ciclos técnicos; a regeneração dos sistemas naturais por circulação dos
nutrientes; o tratamento e gestão dos materiais no seu fim de vida, e os instrumentos financeiros e
de comunicação que modelam o contexto de modo a favorecer opções circulares. São estas quatro
dimensões que constituem as traves-mestras da atuação neste domínio.
Os eixos de intervenção neste domínio são os seguintes:
• Tornar a economia mais eficiente;
• Transformar resíduos em recursos;
• Tornar a economia regenerativa;
• Promover uma sociedade mais sustentável.
Atingir 20 % da extração doméstica de materiais até 2030, reduzir em 12 % a importação de
recursos até 2030 (em relação a 2013), reduzir para metade o desperdício alimentar per capita até
2030 e assegurar uma taxa de reciclagem (em relação ao total de resíduos) de 86 % são metas a
prosseguir no quadro deste domínio.
No que respeita à eficiência da economia, a solução passa por garantir que a economia é mais
eficiente (prevenção), mais produtiva (extrai mais valor do mesmo material) e que reutiliza os mate-
riais de que já dispõe (substituição). Para isso, as intervenções envolvem promover a eficiência de
recursos na indústria, comércio e serviços, reduzindo consumos, desperdício, emissões e custos,
com a redução do desperdício e da ineficiência no tecido empresarial e industrial nacional, sobretudo
em setores mais intensivos no uso de recursos (e. g. indústria transformadora, construção, agroali-
mentar); o aumento da produtividade da economia, valorizando os recursos em stock e diminuindo
o risco de acesso a recursos materiais, com a valorização dos produtos em stock, através da sua
identificação e de mecanismos que prolonguem o tempo de vida útil dos produtos, aumentando os
ciclos de valorização económica dos mesmos, gerando mais euros a partir do mesmo quilograma;
e o aumento da reintrodução de materiais recuperados nos processos produtivos, com o aumento
da taxa de circularidade da economia nacional, promovendo a substituição de matérias-primas por
materiais recuperados, quer por via de matérias-primas secundárias quer por via da promoção de
simbioses industriais, entre outras medidas.
Relativamente à transformação dos resíduos em recursos, há que dar resposta aos novos
desafios colocados pelas metas ambiciosas estabelecidas pela Comissão Europeia no âmbito do
novo Pacote de Economia Circular para serem cumpridas até 2035, quer numa perspetiva de re-
dução de emissões associadas ao setor (no caso dos resíduos urbanos, os mesmos representam
10 % das emissões a nível nacional) quer na perspetiva de uso eficiente dos recursos, em que se
destaca em particular a gestão de resíduos urbanos que terá de alcançar taxas de reciclagem de
50 % em 2022 e de 60 % em 2030. As intervenções a desenvolver nesta área envolverão a melhoria
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da qualidade dos materiais recuperados, atuando sobre a recolha diferenciada e processamento de
resíduos, a evolução de uma gestão de resíduos para uma gestão de recursos, com uma aposta
em tecnologias e modelos de negócio centrados numa colaboração estreita com produtores, e
em tecnologias de mapeamento, identificação e segregação dos componentes ou materiais, e o
reforço da educação ambiental e capacitação técnica, com uma estratégia de educação ambiental
orientada para a economia circular e uma gestão de resíduos mais eficaz.
Quanto à promoção da economia regenerativa, as intervenções são focadas na gestão eficiente
e produtiva do stock de ativos biológicos, assumindo particular relevância o uso produtivo e rege-
nerativo dos recursos água, solo e nutrientes, quer do ponto de vista de salvaguarda de serviços
ambientais, mas também da valorização do capital natural e do território do qual várias indústrias
dependem. Envolvem o fechar do ciclo de nutrientes, com a aposta no desenvolvimento de solu-
ções tecnológicas que permitam extrair nutrientes de fluxos orgânicos para produtos de alto valor
acrescentado, a construção do capital natural, com o desenvolvimento de soluções tecnológicas
que possibilitem a regeneração dos sistemas naturais e dos produtos que dele são extraídos, pro-
movendo a aceleração de soluções assentes na bioeconomia sustentável e circular, e a promoção
de simbioses industriais e uso em cascata de recursos, com a garantia da produtividade dos fluxos
residuais de base orgânica.
Por fim, no que se refere à promoção de uma sociedade mais sustentável, as intervenções
visam ativar mecanismos do lado da procura que possam mobilizar a sociedade para o caminho
da circularidade. E nesse contexto há três questões que se destacam: i) a utilização das compras
como ferramenta ativa de desenvolvimento e uso de produtos e serviços mais sustentáveis, para
além dos efeitos em termos de promoção da inovação já referenciados na agenda temática 2;
ii) uma informação clara e objetiva sobre os impactos associados a opções de consumo de pro-
dutos e serviços, e iii) a evolução dos instrumentos de política e políticas públicas no sentido de
o seu desenho, concretização e aplicação estarem orientados por princípios de sustentabilidade.
As intervenções neste domínio envolverão, neste quadro, a promoção das compras (grandes
compras privadas e compras públicas), como ferramenta modeladora de um mercado mais susten-
tável, o reconhecimento, promoção e informação sobre o desempenho de produtos e serviços em
matérias de sustentabilidade, com a promoção de sistemas de reconhecimento e de certificação
(p. e., etiquetas e rótulos) ambiental, de carbono e energéticos, já existentes e apoio à sua aplica-
ção, incluindo projetos-piloto, capacitação e informação, e o desenvolvimento de scoreboards de
avaliação da dimensão de sustentabilidade das políticas usadas na conceção e concretização de
políticas específicas para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda
2030 das Nações Unidas.
3.3.3 — Reduzir os riscos e valorizar os ativos ambientais
Este domínio tem por objetivo proteger os cidadãos de pressões e riscos ambientais com
impacto na saúde e na qualidade de vida e simultaneamente valorizar os ativos ambientais.
Para além da descarbonização e da mudança de paradigma de uma economia linear para uma
economia circular com maior eficiência no uso de recursos, existe um conjunto de outros ativos am-
bientais cuja gestão e valorização constituem um objetivo central para promover a sua adaptação,
reduzindo as vulnerabilidades e atingindo níveis de proteção do ambiente superiores aos atuais.
A ação a desenvolver neste domínio integra os seguintes eixos de intervenção:
• Gerir os recursos hídricos;
• Proteger e valorizar o Litoral;
• Melhorar a qualidade dos solos, do ar e do ambiente nas cidades;
• Conservar a natureza e a biodiversidade;
• Reduzir os riscos de catástrofes.
Cumprir as metas definidas para 2030 de emissões de SO2, NOx, PM10 e NH3 e de qualidade
do ar, garantir a melhoria da qualidade das massas de água superficiais e subterrâneas (assegu-
rando que 100 % das massas de água passa de qualidade «Inferior a Boa» a «Boa ou Superior»),
atingir um nível de 50 % de recuperação dos passivos ambientais industriais prioritários e de 89 %
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dos passivos mineiros/indústria extrativa prioritários, reduzir a extensão de costa em situação crítica
de erosão a 10 % e garantir que 50 % do território de áreas classificadas é abrangido por ações
de conservação e gestão de valores naturais são algumas das metas que serão prosseguidas no
quadro deste domínio.
No que respeita à gestão dos recursos hídricos, as intervenções têm por objetivo duas
dimensões: alcançar e manter o bom estado das massas de águas superficiais interiores, das
massas de água costeiras, das massas de água de transição e das massas de água subterrâ-
neas e, no ciclo urbano da água, obter acréscimos de eficiência, não apenas através da redu-
ção de perdas de água mas também da energia utilizada na respetiva produção e transporte.
Relativamente à primeira dimensão, as intervenções envolvem o assegurar do bom estado das
massas de água e as disponibilidades hídricas numa base sustentável para as populações, as
atividades económicas e os ecossistemas, por via da proteção e valorização dos recursos hídricos
e de um crescente parcimonioso uso do recurso e da promoção do seu uso circular (aumento
da reutilização da águas residuais tratadas), e a redução do risco e vulnerabilidade associados
aos eventos extremos — cheias e secas, por via da adaptação das regiões hidrográficas aos
fenómenos de seca e de inundações, com particular destaque para as regiões do Alentejo e do
Algarve. Quanto ao ciclo urbano da água, as intervenções envolvem a garantia da eficiência de
tratamento para melhorar a qualidade das massas de água, através de investimentos adicionais
para adaptação dos níveis de tratamento das infraestruturas existentes às alterações legislativas
previstas para curto e médio prazos (incluindo o tratamento/aproveitamento das águas pluviais),
a melhoria da eficiência e resiliência das infraestruturas, através do aumento dos níveis de rea-
bilitação, tendo por base boas práticas de gestão patrimonial de infraestruturas, a capacitação
e profissionalização das entidades gestoras e a melhoria no abastecimento público em redução
de perdas, a promoção da gestão eficiente de recursos (água, materiais e energia), garantindo a
descarbonização do setor por via da gestão e a valorização eficiente dos recursos disponíveis,
assegurando uma trajetória sustentável de redução das emissões de GEE, com impacto direto
na mitigação das alterações climáticas, resultando como principais benefícios o aumento da efi-
ciência energética nos processos de tratamento e recursos em energias renováveis, a diminuição
da energia consumida nos serviços de água e o desenvolvimento de uma sociedade resiliente
e de baixo carbono.
