Diário da República, 1.ª série
Lei n.º 90/2021
- Data
- 2021-12-16
- Tipo
- Lei
- Emitente
- ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Texto integral (1868 palavras)
Lei n.º 90/2021
de 16 de dezembro
Sumário: Altera o regime jurídico aplicável à gestação de substituição, alterando a Lei n.º 32/2006,
de 26 de julho, que regula a procriação medicamente assistida.
Altera o regime jurídico aplicável à gestação de substituição, alterando a Lei n.º 32/2006, de 26 de julho,
que regula a procriação medicamente assistida
A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição,
o seguinte:
Artigo 1.º
Objeto
A presente lei procede à oitava alteração à Lei n.º 32/2006, de 26 de julho, que regula a pro-
criação medicamente assistida, alterada pelas Leis n.os 59/2007, de 4 de setembro, 17/2016, de 20
de junho, 25/2016, de 22 de agosto, 58/2017, de 25 de julho, 49/2018, de 14 de agosto, 48/2019,
de 8 de julho, e 72/2021, de 12 de novembro.
Artigo 2.º
Âmbito de aplicação
A presente lei aplica-se a cidadãos nacionais e a estrangeiros com residência permanente
em Portugal.
Artigo 3.º
Alteração à Lei n.º 32/2006, de 26 de julho
Os artigos 8.º, 14.º e 39.º da Lei n.º 32/2006, de 26 de julho, passam a ter a seguinte redação:
«Artigo 8.º
[...]
1 — [...].
2 — A celebração de negócios jurídicos de gestação de substituição só é admissível a título
excecional e com natureza gratuita, nos casos de ausência de útero, de lesão ou de doença deste
órgão ou outra situação clínica que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez da mulher.
3 — A gestante de substituição deve ser, preferencialmente, uma mulher que já tenha sido
mãe, sem prejuízo das concretas circunstâncias do caso o poderem impedir.
4 — (Anterior n.º 3.)
5 — A celebração de negócios jurídicos de gestação de substituição carece de autorização
prévia do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, entidade que supervisiona
todo o processo, a qual é sempre antecedida de audição da Ordem dos Médicos e da Ordem dos
Psicólogos e apenas pode ser concedida nas situações previstas no n.º 2 e desde que observadas
as disposições contratuais previstas no n.º 13.
6 — O pedido de autorização prévia para a celebração de contratos de gestação de substituição
é apresentado através de formulário disponível no sítio eletrónico do Conselho Nacional de Procriação
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Medicamente Assistida, que cria o respetivo modelo, subscrito conjuntamente pelos beneficiários
e pela gestante de substituição, devendo ser acompanhado da seguinte documentação:
a) Identificação dos beneficiários e da gestante de substituição;
b) Aceitação das condições previstas no contrato de gestação de substituição por parte dos
beneficiários e da gestante de substituição;
c) Documentação médica, com origem no centro de PMA no qual as técnicas de PMA neces-
sárias à concretização da gestação de substituição serão efetuadas, destinada a comprovar que
estão preenchidas as condições previstas nos n.os 2 e 4;
d) Declaração do diretor do centro de PMA no qual as técnicas de PMA necessárias à con-
cretização da gestação de substituição serão efetuadas, aceitando a concretização nesse centro
dos tratamentos a realizar.
7 — (Anterior n.º 5.)
8 — (Anterior n.º 6.)
9 — Sem prejuízo do disposto no número seguinte, a criança que nascer através do recurso
à gestação de substituição é tida como filha dos respetivos beneficiários.
10 — No tocante à validade e eficácia do consentimento das partes é aplicável à gestação de
substituição, com as devidas adaptações, o disposto no artigo 14.º, com exceção do previsto no seu
n.º 4 sobre o consentimento livremente revogável, sendo que nos casos de gestação de substituição
o mesmo pode acontecer, por vontade da gestante, até ao registo da criança nascida.
11 — Os direitos e os deveres previstos nos artigos 12.º e 13.º são aplicáveis, com as devidas
adaptações, aos beneficiários dos contratos de gestação de substituição, sendo os direitos e os
deveres da gestante de substituição os que se encontram previstos nos artigos 13.º-A e 13.º-B.
12 — (Revogado.)
13 — A celebração de negócios jurídicos de gestação de substituição é feita através de contrato
escrito, estabelecido livremente entre as partes, supervisionado pelo Conselho Nacional de Procria-
ção Medicamente Assistida, onde constam, obrigatoriamente, entre outras, cláusulas tendo por objeto:
a) As obrigações da gestante de substituição no que respeita ao cumprimento das orientações
médicas do obstetra que segue a gravidez e da realização dos exames e atos terapêuticos por
este considerados indispensáveis ao correto acompanhamento clínico da gravidez, tendo em vista
assegurar a evolução normal da gravidez e o bem-estar da criança;
b) Os direitos da gestante de substituição na participação nas decisões referentes à escolha
do obstetra que segue a gravidez, do tipo de parto e do local onde o mesmo terá lugar;
c) O direito da gestante de substituição a um acompanhamento psicológico antes, durante e
após o parto;
d) As obrigações e os direitos da gestante de substituição, tais como a possibilidade de recusa
de se submeter a exames de diagnóstico, como a amniocentese, ou a possibilidade de realizar
viagens em determinados meios de transporte ou fora do país no terceiro trimestre de gestação;
e) A prestação de informação completa e adequada sobre as técnicas clínicas e os seus po-
tenciais riscos para a saúde;
f) A prestação de informação ao casal beneficiário e à gestante de substituição sobre o sig-
nificado e as consequências da influência do estilo de vida da gestante no desenvolvimento em-
brionário e fetal;
g) As disposições a observar sobre quaisquer intercorrências de saúde ocorridas na gestação,
quer a nível fetal, quer a nível da gestante de substituição;
h) As disposições a observar em caso de eventual interrupção voluntária da gravidez em con-
formidade com a legislação em vigor;
i) A possibilidade de denúncia do contrato por qualquer das partes, no caso de se vir a verificar um
determinado número de tentativas de gravidez falhadas e em que termos tal denúncia pode ter lugar;
j) Os termos de revogação do consentimento ou do contrato em conformidade com a presente lei;
k) A gratuitidade do negócio jurídico e a ausência de qualquer tipo de imposição, pagamento ou
doação por parte do casal beneficiário a favor da gestante de substituição por causa da gestação
da criança, para além do valor correspondente às despesas decorrentes do acompanhamento de
saúde efetivamente prestado, incluindo em transportes;
l) Os subsistemas ou seguros de saúde que podem estar associados ao objeto de contrato;
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m) A forma de resolução de conflitos a adotar pelas partes em caso de eventual divergência
sobre a interpretação ou execução do negócio jurídico.