Quanto à proteção e valorização do Litoral, as intervenções de gestão da zona costeira,
plasmadas no Plano de Ação Litoral XXI, envolverão, no quadro do combate às alterações cli-
máticas, uma verdadeira gestão integrada e partilhada, com a adoção de uma abordagem ino-
vadora, responsável e sustentável, baseada no conhecimento, na compreensão da inter-relação
dos processos, na partilha de informação, na coordenação e cooperação entre entidades aos
diferentes níveis de atuação, e a prevenção e gestão dos riscos. Este desafio envolve a adoção
de estratégias de adaptação aos riscos (instalados e os que acrescem em cenário de alterações
climáticas) e reflete uma atitude antecipativa que comporta as estratégias de prevenção, prote-
ção, acomodação e retirada, a qual é desenvolvida de forma coerente e articulada aos diversos
níveis, através da aposta no reforço de conhecimentos técnicos e científicos especializados que
permitam uma compreensão mais rigorosa dos sistemas e fenómenos costeiros e que suporte o
processo de decisão, assim como monitorizar em tempo real os territórios costeiros mais vulne-
ráveis, a intervenção e qualificação dos recursos, com a concretização de ações que concorrem
para a preservação e valorização do património natural, paisagístico e histórico-cultural e para
a qualificação e ordenamento das praias marítimas e das zonas adjacentes ao domínio público
hídrico. Na dimensão de valorização económica do Litoral, as intervenções envolverão o potenciar
da competitividade da orla costeira, com a criação de condições favoráveis ao acolhimento e ao
desenvolvimento sustentável de atividades económicas ligadas aos territórios costeiros para a
geração de riqueza nacional.
Quanto à melhoria da qualidade dos solos, do ar e do ambiente nas cidades, as intervenções
têm por objetivo atingir níveis de proteção do ambiente superiores aos atuais, e, no que se refere
especificamente à redução dos passivos ambientais, a revitalização dos territórios degradados de
antigas zonas industriais, mineiras e pedreiras abandonadas e a prevenção de risco de contami-
nação de solos, proporcionando a melhoria da saúde pública e do ambiente. Envolverão o fomento
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da melhoria da qualidade do ar e redução das emissões de poluentes atmosféricos, assegurando
o cumprimento dos tetos de emissão atmosférica em 2030, a concretização dos instrumentos de
gestão do ruído ambiente, de forma a aprofundar o conhecimento e a reduzir o número de pessoas
expostas a ruído ambiente, e o aprofundamento do conhecimento, gestão e prevenção dos riscos
ambientais, reduzindo as pressões sobre o ambiente, incluindo num quadro de alterações climáticas,
através da caracterização dos riscos e das vulnerabilidades e estabelecimento de ferramentas de
apoio à decisão, bem como a promoção da articulação e partilha de informação entre os diferentes
agentes envolvidos numa ótica de prevenção dos riscos potenciados pelas alterações climáticas e
não apenas de simples resposta a emergências. Relativamente à redução dos passivos ambientais,
as medidas assentam na prevenção da contaminação, na revitalização de áreas contaminadas, na
monitorização dos solos e das águas superficiais e subterrâneas, bem como na proteção ambiental
e da saúde pública e envolvem a remediação e recuperação ambiental, reabilitação e regeneração
de locais contaminados de antigas zonas industriais, mineiras e pedreiras, e a adoção de medidas
destinadas a melhorar o ambiente.
No que respeita à conservação da natureza e da biodiversidade, as intervenções a desenvol-
ver decorrem do reconhecimento de que a biodiversidade e a conservação da natureza desempe-
nham um papel crucial, em termos de causa-efeito e em paralelo com os processos de mitigação
e adaptação às alterações climáticas. As áreas protegidas são hoje ativos estratégicos, em que,
em maior ou menor grau, a presença das atividades humanas é essencial para manter os valores
que as caracterizam e que estão diretamente relacionadas com a melhoria do estado de conser-
vação do património e do capital natural. Nestes territórios é fundamental a promoção de ações
de conservação, recuperação e gestão ativa de espécies e habitats e de proteção do património
geológico, nomeadamente através da redução de pressões e ameaças específicas que sobre eles
atuam, tendo em vista prevenir, travar e, quando possível, reduzir a deterioração do seu estado
de conservação, melhorando-o quando necessário. Será também dada primazia à implementação
do modelo de cogestão das áreas protegidas, assumido como uma estratégia de uma «gestão
ativa de proximidade» destes territórios, promovendo uma governança participativa, colaborativa
e articulada, envolvendo as autarquias, as instituições de ensino superior e outras entidades locais
empenhadas na conservação dos valores naturais presentes. As intervenções a fomentar envol-
verão ainda a promoção do reconhecimento do valor do património natural e da sua remuneração,
adotando uma estratégia que vise o mapeamento e quantificação dos ecossistemas existentes em
Portugal e dos serviços prestados mais relevantes, bem como uma avaliação do seu estado de
conservação e levando a cabo uma valoração efetiva desses mesmos serviços. Por último, será
fomentada a apropriação dos valores naturais e da biodiversidade pela sociedade, sustentando
essa apropriação ao nível da importância do desígnio da biodiversidade e da conservação da na-
tureza, com destaque para a necessidade de concretizar a integração desta matéria nas diferentes
políticas e práticas setoriais.
Por último, relativamente à redução dos riscos de catástrofes, as intervenções envolvem o
fortalecimento da governança na gestão de riscos até 2030, através do reforço da cooperação
internacional no âmbito da prevenção e preparação e da implementação de plataformas para a
redução do risco de catástrofes. da melhoria até 2030 do conhecimento técnico e científico sobre
os riscos existentes, através do desenvolvimento de simuladores do impacto de catástrofes e da
criação de bases de dados de registo de danos de catástrofes. do estabelecimento e implemen-
tação até 2030 de estratégias orientadas para a redução de riscos, através da operacionalização
de projetos de prevenção estrutural contra incêndios e de estratégias municipais para a redução
do risco de catástrofes, da melhoria até 2030 da preparação face à ocorrência dos principais ris-
cos que afetam o território, através da implementação de programa de formação dos agentes de
proteção civil e do incremento de sistemas de apoio à decisão operacional, do reforço até 2030
da informação aos cidadãos no âmbito da formação e autoproteção face aos riscos, através da
implementação de sistemas de aviso à população e do fomento da educação para o risco junto da
comunidade escolar, e da melhoria até 2030 da capacidade de resposta operacional do sistema,
através da modernização dos equipamentos e infraestruturas dos agentes de proteção civil e da
aquisição de frota de meios aéreos de combate aos incêndios.
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3.3.4 — Agricultura e florestas sustentáveis
As intervenções neste domínio visam potenciar o papel do setor da agricultura e das florestas,
bem como do mundo rural no seu todo, na sustentabilidade e valorização dos recursos, na fixação
das populações e no combate à desertificação.
A intervenção decorre do reconhecimento do impacte ambiental e energético, no combate
às alterações climáticas e na preservação da biodiversidade, para além do impacto económico,
traduzido no forte peso nas exportações destes setores.
No que respeita especificamente às florestas, elas representam em Portugal uma contribuição
para o bem-estar público muito superior à registada noutros países, sendo que o elevado valor
económico total da floresta decorre não só da sua realização comercial mas também dos serviços
ambientais e sociais que presta. A par da elevada produtividade e da integração vertical, o setor
florestal é também positivamente atípico em relação ao de muitos outros países pela diversificação
da atividade económica que apresenta pois, para além dos produtos madeireiros baseados nas duas
espécies dominantes na produção lenhosa e atividade corticeira, o setor florestal tem outros polos
economicamente ativos a uma escala local, associados à caça, pesca e pastorícia, à produção de
biomassa para energia, de frutos e sementes ou de outros materiais vegetais.
Não obstante, esta importância e potencial das florestas, em parte significativa dos espaços
florestais, definidos no PNPOT como «territórios de floresta a valorizar», as características físicas,
como o relevo ou solos pobres, o acentuado despovoamento e envelhecimento da população, e
consequente abandono do modelo agrossilvopastoril, a par de uma extrema fragmentação das
propriedades, determinam um quadro marcado por extensas áreas florestais de monocultura, a sua
maioria não geridas, que, em presença de condições atmosféricas adversas, aliadas ao fenómeno
das alterações climáticas, alimenta incêndios rurais cada vez mais violentos e de complexidade
crescente.
Estes condicionalismos estruturais — económicos, ambientais e sociais — requerem uma
reforma ao nível da paisagem assente em abordagens integradas, que promovam a reconversão
e gestão de espaços florestais, agrícolas e silvopastoris, a uma escala que permita reduzir a fre-
quência e intensidade dos incêndios rurais e com impacto significativo e efeitos de longo prazo ao
nível do crescimento sustentável e da valorização e coesão territorial.
A agricultura, enquanto ramo da atividade económica e elemento estruturante da paisagem e
contributo preponderante de diversidade, tem características únicas que interagem com o ambiente,
o clima, os recursos naturais, a paisagem, o território, a saúde e os outros setores da economia
(a indústria, o comércio, a restauração, o turismo), assim como com os consumidores, e desem-
penha, entre outras importantes funções que devem ser estimuladas, a de produção de alimentos,
de forma a potenciar as exportação e a substituição de importações dos bens alimentares, um fator
estratégico para o País.
Será assim implementada uma estratégia integrada com vista a potenciar todos os efeitos
referidos, designadamente através da prossecução dos seguintes eixos de intervenção:
• Promover o potencial económico da agricultura e seu contributo para a sustentabilidade do
território;
• Promover a gestão sustentável das florestas e seu contributo para a sustentabilidade do
território;
• Utilizar eficientemente os recursos nos setores agrícola, alimentar e florestal;
• Proteger os ecossistemas e a biodiversidade.
O aumento da percentagem de terras florestais sob compromisso de gestão para promover
a proteção e a gestão das florestas, a redução da erosão do solo (reduzindo a percentagem de
terras com um nível de erosão do solo de moderado a grave em terras agrícolas), a redução da
pressão sobre os recursos hídricos (do índice de escassez WEI+) e a preservação dos habitats e
das espécies (aumentando a percentagem de terras agrícolas sob compromisso de gestão de apoio
à conservação e à restauração da biodiversidade) são algumas das metas que serão prosseguidas
no âmbito deste domínio.
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No que respeita à promoção do potencial económico da agricultura e do seu contributo para
a sustentabilidade do território, as intervenções visam, de forma articulada com as intervenções
contempladas no domínio da competitividade e coesão da baixa densidade da agenda temática 4
e as contempladas no domínio da agenda temática 2, simultaneamente, aumentar o potencial
económico da agricultura e limitar a pressão para o abandono da terra e a diminuição do número
de agricultores.
No setor agroalimentar, coexiste uma agricultura profissional com alguma escala, que assegura
a grande parte do abastecimento alimentar e tem potencial exportador, e uma agricultura exercida
para complementar outros rendimentos, de pequena dimensão, de cariz familiar, que tem um papel
essencial na ocupação do território e na coesão social e no abastecimento dos mercados locais.
Estas agriculturas são estruturantes no desenvolvimento económico territorial e na produção de
produtos locais e tradicionais.
É fundamental preservar estas duas realidades, através de uma atividade produtiva suportada
no princípio de uma gestão ativa do território e numa produção agrícola e florestal inovadora e sus-
tentável, assegurando não só a produção de alimentos mas também a produção de bens públicos
em articulação com o resto da economia e comunidades locais.
Para manter uma agricultura sustentável em todo o território, há que proceder ao pagamento
de bens públicos com caráter regular, apoiar a agricultura familiar, os circuitos curtos e mercados
locais, a agricultura biológica e outros modos de produção sustentáveis, bem como os produtos
tradicionais e outros recursos endógenos a valorizar. Desse modo, as intervenções envolvem a rees-
truturação e modernização de infraestruturas do setor, incluindo melhoria na eficiência dos recursos,
e o fornecimento de um nível adequado de bens públicos pela atividade agrícola. Nas condições
climatéricas adversas em que se realiza a agricultura nacional, determinados tipos de sistemas
de produção não são viáveis sem o recurso a sistemas de irrigação que realizem artificialmente
a distribuição da água ao longo do tempo. Ou seja, sistemas que transportem a água que cai em
abundância nos meses de inverno e que é retida em barragens, represas ou mesmo aquíferos
subterrâneos, e distribuam a sua disponibilidade ao longo do ano, nomeadamente durante os pe-
ríodos com temperaturas mais favoráveis ao crescimento e desenvolvimento das plantas. Assim,
estes sistemas tornam-se muito menos dependentes da variabilidade das condições climatéricas
que se verifica de ano para ano, dando sustentabilidade económica ao desenvolvimento de certos
territórios que, sem este tipo de recurso, passariam por processos de abandono.
Relativamente à gestão sustentável das florestas, as intervenções visam potenciar o papel
que os recursos florestais desempenham enquanto recursos globais que fornecem uma gama va-
riada de benefícios ambientais, culturais, económicos e sociais e de produtos naturais renováveis,
como madeira, combustíveis, fibras, recursos alimentares e químicos, com inúmeras aplicações e
com uma clara influência na vivência das comunidades rurais. Ao nível do ecossistema, fornecem
serviços vitais, designadamente no combate à desertificação, proteção de cursos de água, regula-
ção climática, manutenção da biodiversidade e preservação de valores sociais e culturais. Nesse
quadro, as intervenções envolvem a promoção do ordenamento florestal, através da promoção de
uma gestão florestal ativa, incluindo uma melhor gestão da carga de combustível e de uma paisa-
gem diversificada e em mosaicos, a promoção de cadeias económicas diversificadas e com valor,
pela promoção da inovação e a capacitação dos agentes da fileira e a promoção da utilização dos
produtos florestais no âmbito da economia circular, incluindo a bioeconomia, e o potenciar do efeito
de sumidouro das florestas, pela proteção e reabilitação dos ecossistemas florestais.
No que se refere à utilização eficiente de recursos nos setores agrícola, alimentar e florestal,
as intervenções enquadram-se numa lógica de aprofundamento da gestão eficiente e sustentável
dos recursos, da proteção ambiental, da adoção de processos e técnicas inovadoras nesta matéria,
nomeadamente a agricultura de precisão, a valorização de subprodutos agrícolas e florestais e o
incentivo à utilização e produção de fontes de energias renováveis, que permita uma intensificação
sustentável da produção, envolvendo a adaptação aos efeitos das alterações climáticas, reforçando
o papel de sumidouro de carbono pelo setor agroflorestal e contribuindo para a resiliência dos
territórios, a promoção do desenvolvimento sustentável, numa lógica de uma gestão eficiente de
recursos naturais, como a água, os solos e o ar, e o potenciar da bioeconomia sustentável e circular
no complexo agroflorestal e também agroalimentar, na ótica da redução do desperdício alimentar.
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As bacias hidrográficas de Portugal continental estão sujeitas a pressões ambientais de vá-
rias origens, sendo conhecidos alguns problemas persistentes ligados às práticas de atividades
agropecuárias e agroindustriais.
A Estratégia Nacional para os Efluentes Agropecuários e Agroindustriais 2030 (ENEAPAI
2030) dá ênfase à urgência na resolução da situação ambiental conhecida e define uma estratégia
sustentável para o período até 2030, porque assume como principal meta a melhoria significativa
da qualidade das massas de água das regiões hidrográficas do País, idealmente e de acordo com
as metas definidas pela Diretiva-Quadro da Água até 2027, contemplando o território nacional
continental e abrangendo, enquanto atividades prioritárias imediatas, as atividades realizadas
em regime de produção intensivo dos setores da suinicultura e da bovinicultura, em particular as
explorações pecuárias que ainda não dispõem de soluções que assegurem o cumprimento da
legislação em vigor.
Por último, quanto à proteção dos ecossistemas e da biodiversidade, as intervenções envolvem
a valorização de bens públicos ligados à proteção das paisagens, biodiversidade e serviços ligados
aos ecossistemas, através da melhoria do estado de conservação dos ecossistemas agrícolas e
florestais, bem como da promoção dos serviços a eles associados, contribuindo para a proteção
e conservação do solo e o combate à desertificação, da promoção da proteção da biodiversidade
doméstica (vegetal e animal) e da remuneração da produção adequada de bens públicos que per-
mitam a manutenção de produção por razões de fragilidade conjuntural ou de gestão territorial, e
a proteção, manutenção e restauro dos sítios da rede Natura 2000.
3.3.5 — Economia do mar sustentável
A agenda, neste domínio, tem por objetivo assegurar a sustentabilidade ambiental dos recursos
marinhos, articulando-a com o reforço do potencial económico estratégico da economia do mar
prosseguido no âmbito da agenda temática 2.
Para isso será estabelecida a Rede Nacional de Áreas Marinhas Protegidas no mar português
e definidos os respetivos planos de gestão, de forma a proteger os principais habitats e ecossiste-
mas marinhos vulneráveis e dar cumprimento aos compromissos assumidos no âmbito das Nações
Unidas de abranger 14 % até 2020 e 30 % até 2030.
Se para Portugal o mar significa um potencial de oportunidades e crescimento, associados a
investigação e inovação, emprego, lazer e oportunidade para o crescimento e a criação de riqueza,
aumentando o valor acrescentado dos produtos da pesca e da aquicultura e I&I, e a exploração
de novos recursos e novas aplicações, tem também de significar preservação da biodiversidade e
garantia da sustentabilidade. O mar é uma das principais fontes de material de base biológica que
urge preservar e valorizar. Acima de tudo, o mar alberga serviços ecossistémicos e capital natural
que, se bem geridos, permitirão a Portugal prosperar e ter um papel de destaque numa década
marcada pelas alterações climáticas e pela escassez de alimento.
Os mares e oceanos são também elementos estabilizadores de processos biogeofísicos, como
o do ciclo do carbono, que hoje estão enfraquecidos: acidificação, aumento da temperatura média,
presença de plásticos e menos oxigénio são consequências da poluição ligada ao uso intensivo
de fertilizantes em terra, às descargas de poluentes, às alterações climáticas, entre outros fatores.
Ora, o potencial do mar apenas poderá concretizar-se se os oceanos permanecerem sistemas
estáveis e resilientes, de onde se possa explorar recursos de forma suficiente e eficaz, garantindo
a sustentabilidade e a preservação dos valores fundamentais do ambiente marinho.