14 — O contrato referido no número anterior não pode impor à gestante de substituição normas
que atentem contra os seus direitos, nomeadamente os expressos no artigo 13.º-A.
Artigo 14.º
[...]
1 — [...].
2 — [...].
3 — [...].
4 — [...].
5 — O disposto nos n.os 1, 2 e 3 é aplicável à gestante de substituição nas situações previstas
no artigo 8.º, sendo, nestes casos, o seu consentimento livremente revogável até ao momento do
registo da criança nascida, estabelecido no n.º 10 do artigo 8.º
6 — [...].
Artigo 39.º
[...]
1 — [...].
2 — [...].
3 — Quem, enquanto beneficiário, concretizar contratos de gestação de substituição, a título
gratuito, fora dos casos previstos nos n.os 2, 4, 5, 7 e 8 do artigo 8.º é punido com pena de prisão
até 1 ano ou pena de multa até 120 dias.
4 — Quem, enquanto gestante de substituição, concretizar contratos de gestação de substi-
tuição, a título gratuito, fora dos casos previstos nos n.os 2, 4, 5, 7 e 8 do artigo 8.º é punido com
pena de multa até 120 dias.
5 — Quem promover, por qualquer meio, designadamente através de convite direto ou por
interposta pessoa, ou de anúncio público, a celebração de contratos de gestação de substituição
fora dos casos previstos nos n.os 2, 4, 5, 7 e 8 do artigo 8.º é punido com pena de prisão até 2 anos.
6 — [...].
7 — [...].»
Artigo 4.º
Aditamento à Lei n.º 32/2006, de 26 de julho
São aditados à Lei n.º 32/2006, de 26 de julho, os artigos 13.º-A e 13.º-B, com a seguinte
redação:
«Artigo 13.º-A
Direitos da gestante de substituição
1 — Constituem direitos da gestante de substituição, designadamente:
a) Ser corretamente informada sobre as implicações médicas, psicológicas, sociais e jurídicas
prováveis resultantes da celebração do contrato de gestação de substituição, nomeadamente dos
riscos de potenciais complicações na gravidez;
b) Ver concretizada a transferência de embrião em centro de PMA devidamente autorizado;
c) Ser assistida em ambiente médico idóneo que disponha de todas as condições materiais e
humanas necessárias e adequadas ao acompanhamento da gestação resultante do cumprimento
do contrato de gestação de substituição;
d) Ter acompanhamento psicológico antes, durante e após o parto;
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e) Ser acompanhada e ter acesso às prescrições feitas pelo médico responsável pelo acompa-
nhamento de doença de que venha a padecer durante a gravidez, ainda que tal possa comprometer
a viabilidade da gestação.
2 — A celebração, por parte da gestante de substituição, de negócios jurídicos de gestação
de substituição através de contrato escrito não diminui o exercício dos direitos fundamentais legal-
mente conferidos à mulher grávida ou puérpera, nomeadamente os de natureza social, laboral ou
de qualquer outra.
Artigo 13.º-B
Deveres da gestante de substituição
Constituem deveres da gestante de substituição:
a) Prestar todas as informações que lhe sejam solicitadas pela equipa médica responsável
pela transferência do embrião e todas as outras informações que entenda serem relevantes para
o êxito da técnica a que vai submeter-se;
b) Seguir todas as prescrições médicas determinadas pela equipa médica referida na alínea a);
c) Prestar todas as informações que lhe sejam solicitadas pelo médico responsável pelo acom-
panhamento da gravidez e seguir todas as prescrições médicas por este determinadas;
d) Observar os cuidados considerados normais, de acordo com as boas práticas médicas, da
sua condição de grávida, incluindo no que respeita à realização de viagens em determinados meios
de transporte no terceiro trimestre da gestação e ao estilo de vida a manter durante a gestação;
e) Informar os beneficiários da verificação de qualquer facto impeditivo ou modificativo do modo
de cumprimento do contrato de gestação de substituição, nomeadamente qualquer alteração no
seu estado de saúde que possa comprometer a viabilidade da gravidez.»
Artigo 5.º
Regulamentação
O Governo aprova, no prazo de 30 dias após a publicação da presente lei, a respetiva regu-
lamentação.
Artigo 6.º
Norma revogatória
É revogado o n.º 12 do artigo 8.º da Lei n.º 32/2006, de 26 de julho.
Artigo 7.º
Entrada em vigor
A presente lei entra em vigor no primeiro dia do mês subsequente à data da sua publicação.
Aprovada em 26 de novembro de 2021.
O Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.
Promulgada em 29 de novembro de 2021.
Publique-se.
O Presidente da República, MARCELO REBELO DE SOUSA.
Referendada em 7 de dezembro de 2021.
O Primeiro-Ministro, António Luís Santos da Costa.
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