Adicionalmente, a pesca tem de ser apoiada na sua modernização e restruturação, face às
reais oportunidades de pesca, e a pesca artesanal tem de ser protegida, garantindo a sustentabi-
lidade das inúmeras comunidades piscatórias das zonas costeiras.
Por outro lado, a aquicultura nacional, nas suas vertentes mais inovadoras e sustentáveis,
incluindo a aquacultura integrada multitrófica e a offshore, tem capacidade para produzir muito mais,
diminuindo o peso das importações nacionais de matéria e promovendo a capacidade interna na
produção alimentar.
A preservação e valorização deste recurso exige assim uma intervenção articulada que com-
bine as intervenções focadas no aumento do potencial económico estratégico da economia do mar,
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prosseguidas no âmbito da agenda temática 2, com as intervenções focadas na sustentabilidade
que constituem o âmbito deste domínio.
Tendo em conta estes objetivos, serão prosseguidos os seguintes eixos de intervenção:
• Apoiar a reestruturação da pesca artesanal e as artes de pesca seletivas para uma pesca
sustentável e contribuir para a valorização do pescado;
• Promover a modernização das frotas de pesca com embarcações com eficiência energética,
digital e rendimento justo;
• Promover a I&I e a prospeção de novos recursos e novas aplicações;
• Promover a utilização sustentável dos recursos e a biodiversidade marinha;
• Promover uma pesca e uma aquicultura eficientes em termos de recursos, inovadora, com-
petitiva e baseada no conhecimento.
Estas intervenções terão como metas a renovação/modernização de 25 % da frota ativa de
pequena pesca, o aumento em 5 % do número de postos de trabalho nas principais comunidades
piscatórias, o aumento do nível de qualificação nos setores da pesca e aquicultura nacionais, a
redução a zero dos segmentos da frota em desequilíbrio, o incremento da produção aquícola até
às 25 000 t, a diminuição da importação de pescado e o aumento das exportações, a classificação
de 30 % do espaço marítimo como áreas marinhas protegidas até 2030 e atingir o bom estado
ambiental das águas marinhas até 2024.
Quanto ao apoio à pesca artesanal, às artes de pesca sustentáveis e à valorização do pescado,
as intervenções visam a manutenção em atividade deste segmento orientado para a exploração
sustentável dos recursos, com a adaptação da frota e a modernização dos portos de pesca, das
primeira e segunda vendas do pescado a níveis adequados de segurança, habitabilidade, eficiência
energética, melhoria das condições de trabalho e de conservação, higiene e segurança alimentar,
contribuindo para uma maior valorização do pescado no produtor. As intervenções neste eixo visam
ainda a promoção do desenvolvimento de atividades económicas complementares e/ou alternativas
à pesca, criando postos de trabalho dirigidos para os profissionais do setor.
Relativamente à promoção da I&I e da exploração de novos recursos e novas aplicações,
as intervenções serão articuladas com as prosseguidas no quadro da agenda temática 2, que
privilegiam os tópicos determinantes para a valorização da cadeia de valor da economia do mar,
alicerçados em clusters de base produtiva e tecnológica, envolvendo o desenvolvimento de sis-
temas de alerta precoce de perigos naturais no quadro da mudança climática, a conservação da
biodiversidade, o desenvolvimento de novos modelos de exploração e financiamento sustentável
e assentes em tecnologias inovadoras de impacto carbónico positivo, a promoção da sustentabi-
lidade das funções e serviços dos ecossistemas marinhos e a contribuição para a base científica
do ordenamento do espaço marinho, a investigação de novos produtos alimentares e nutricionais
sustentáveis de origem marinha, seguros, com valor nutricional e segurança alimentar, garantindo
a rastreabilidade dos produtos, e desenhados à medida das necessidades dos consumidores, e
o desenvolvimento de novas ferramentas de monitorização dos subsistemas terrestres, com foco
na região med-atlântica.
No que se refere à promoção da utilização sustentável dos recursos e da biodiversidade marinha,
as intervenções visam garantir o bom estado ambiental das águas marinhas do Atlântico Nordeste,
constituindo-se como um oceano dinâmico e ecologicamente diverso, limpo, são e produtivo nas
suas condições intrínsecas, envolvendo o funcionamento dos seus ecossistemas, o aumento da
capacidade científica e técnica para um melhor e maior conhecimento do oceano, o incentivo à
redução do lixo marinho no espaço Atlântico, envolvendo a participação cívica e das comunidades
diretamente afetadas, a execução do Plano de Situação do Ordenamento do Espaço Marítimo e o
reforço da Bioeconomia Azul e da Literacia do Oceano.
Por último, no que respeita à promoção de uma pesca e uma aquicultura ambientalmente
sustentáveis e eficientes em termos de recursos, as intervenções visam prosseguir o objetivo de
recuperar e manter as espécies ao nível do «Rendimento Máximo Sustentável» e o bom funcio-
namento dos ecossistemas, em linha com a Política Comum das Pescas, envolvendo uma gestão
da frota articulada com a conservação e exploração sustentável dos recursos biológicos marinhos,
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assegurando a modernização e competitividade do setor, a garantia de acesso a infraestruturas
e equipamentos de apoio adequados, a disponibilidade de dados e de conhecimento científico
imprescindíveis à gestão sustentável das pescarias e ao melhor aproveitamento dos recursos e
apoiar o desenvolvimento de sistemas eficientes de controlo, a promoção e o desenvolvimento
de uma aquicultura sustentável e competitiva, capaz de fornecer aos consumidores produtos se-
guros e de elevado valor nutricional, e melhorar a informação ao consumidor e a rastreabilidade
dos produtos da pesca e da aquicultura.
3.4 — Agenda temática
Um país competitivo externamente e coeso internamente
Esta agenda temática tem por visão potenciar a competitividade externa e a coesão interna
do conjunto do território nacional.
A estratégia de desenvolvimento do País quer potenciar a competitividade de cada um dos
seus territórios e assegurar níveis elevados de coesão. Apesar da sua dimensão, o território por-
tuguês está longe de ser um território homogéneo, apresentando uma elevada diversidade que
importa explorar.
Neste contexto, sublinha-se a importância das estratégias regionais de especialização in-
teligente, como elemento diferenciador do território, focando as prioridades de política pública e
a alocação de recursos em atividades de maior valor acrescentado e/ou de maior potencial de
crescimento. Importa assim, aumentar a consistência dos ecossistemas de inovação regionais e
encontrar respostas ajustadas à realidade dos recursos e da sua qualificação. A concentração dos
processos de investigação e transferência e dos mecanismos de descoberta empreendedora tem-
-se demonstrado um instrumento adequado à coesão competitiva dos territórios.
Assumem relevância nesta agenda a promoção da competitividade das redes urbanas, pro-
jetando externamente o País a partir da faixa atlântica e aproveitando o potencial geográfico e
económico das Regiões Autónomas, mas também a promoção do desenvolvimento dos territórios
de baixa densidade/interior, potenciando as cidades médias, com base no potencial endógeno e
na diversificação da base económica, melhorando a cooperação transfronteiriça e a ligação ao
mercado ibérico. Para favorecer a competitividade e a coesão do território pretende-se concluir as
ligações rodoviárias aos portos, aos parques de inovação, empresariais e industriais, bem como um
conjunto de ligações rodo e ferroviárias necessárias para a estruturação funcional dos territórios,
e ainda a conectividade digital de qualidade em todo o território nacional.
A expansão urbana e crescimento das áreas de edificação dispersa nas últimas décadas em
Portugal determinaram um aumento substancial do conjunto de infraestruturas e equipamentos,
desde vias de comunicação e equipamentos de fins diversos a redes de abastecimento e drenagem
de águas residuais e de águas pluviais, de forma a servir as populações que se distribuíam pelo
território, nomeadamente nas periferias das cidades, muitas vezes de forma desordenada.
Os territórios da baixa densidade/interior enfrentaram nas últimas décadas um círculo vicioso
de quebras de emprego, perda populacional e degradação da provisão de serviços públicos e
privados com consequência direta na atratividade destes territórios. De facto, os processos de
reorganização territorial das redes de serviços públicos (educação, saúde, justiça, etc.), no sentido
da sua maior concentração (e consequente alargamento das respetivas áreas de influência), condu-
ziram ao encerramento de diferentes unidades em diversos locais, comprometendo muitas vezes,
apesar das mudanças registadas ao nível dos sistemas de mobilidade, os patamares mínimos de
acesso, equidade e cobertura. Com efeito, a escassez da procura e de escala bem como a fraca
conectividade digital em diversas zonas do País têm desincentivado o surgimento de respostas que
permitam manter níveis de acesso adequados, em diferentes domínios, contribuindo para gerar e
reforçar dinâmicas de exclusão e desigualdade, que por sua vez tendem a agravar os fenómenos
de abandono e a dificultar, cada vez mais, a fixação das populações.
A escassez populacional destes territórios constitui, atualmente, o principal obstáculo à sua
atratividade enquanto destino de investimento e, consequentemente, a estratégias de desenvolvi-
mento sustentáveis dos mesmos.
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A inversão deste círculo vicioso exige abordagens integradas de competitividade e coesão e
fortes articulações entre estes territórios e os centros urbanos que o estruturam. Neste contexto,
importará garantir o pleno aproveitamento dos recursos endógenos destes territórios, bem como dos
recursos geológicos que as mesmas possuem, em pleno respeito pela sustentabilidade ambiental
dessas atividades económicas, com forte capacidade para gerar emprego e riqueza que potencie
o desenvolvimento destes territórios.
Importa também acompanhar os efeitos socioeconómicos nos territórios especialmente afe-
tados pelas medidas de política associadas à transição energética.
Relativamente ao desafio de projeção da faixa atlântica, a última década (2005-2015) marcou
um período próspero na atividade dos principais portos comerciais do continente, decorrida uma
década de investimentos cruciais para o desenvolvimento do setor, tendo registado um crescimento
global de 42 % no movimento total de mercadorias e uma taxa de crescimento média anual de
4 %. Atualmente, verifica-se uma crescente procura de armadores internacionais por terminais
hub na Europa, assim como um aumento do consumo interno nacional, da produção, do comér-
cio externo e das exportações, que criam pressão sobre os portos nacionais. Acrescem, ainda,
desafios globais, como a emergência de novas rotas marítimas globais como alternativa à Rota
do Mar do Norte, os constrangimentos físicos dos portos para acolhimento dos navios de grandes
dimensões, bem como a concentração e verticalização das grandes alianças marítimas mundiais.
As dimensões dos navios aumentarão a dependência e importância do denominado transporte
feedering (transporte «de alimentação») como componente da cadeia de transporte. A escolha do
porto com capacidade de resposta operacional a este desafio físico será decisiva, uma vez que
serão substituídos portos sem capacidade de resposta por portos com essa capacidade. Os portos
sul-europeus enfrentam a concorrência dos portos europeus e da evolução dos portos no Norte
de África. Nesse sentido, ocorrendo uma alteração dos padrões de logística e de comércio inter-
nacional, a função de transbordo e de feedering poderá também ser uma oportunidade para os
portos do Sul da Europa, particularmente para Portugal, face à tendência de congestionamento da
faixa portuária norte-europeia, considerando a sua capacidade de resposta à procura por navios
de grandes dimensões e à eficiência das ligações ao hinterland.
Noutro domínio, apesar dos investimentos efetuados em meios de monitorização marítimos
e marinhos utilizados para o desenvolvimento das competências e da estratégia nacional para o
mar, nas vertentes de defesa, segurança, proteção, salvaguarda marítima, extensão da plataforma,
desenvolvimento da economia do mar e apoio à política comum de pescas, existe uma enorme
desproporção entre os meios disponíveis e a extensão da área oceânica sob soberania e jurisdição
nacional.
No que respeita às áreas de fronteira entre Portugal e Espanha, as mesmas sobressaem em
termos de disparidades socioeconómicas e demográficas face aos restantes espaços da Península
Ibérica, condicionando as oportunidades de cooperação e de integração. Apesar de ser a fronteira
mais antiga e extensa da UE — apresenta 1234 km de extensão e representa 27 % do território
ibérico —, é apenas ocupada por 8 % da população dos dois Estados, correspondente a pouco mais
de 4 milhões de habitantes. Esta é uma diferença estrutural significativa relativamente ao resto da
Europa, onde historicamente as zonas mais populosas e prósperas são as de fronteira. Esta baixa
densidade assume particular relevância tendo em conta as dinâmicas das últimas décadas, que
apontam para situações de risco de grande parte das regiões transfronteiriças, fazendo antever
um agravamento do cenário de vulnerabilidade demográfica, social e económica, que ultrapassa
o problema da baixa densidade, e que se expressa no acentuado despovoamento, com variações
populacionais negativas, em particular a saída da população jovem, no envelhecimento e depen-
dência, com as regiões fronteiriças a observarem valores muito superiores às médias nacionais
e europeias dos indicadores de dependência (270 nestas regiões face a 153,2 na média nacional
e 125,8 na média UE), e no predomínio do rural, com quase 60 % do seu território a entrar nesta
categoria, e 50 % da sua população a residir em centros urbanos com menos de 10 mil habitantes
(à exceção de Badajoz, os principais centros urbanos da Península Ibérica não se localizam na
proximidade da fronteira), encontrando-se em geral pior infraestruturados em termos físicos e digi-
tais e apresentando maiores dificuldades de deslocação e de acesso aos equipamentos e serviços
e menor competitividade regional, com as regiões de fronteira de Portugal e Espanha a surgirem
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na cauda da Europa como territórios piores classificados ao nível de desempenho da inovação e
competitividade regional, sendo bem patentes as debilidades no seu tecido produtivo, mercado de
trabalho, sistema regional de inovação.
Estamos assim perante uma agenda de base territorial que consubstancia o modelo de de-
senvolvimento territorial adotado no PNPOT, e concretiza em cada um dos territórios nacionais os
objetivos das restantes três agendas temáticas. A plena implementação e eficácia das intervenções
envolverá o aprofundamento da descentralização de competências, no quadro de uma boa gover-
nação, mas também a adoção de modelos adequados de governação multinível que articulem as
intervenções às várias escalas territoriais.
Esta agenda será assim estruturada em quatro domínios fundamentais:
• Competitividade das redes urbanas;
• Competitividade e coesão na baixa densidade;
• Projeção da faixa atlântica;
• Inserção territorial no mercado ibérico.
Estes domínios materializam o objetivo de explorar as vantagens de cada um dos territórios
que compõem o todo nacional e valorizar essa diversidade para potenciar a competitividade do
País e, dessa forma, contribuir para o desenvolvimento harmonioso de Portugal.
3.4.1 — Competitividade das redes urbanas
Este domínio tem por objetivo central potenciar o papel das cidades e as zonas urbanas en-
quanto fatores de competitividade nacional.
A intervenção neste domínio decorre do reconhecimento do papel central assumido pelas
cidades enquanto centros de aglomeração da massa crítica necessária à competitividade, onde se
concentram também os desafios à sustentabilidade e com mais intensidade se sente a necessidade
de inclusão de grupos e comunidades desfavorecidas.
As cidades e as zonas urbanas concentram a população, são os principais centros de ne-
gócios, de desenvolvimento das atividades comerciais e de empreendedorismo, os espaços de
investigação e inovação, os territórios de educação superior e formação altamente especializada
e interação cultural e podem por isso desempenhar um papel central no crescimento e na criação
de emprego.
No quadro do fortalecimento do desenvolvimento urbano policêntrico e do reforço horizontal e
vertical das interações no âmbito do sistema urbano como meios essenciais para o desenvolvimento
sustentável e a coesão territorial, as metrópoles e principais cidades portuguesas devem conseguir
afirmar-se como motores e rótulas de internacionalização, competitividade e coesão de toda a base
territorial do País. Com base no princípio de economia de aglomeração e massa crítica, incluindo a
concentração institucional, infraestrutural e de recursos humanos mais qualificados, a competitivi-
dade global e de inovação do País depende da capacidade de o conjunto das áreas metropolitanas
e das principais cidades ver reforçada a sua inserção em redes globalizadas.
Por outro lado, os grandes desafios demográficos, climáticos, socioeconómicos e tecnológicos
que Portugal enfrentará nos próximos anos jogam-se de modo crítico nas cidades e na capaci-
dade da cooperação intermunicipal se assumir como o foco de referência estratégica subjacente
aos objetivos de estruturação urbana, competitividade, eficiência e equidade dos territórios e de
desenvolvimento sustentável do território.
Estes desafios exigem abordagens integradas, de base funcional e intermunicipal, que promo-
vam o adequado acesso das populações a serviços de interesse geral e o fornecimento de serviços
de interesse da economia local e, de forma articulada e complementar, de base local, que suscitem
o envolvimento e a participação dos atores locais na promoção da atratividade e da qualidade de
vida das suas cidades, no melhor aproveitamento dos recursos naturais e territoriais e na redução
da pegada ecológica das áreas urbanas e edificadas.
Assegurar que as cidades e zonas urbanas constituem espaços atrativos de cidadania e coe-
são, mitigando os fatores causadores de insegurança e exclusão, torna necessário que para além
de condições adequadas de acesso à habitação (previsto, na dimensão de garantia de acesso
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condigno, na agenda temática «As pessoas primeiro: um melhor equilíbrio demográfico, maior
inclusão, menos desigualdade») se promova o acesso a equipamentos e serviços de proximidade
de saúde, social, educação e desporto, permitindo que as comunidades urbanas se desenvolvam
de modo sustentável e integrado. No caso da saúde, importa considerar o domínio «Resiliência do
sistema de saúde» da agenda temática «As pessoas primeiro: um melhor equilíbrio demográfico,
maior inclusão, menos desigualdade» na qual está previsto o reforço da rede quer na perspetiva
do acesso quer na perspetiva do reforço da resiliência do SNS.
A temática da mobilidade é outro fator determinante para a atratividade e sustentabilidade das
cidades e para a articulação do sistema urbano, tendo de responder igualmente a novas exigências
em termos de saúde pública como se tornou patente durante a pandemia. Neste domínio deverá
ser tido em consideração o domínio «Descarbonizar a sociedade e promover a transição energé-
tica» da agenda temática «Sustentabilidade dos recursos e adaptação às alterações climáticas»
e, em particular, o eixo de intervenção «Promover a mobilidade sustentável». As intervenções que
visem promover a mobilidade urbana sustentável deverão ter em atenção a evolução que se prevê
no mercado de trabalho em termos de regimes de prestação de trabalho e como estas eventuais
alterações se repercutirão na procura de transportes públicos.
Aos municípios e suas associações, considerando a descentralização de competências em
curso, cabe um papel essencial, na fixação e atração de cidadãos, de atividades, de conhecimento
e de inovação.
As intervenções a desenvolver incidirão sobre as seguintes áreas-chave:
• Promover redes de cidades de conhecimento, digitalização e inovação;
• Promover a conectividade externa das cidades e das zonas urbanas, nomeadamente ao
nível da conectividade digital;
• Melhorar a atratividade e sustentabilidade das cidades e reforçar o sistema urbano e a arti-
culação urbano-rural;
• Apoiar a regeneração física, económica e social das zonas urbanas onde residam comuni-
dades desfavorecidas;
• Promover o papel dos atores da economia social nas redes urbanas, em particular na pres-
tação e gestão de serviços coletivos de interesse geral.
Relativamente à promoção de redes de cidades de conhecimento, digitalização e inovação, as
intervenções envolvem o potenciar dos centros de conhecimento e inovação nacionais, afirmando
as macrorregiões urbanas nacionais enquanto polos de afirmação e atratividade do País na era
da globalização e da economia do conhecimento, através, nomeadamente, do estabelecimento de
parcerias para a inovação urbana, da promoção dos seus ecossistemas de inovação e da organi-
zação do investimento em equipamentos estruturantes de suporte à digitalização e inovação.
No que respeita à promoção da conectividade externa das cidades e das zonas urbanas, as
intervenções envolvem o reforço e afirmação das infraestruturas de conectividade externa estrutu-
rantes do território nacional, nomeadamente os hub aeroportuários de Lisboa e Porto, bem como a
ligação ferroviária entre as duas macrorregiões urbanas nacionais, e na melhoria das infraestruturas
de conectividade digital no território nacional e nas ligações aos principais centros de produção de
conhecimento internacionais, com a implementação de conectividade de nova geração em Portugal
e a cobertura ininterrupta dos principais eixos rodoviários e ferroviários até 2025, e a substituição
dos cabos submarinos continente, Açores e Madeira (Anel CAM).
Quanto à melhoria da atratividade e sustentabilidade das cidades e reforço do sistema urbano
e da articulação urbano-rural, as intervenções envolvem a promoção da reabilitação do edificado,
contribuindo para a atratividade dos territórios e fixação de pessoas, o reforço, modernização e ca-
pacitação das redes de equipamentos e serviços de interesse geral que estruturem a prestação de
serviços nos territórios funcionais relevantes (com particular relevância na articulação urbano-rural,
nomeadamente nos territórios de baixa densidade/interior em que os centros urbanos desempenha-
rão um papel determinante na estruturação do território e do acesso aos serviços, nomeadamente
através do acesso à distância ou digital), a promoção da revitalização económica e qualificação
turística, comercial e cultural, a qualificação do ambiente urbano e do espaço público, através da
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promoção de corredores verdes que forneçam oportunidades para a atividade física e desportiva,
para a fruição da natureza e para o lazer. Especificamente no que se refere ao reforço do sistema
urbano nacional, as intervenções contemplarão a estruturação da mobilidade inter-regional de
pessoas e bens, com a promoção da acessibilidade equitativa, reforçando a rede do sistema de
mobilidade no território nacional para promover a equidade de acesso, de forma articulada com as
intervenções no domínio da mobilidade intraurbana contempladas na agenda 3. Envolvem ainda o
reforço da estruturação policêntrica do território, através de programas de investimento e financia-
mento das condições transversais (imateriais) de governança territorial e capacitação dos atores
com vista à efetiva territorialização das políticas públicas, do estabelecimento de acordos multinível
para a proximidade dos serviços e do desenvolvimento de ações inovadoras para a proximidade
dos serviços. A acessibilidade adequada a todos os serviços de interesse geral e, em particular,
aos serviços de saúde constitui uma prioridade.
Relativamente ao apoio à regeneração física, económica e social das zonas urbanas onde
residam comunidades desfavorecidas, as intervenções envolvem o combate à pobreza urbana
e à exclusão socioespacial nas cidades, através nomeadamente da promoção de programas
integrados de regeneração de áreas urbanas desfavorecidas, da dotação e qualificação dos
equipamentos e serviços de interesse geral e da promoção da integração de pessoas em situa-
ção de vulnerabilidade.
No que se refere à promoção do papel dos atores da economia social nas redes urbanas,
as intervenções envolvem a capacitação e modernização das entidades da economia social e a
dinamização das economias locais, potenciando a criação de empresas e emprego e a oferta de
um conjunto alargado de respostas sociais em contexto urbano, direcionadas sobretudo para os
grupos mais vulneráveis, tal como identificado no quadro da agenda temática 1, com um papel
determinante no combate às situações de pobreza, assim como na promoção da inclusão social e
da conciliação entre a atividade profissional e a vida pessoal e familiar.
3.4.2 — Competitividade e coesão na baixa densidade
As intervenções neste domínio visam promover a competitividade e coesão dos territórios da
baixa densidade/interior.
A assunção dos territórios de baixa densidade/interior como espaços de oportunidades e não
apenas como territórios problema, tendo como argumento o seu potencial endógeno e o aproveita-
mento do impulso que as novas normas sociais associadas à pandemia e às novas metodologias
de trabalho proporcionam como oportunidade para atrair e reter pessoas, constitui um imperativo
na definição de estratégias de desenvolvimento sustentável. Esta visão pela positiva, em que os
recursos endógenos, geológicos, naturais, patrimoniais e culturais se constituem como ativos na
dinamização económica por via da diferenciação, concorre diretamente para a afirmação dos terri-
tórios, quer pela valorização das produções locais de excelência quer enquanto destinos turísticos
sustentáveis.
Estes recursos associados aos territórios revestem diferentes naturezas — materiais e imate-
riais —, sendo que o seu potencial de valorização deve ocorrer de forma integrada e multissetorial.
Ao nível dos recursos materiais, incluem-se quer o património histórico-cultural edificado, que tanto
diz respeito a construções tradicionais, nomeadamente edificado ligado ao artesanato, à indústria,
à agricultura, à defesa, à religião, ao lazer ou simplesmente a um estilo arquitetónico ou à vida
coletiva, como bens móveis, dos quais se salientam os produtos que resultam da adaptação às
condições locais, às tradições culturais ou aos modos de preparação e transformação de produtos.
São exemplos de produtos as variedades vegetais regionais de plantas (frutos, legumes, etc.), as
raças autóctones e os produtos transformados (vinhos, queijos, produtos de charcutaria, etc.), muitos
dos quais merecedores de um reconhecimento de qualidade, ou ainda os produtos artesanais. Por
sua vez, a nível imaterial, incluem-se desde as técnicas e os «saberes-fazer» (e. g. criação das
paisagens, construção de edificado, fabrico de mobiliário, ou transformação de produtos da terra)
a todo o património imaterial e oral (tradições, músicas, literatura, formas de expressão, contos e
lendas, hábitos e costumes e as festividades cíclicas), que marcam a etnografia e testemunham
um sistema identitário presente nos territórios.
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No que diz respeito aos produtos locais associados a práticas de produção de um território
e à sua história, de onde se incluem os produtos agroalimentares e artesanais, estes têm, nos
últimos tempos, vindo a ganhar espaço e relevância no mercado. As questões relacionadas com
a segurança e qualidade alimentar, a busca pelo que é autêntico, genuíno e original, as memórias
associadas aos sabores, cheiros e texturas, as preocupações ambientais são elementos cada vez
mais valorizados e que condicionam as decisões dos consumidores. O mercado (de características
nicho), os produtores locais, os territórios devem não só tirar partido destas oportunidades como
potenciá-las e ampliá-las diversificando e qualificando as ofertas.
Nesse sentido, importa promover a valorização dos recursos existentes nesses territórios,
como alavancas de um desenvolvimento sustentável, e assegurar níveis adequados de provisão de
bens e serviços públicos que contribuam para reforçar a capacidade de estes territórios atraírem e
reterem população e atividades. De entre estes recursos, importa destacar os recursos geológicos,
cuja presença está particularmente concentrada nos territórios de baixa densidade/interior, importa
garantir condições para assegurar o seu mapeamento e potencial extrativo, garantindo as condições
necessárias para que a sua exploração possa ser feita à luz dos melhores padrões internacionais
de respeito pelo ambiente e para o desenvolvimento do cluster mineiro que potencie o desenvolvi-
mento de fileiras nacionais de valorização destes recursos, com forte impacto no desenvolvimento
e emprego dos diversos territórios.
O turismo, pelo efeito contágio a outros setores, tem particular relevância nestes territórios
quando centrado nos valores patrimoniais e paisagísticos em estreita articulação com a valorização
e integração das produções locais nas estratégias de promoção e afirmação dos territórios (gastro-
nomia, produtos locais de excelência, programas e eventos temáticos ligados aos produtos locais).
Surge mesmo como alavanca de um desenvolvimento sustentável, reforçando a capacidade destes
territórios em atraírem e reterem população, conhecimento, massa crítica e atividades geradoras
de emprego e dinamização económica dos territórios.
No contexto da baixa densidade, a política das cidades (incluindo vilas/sedes de concelho)
e os sistemas urbanos que as organizam apresentam uma relevância determinante no desenvol-
vimento e competitividade dos territórios, na medida em que são o garante da provisão de um
conjunto de serviços e infraestruturas fundamentais (infraestruturas, conhecimento, ambiente e
funções urbanas). Os territórios de baixa densidade/interior demográfica e as suas regiões são
tanto mais competitivos, na sua globalidade, se as suas cidades alavancarem o desenvolvimento
económico e social e estruturarem a provisão de serviços de interesse geral (e. g. saúde, educação,
social, desporto). Neste contexto, a importância de uma cidade nestes territórios não deriva tanto
da sua dimensão demográfica mas sim da forma qualitativa como se insere no sistema urbano
de proximidade e como se relaciona com os restantes territórios em termos qualitativos. No caso
da saúde, importa considerar o domínio «Resiliência do sistema de saúde» da agenda temática
«As pessoas primeiro: um melhor equilíbrio demográfico, maior inclusão, menos desigualdade»,
na qual está previsto o reforço da rede quer na perspetiva do acesso quer na perspetiva do reforço
da resiliência do SNS.
As cidades, neste contexto da baixa densidade, devem ser afirmadas como espaços com
uma qualidade urbanística e de vida alternativos às cidades do Litoral. É, aliás, importante dar-lhes
significado e valor nacional, dentro de uma perspetiva de seletividade e discriminação positiva,
tomando como fator importante a diversificação e tipificação.
Para prosseguir as prioridades e as apostas atrás referidas é fundamental garantir que todos
estes territórios de baixa densidade/interior dispõem de conectividade digital de qualidade, permi-
tindo a sua ligação ao mercado interno e global, novas formas de provisão de serviços públicos e
a promoção interna e externa dos recursos endógenos e das ofertas turísticas.
Neste domínio, serão prosseguidos os seguintes eixos de intervenção:
• Promover o crescimento económico e emprego com base no potencial endógeno e nas pos-
sibilidades que o teletrabalho pode proporcionar na fixação de trabalhadores qualificados atraídos
pelas características destes territórios, promovendo a valorização em toda a sua plenitude dos
recursos endógenos, com particular realce para a aposta no turismo enquanto elemento agregador
da estratégia de afirmação dos territórios;
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• Conservar, proteger, promover e desenvolver o património natural e cultural;
• Diversificar a base económica, promovendo o aparecimento de novas atividades geradoras
de valor e criadoras de emprego;
• Otimizar a gestão e prestação em rede dos serviços coletivos existentes nas áreas da edu-
cação, desporto, saúde, cultura, social e de índole económica e associativa, assegurando níveis
adequados de provisão de bens e serviços públicos e acesso às redes digitais, potenciando as
ligações rural-urbano;
• Potenciar o papel da economia social na gestão da rede de serviços coletivos.
No que respeita à promoção do crescimento económico e emprego com base no potencial endó-
geno, as intervenções envolvem a valorização e qualificação das produções locais de qualidade e dos
recursos naturais, a aposta em cadeias de valor completas estimulando a industrialização da atividade
produtiva e as dinâmicas de inovação tecnológica, potenciar as oportunidades de desenvolvimento
em torno dos recursos geológicos presentes no território, garantindo um modelo de exploração que
respeite o ambiente, a melhoria e alargamento do circuito comercial dos produtos locais, bem como a
sua integração em circuitos logísticos de âmbito mais lato, e o posicionamento do turismo como fator
de competitividade e alavanca das economias locais. Tendo em conta que muitos destes territórios
são territórios predominantemente rurais, a dimensão do desenvolvimento rural será central visando
as intervenções responder nesse contexto às fragilidades particulares apresentadas pelos territórios
rurais, em que a principal ameaça à sobrevivência está ligada ao despovoamento e envelhecimento da
população por inexistência de alternativas económicas e condições de bem-estar para os mais jovens e
o consequente esvaziamento económico, com repercussões na competitividade territorial, constituindo
uma ameaça à manutenção dos valores naturais, paisagísticos, culturais e económicos que lhe estão
associados. As intervenções neste domínio envolverão estratégias coordenadas entre os diferentes
agentes, setores e políticas com impacto nos territórios, promovendo a fixação de população, através da
criação de condições socioeconómicas que viabilizem as economias rurais, nomeadamente no que se
refere ao acesso aos serviços mas também providenciando as condições necessárias para aproveitar
a nova tendência para prestação de trabalho à distância, a medidas sociais e medidas de promoção
do empreendedorismo, e a promoção da atratividade do território e melhoria da qualidade de vida nas
áreas rurais, por via do apoio ao património material e imaterial das zonas rurais, aos serviços básicos
à população rural e à promoção do associativismo de base local em meio rural.
Relativamente à conservação, proteção, promoção e desenvolvimento do património natural e
cultural, as intervenções serão desenvolvidas em articulação com as abordagens preconizadas na
agenda temática 3 sobre este tema e pretendem valorizar o capital natural e cultural como ativos
estratégicos para promover o desenvolvimento dos territórios de baixa densidade/interior e para en-
frentar vulnerabilidades crónicas agravadas pelas alterações climáticas. Estas intervenções envolvem
a conservação e valorização do património natural e cultural através da melhoria do estado de con-
servação do primeiro, contrariando a perda de biodiversidade e incrementando o seu capital natural e
da reabilitação, requalificação e rendibilização do património histórico-cultural público, a promoção e
a valorização do património natural e cultural, através da requalificação de infraestruturas de suporte
à valorização e visitação de áreas classificadas, da promoção da criação artística e cultural do patri-
mónio material e imaterial e do apoio à produção e disponibilização de conteúdos e de elementos de
promoção turística dos territórios de elevado valor natural e cultural e paisagístico, e a afirmação do
valor económico e social do património natural e cultural, fomentando novas atividades geradoras de
valor económico e de emprego e concretizar novas formas de governança, suportadas em modelos
de gestão partilhada e seguindo o princípio de cooperação e intercâmbio.
Quanto à diversificação da base económica, as intervenções são supletivas em relação às
intervenções transversais a implementar no quadro da agenda temática 2, para responder às espe-
cificidades destes territórios. Têm por objetivo a melhoria do perfil da sua especialização produtiva,
atualmente caracterizado por um peso maioritário de atividades de baixo valor, e o reforço das
atividades transacionáveis, envolvendo a captação de investimento, o apoio à criação e atração
de emprego, a qualificação do tecido produtivo e o apoio aos ganhos de escala e procura de novos
mercados. Para tal, importa concluir as ligações rodoviárias aos parques de inovação, empresariais
e industriais e aos mercados abastecedores, para garantir melhores ligações destes territórios ao
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mercado interno e aos mercados internacionais. Nestes territórios assumirá ainda grande relevância
neste eixo a promoção da economia social e solidária enquanto agente promotor do desenvolvimento
da base económica dos territórios, sobretudo na valorização dos seus recursos endógenos.
No que se refere à otimização da gestão e prestação em rede dos serviços coletivos existen-
tes nas áreas da educação, desporto, saúde, cultura, social e de índole económica e associativa,
as intervenções serão articuladas com as desenvolvidas no domínio da competitividade das redes
urbanas e visam assegurar níveis de acesso adequados aos diferentes serviços públicos, através
de soluções integradas e flexíveis, bem como uma total cobertura destes territórios pelas redes di-
gitais, garantindo a equidade socioterritorial das regiões de baixa densidade e em declínio face às
restantes regiões do País, o desenvolvimento de respostas de proximidade articuladas e integradas,
numa lógica de flexibilidade e de adaptação às especificidades de contexto, tendo em vista reforçar
a coesão entre os aglomerados urbanos do Interior e as áreas rurais envolventes, o estabelecimento
de mecanismos transversais de governação integrada, que envolvam as diferentes áreas (educação,
saúde, proteção social, etc.), por forma a assegurar um funcionamento ágil e eficiente das respostas
de proximidade, a criação de condições que favoreçam a revitalização, diversificação e modernização
dos tecidos económicos locais, estabelecendo incentivos ao investimento e valorizando os recursos
e potencialidades dos territórios, e o desenvolvimento, ao nível das redes de transporte público, de
novos modelos de mobilidade local, mais flexíveis e mais capazes de responder às necessidades,
tendo em vista a reativação de fluxos entre os aglomerados urbanos e as áreas envolventes. Na sua
articulação com o domínio da competitividade das redes urbanas, envolve, igualmente, o reforço da
estruturação policêntrica do território, através de programas de investimento e financiamento das con-
dições transversais (imateriais) de governança territorial e capacitação dos atores com vista à efetiva
territorialização das políticas públicas, do estabelecimento de acordos multinível para a proximidade
dos serviços e do desenvolvimento de ações inovadoras para a proximidade dos serviços.
Já quanto ao potencial do papel da economia social, as intervenções envolvem a capacitação
e modernização das entidades da economia social existentes nestes territórios e a dinamização
das economias locais, potenciando a criação de empresas e emprego e a oferta de um conjunto
alargado de respostas sociais, direcionadas sobretudo para os grupos mais vulneráveis, tal como
identificados no quadro da agenda temática 1 mas tendo em conta as especificidades destes terri-
tórios, com um papel determinante no combate às situações de pobreza, assim como na promoção
da inclusão social e da conciliação entre a atividade profissional e a vida pessoal e familiar.
3.4.3 — Projeção da faixa atlântica
As intervenções no quadro deste domínio visam explorar a profundidade atlântica do litoral
nacional potenciada pelas regiões insulares para a projeção da economia portuguesa na economia
global, promovendo a competitividade externa portuguesa.
Portugal tem sob sua jurisdição cerca de 50 % das massas de águas marinhas do mar pan-
-europeu e cerca de 50 % dos respetivos solos e subsolos marinhos. Com uma localização estratégica
privilegiada na intersecção das principais rotas mundiais Norte-Sul Este-Oeste, essa posição sai
reforçada com o alargamento e aprofundamento do canal do Panamá, que em 2025 se estima, num
cenário moderado, venha a atingir 192,5 milhões de toneladas de carga contentorizada transportada
e que num cenário otimista poderá atingir 205,2 milhões de carga contentorizada. No entanto, esta
vantagem não é suficiente para dar resposta aos desafios e oportunidades que hoje se colocam
aos portos comerciais do continente.
Hoje Portugal terá de ir além do desenvolvimento das infraestruturas portuárias, devendo diferenciar-
-se e construir valor através da afirmação dos seus portos comerciais como plataformas logísticas
globais dos grandes operadores mundiais e da sua transformação em hubs aceleradores de negócios
e tecnologia, eficientes, inteligentes e sustentáveis, liderando a inovação no green shipping.
Nesse quadro, serão prosseguidos os seguintes eixos de intervenção:
• Melhorar a competitividade do sistema portuário e do transporte marítimo, promover as re-
des logísticas e das ligações rodoferroviárias a portos, explorando as oportunidades criadas pela
reconfiguração das grandes rotas marítimas de comércio internacional;
• Aproveitar o potencial geográfico e económico das Regiões Autónomas;
• Explorar e gerir a fronteira marítima.
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Relativamente à melhoria da competitividade do sistema portuário, as intervenções envolvem o
reforço da conectividade externa, das infraestruturas de conexão internacional e das ligações intra e
intermodais, promovendo uma mobilidade inteligente com a implementação de soluções inovadoras
e de novas tecnologias no ecossistema da mobilidade, a promoção e captação de operações de
homeport e de turnaround de cruzeiros.
Quanto ao aproveitamento do potencial geográfico e económico das Regiões Autónomas, as
intervenções visam explorar o posicionamento geográfico das duas Regiões Autónomas que poten-
ciam de forma muito vincada a dimensão atlântica do País, designadamente no contexto do Atlântico
Norte, com um valor geoestratégico sempre atual, que se evidencia num potencial ao nível da ex-
ploração científica e económica, no domínio marítimo e do espaço, e também numa capacidade de
gerar valor e emprego a partir das condições edafoclimáticas próprias. As intervenções envolverão
a melhoria das acessibilidades externas destas regiões com reforço das conectividades aéreas e
marítimas, e a integração num sistema de rede Hub-and-spoke no apoio a operadores de transporte
marítimo de pequena e média dimensão (fluxos atlânticos — norte/sul e este/oeste) (2).
No que respeita à exploração e gestão da fronteira marítima, tendo em conta que este é
um domínio complexo onde se conjugam defesa, segurança, proteção, salvaguarda e gestão de
recursos marinhos, entendendo-se os primeiros como condicionantes primários e garantes do de-
senvolvimento da economia do mar, as intervenções envolvem o assegurar a monitorização das
atividades marítimas nos espaços sob soberania ou jurisdição nacional, o assegurar a capacidade
de monitorização regular do estado dos recursos e ecossistemas marinhos, o aumento da capaci-
dade de monitorização sobre o tráfego marítimo-portuário, as atividades em curso e a capacidade
de vigilância, fiscalização e repressão de ilícitos marítimos e da criminalidade transnacional nos
espaços marítimos sob soberania ou jurisdição nacional e o aumento da segurança, proteção e
salvaguarda do meio ambiente nas zonas costeiras e ribeirinhas.
3.4.4 — Inserção territorial no mercado ibérico
Este domínio visa a aposta na centralidade ibérica dos territórios transfronteiriços com a identifi-
cação de projetos específicos, capazes de alavancar um novo paradigma na relação transfronteiriça
e de favorecer a coesão territorial destes espaços.
Se a projeção da faixa atlântica assume grande relevância para a projeção externa da economia
portuguesa, a projeção continental e, em particular, no mercado ibérico constitui uma oportunidade
que não pode igualmente deixar de ser explorada.
Os territórios de fronteira continental caracterizam-se pela maior proximidade ao mercado ibérico
e aos países do centro da UE, pelo que a exploração da importância estratégica e da localização
privilegiada destas nossas regiões fronteiriças continentais no contexto das relações ibéricas, ou
mesmo, em termos mais amplos, tendo em vista o aprofundamento do mercado único europeu,
não pode ser descurada.
Estes projetos devem ser capazes de concentrar os recursos disponibilizados e traduzi-los em
iniciativas capazes de mobilizar a ação concertada dos dois lados da fronteira, de modo a produzir
resultados que de outra forma não seriam atingíveis.
A ação neste domínio envolverá os seguintes eixos de intervenção:
• Adotar e implementar uma estratégia de orientação para o mercado ibérico dos territórios das
regiões de fronteira continental, promovendo o planeamento integrado da cooperação transfronteiriça
e incentivando a atividade económica nos territórios confinantes com Espanha;
• Melhorar as ligações rodoferroviárias transfronteiriças.
Relativamente à adoção e implementação de uma estratégia de orientação para o mercado
ibérico dos territórios das regiões de fronteira continental, as intervenções envolvem a promoção da
competitividade e atratividade dos territórios fronteiriços, a preservação e valorização dos recursos
naturais, patrimoniais e culturais comuns, o aumento da resiliência dos territórios fronteiriços aos
riscos e catástrofes, a eliminação de barreiras e custos de contexto à mobilidade transfronteiriça
e a intensificação da articulação e cooperação territorial. Estas intervenções estão previstas na
Estratégia Comum de Desenvolvimento Transfronteiriço Portugal-Espanha e articuladas com as
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prosseguidas no âmbito do domínio estratégico da competitividade e coesão nos territórios do
Interior, até porque estas regiões são fundamentalmente territórios de baixa densidade/interior,
mas pretendem explorar o potencial da cooperação transfronteiriça enquanto fator de aumento de
eficácia das mesmas, valorizado os fatores distintivos destes territórios.
No que respeita à melhoria das ligações rodoferroviárias transfronteiriças, as intervenções
têm como objetivo responder aos constrangimentos e desafios associados à projeção da economia
nacional e da inserção territorial no hinterland ibérico. Envolvem as dimensões de conectividade
ferroviária e conectividade rodoviária transfronteiriças para reforçar a conectividade externa e as
infraestruturas de conexão internacional. Relativamente às ligações ferroviárias, as intervenções
surgem articuladas com o desenvolvimento em curso de infraestruturas de cariz vário — portuário,
aeroportuário, ferroviário — na faixa atlântica do País, completando redes e assegurando a melhoria
da ligação do Litoral com o Interior Ibérico tanto na circulação de passageiros como de mercadorias,
potenciando os impactos das referidas infraestruturas.
4 — Financiamento e modelo de governação
A prossecução desta estratégia mobilizará instrumentos de natureza diversa, nomeadamente
legais, financeiros e fiscais, e envolverá a mobilização das diversas fontes de financiamento, no-
meadamente:
a) Fundos europeus:
i) Os fundos europeus do novo Acordo de Parceria (Fundos da Política de Coesão) e do PEPAC
(Fundos da Política Agrícola Comum e do Desenvolvimento Rural);
ii) Os fundos adicionais do pacote do Next Generation EU, principalmente do Instrumento
Recuperação e Resiliência (que financiará o PRR), do REACT e do Fundo de Transição Justa;
iii) Os fundos europeus de gestão centralizada, principalmente do Horizonte Europa e CEF
(Connecting European Facility);
b) Outros fundos nacionais: Orçamento do Estado e fundos específicos, nomeadamente o
Fundo Ambiental;
c) Empréstimos de instituições financeiras nacionais ou internacionais, como, por exemplo, o
Banco Europeu de Investimento;
d) Fontes de financiamento do setor privado.
As tarefas de acompanhamento, monitorização e avaliação da Estratégia Portugal 2030 benefi-
ciarão bastante do modelo de governação que nos termos da regulamentação comunitária aplicável
vai ser definido para os dois grandes instrumentos de execução — os Programas Operacionais do
futuro Acordo de Parceria e do PRR.
Serão assumidos como principais princípios orientadores a simplificação, orientação para
resultados, transparência e prestação de contas, subsidiariedade e responsabilização, segregação
das funções de gestão e prevenção de conflitos de interesse e sinergias entre fontes de financia-
mento nacionais e comunitárias.
Em termos formais, a Estratégia Portugal 2030 será objeto de monitorização com a apresen-
tação de um relatório anual de acompanhamento, que será apreciado em Conselho de Ministros.
(1) Programa de Estabilização Económica e Social (PEES), junho de 2020.
(2) Naturalmente que as Regiões Autónomas são abrangidas pelas restantes agendas, domínios e eixos da pre-
sente Estratégia, nomeadamente na promoção de estratégias próprias de competitividade e coesão territorial e sempre
atendendo às suas especificidades territoriais. Neste eixo, constam apenas as questões centrais do seu papel ímpar na
promoção da Estratégia Atlântica de Portugal.
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AMBIENTE E AÇÃO CLIMÁTICA