Diário da República, 1.ª série
Lei n.º 59/2021
- Data
- 2021-08-18
- Tipo
- Lei
- Emitente
- ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Texto integral (4527 palavras)
Lei n.º 59/2021
de 18 de agosto
Sumário: Regime jurídico de gestão do arvoredo urbano.
Regime jurídico de gestão do arvoredo urbano
A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição,
o seguinte:
CAPÍTULO I
Disposições gerais
Artigo 1.º
Objeto
A presente lei estabelece o regime jurídico de gestão do arvoredo urbano.
Artigo 2.º
Âmbito de aplicação
1 — A presente lei é aplicável ao arvoredo urbano integrante do domínio público municipal e
do domínio privado do município e ao património arbóreo pertencente ao Estado.
2 — A presente lei caracteriza e regula as operações de poda, os transplantes e os crité-
rios aplicáveis ao abate e à seleção de espécies a plantar, estabelecendo a sua hierarquização.
Artigo 3.º
Exclusão do âmbito de aplicação
A presente lei não se aplica:
a) A árvores existentes em pomares, olivais e noutras culturas arbóreas e florestais destinadas
à exploração económica;
b) A espécies invasoras previstas no Decreto-Lei n.º 92/2019, de 10 de julho, que assegura
a execução, na ordem jurídica nacional, do Regulamento (UE) n.º 1143/2014, estabelecendo o
regime jurídico aplicável ao controlo, à detenção, à introdução na natureza e ao repovoamento de
espécies exóticas da flora e da fauna;
c) Em situações de emergência, relativamente a árvores ou ramos caídos ou em risco de
queda, em consequência de fogos rurais, acidentes ou condições meteorológicas anormais, desde
que a intervenção seja feita ou determinada pelos serviços de proteção civil do município respetivo
e que seja elaborado um relatório que fundamente a intervenção.
Artigo 4.º
Definições
Para efeitos do disposto na presente lei entende-se por:
a) «Abate», o corte ou derrube de uma árvore;
b) «Arborista», o técnico devidamente credenciado para a execução de operações de gestão
do arvoredo;
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c) «Área de proteção radicular mínima», a área útil da árvore, que equivale à projeção dos
limites da copa sobre o solo, podendo, em condições de terreno favorável, corresponder a uma
superfície calculada em duas vezes a dimensão da copa, ou, para as árvores «colunares e fas-
tigiadas», numa superfície com diâmetro de 2/3 a altura da árvore, sendo esta área diferente da
área de expansão radicular;
d) «Árvore», a planta lenhosa perene com tendência para a formação de um caule principal
distinto (tronco) limpo de ramos na parte inferior que, quando ramificado, deve sê-lo nitidamente
acima do solo;
e) «Copa», a parte da árvore que inclui a maioria dos ramos portadores de folhas e se desen-
volve a partir da zona do tronco onde se inserem as primeiras pernadas;
f) «Domínio público municipal», os espaços, equipamentos de utilização coletiva, infraestru-
turas e demais bens que nele se integram por determinação da Constituição ou de lei, e que se
encontram sujeitos a um regime jurídico especial tendente à salvaguarda e realização de interesses
públicos;
g) «Domínio privado do município», os espaços, equipamentos, infraestruturas e demais bens
de que o município é titular e que não integram o domínio público municipal, nos termos do disposto
na alínea anterior;
h) «Fitossanitário», relativo ao estado de saúde das espécies vegetais;
i) «Norma de Granada», o método de valoração de árvores e arbustos ornamentais, redigido
pela Asociación Española de Parques y Jardines Públicos, que tem em conta diversos fatores que
atribuem valor aos elementos vegetais, para além do valor da madeira, tais como valores paisa-
gísticos, ambientais, sociais e culturais;
j) «Património arbóreo», o arvoredo constituído por:
i) Árvores ou arbustos conduzidos em porte arbóreo, existentes em espaços verdes, arrua-
mentos, praças e logradouros públicos ou em terrenos municipais ou do Estado;
ii) Árvores ou conjuntos arbóreos com regime especial de proteção;
iii) Árvores situadas à margem das estradas nacionais e municipais, fora das áreas urbanas;
k) «Pernada», o ramo estrutural ou primário, inserido no tronco e que fornece sustentação à
copa;
l) «Poda», os cortes feitos seletivamente na árvore, tais como atarraques sobre gomos,
atarraques sobre ramos laterais e desramações, com objetivos técnicos específicos previamente
definidos;
m) «Poda em porte condicionado», a intervenção em árvores implantadas em espaços confi-
nados, como arruamentos nos centros urbanos, em que o seu crescimento é condicionado regu-
larmente através de reduções de copa, para permitir a coexistência com equipamentos urbanos
envolventes, e que, por afetar geralmente uma parte significativa da área fotossintética da árvore,
deve ser realizada obrigatoriamente em repouso vegetativo, com exceção de intervenções pontuais
de pequena dimensão para resolver conflitos de coabitação;
n) «Poda em porte natural», a intervenção em árvores implantadas em espaços amplos,
como jardins, parques e avenidas largas, conduzindo-as sem as reduzir nem alterar a forma típica
da espécie, consistindo na sua limpeza e arejamento para aumentar a permeabilidade ao vento
e a resistência a tempestades, mas sem cair em excesso de «arejamento/aclaramento», ou num
levantamento gradual da copa, para resolver eventuais conflitos dos ramos mais baixos com o
trânsito rodoviário ou pedonal, e que, por afetar uma parte pouco significativa da área fotossintética
da árvore, pode, até com vantagens, nomeadamente pela melhor visualização dos ramos mortos
e doentes a eliminar e pelo mais rápido recobrimento das feridas de corte, ser realizada depois do
abrolhamento primaveril;
o) «Repouso vegetativo», o período de redução sazonal drástica da atividade das plantas,
que, nas espécies adaptadas ao clima nacional, ocorre geralmente no inverno, quando as árvores
de folha caduca perdem toda a folhagem e as espécies de folha persistente têm menor atividade,
sem prejuízo da avaliação feita pelos técnicos competentes;
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p) «Sistema radicular», o conjunto de órgãos subterrâneos responsáveis pela fixação da planta
ao solo e pela realização da absorção de água e minerais;
q) «Substituição», a plantação de uma árvore no lugar de outra;
r) «Talhadia alta», «talhadia de cabeça», os termos que designam supressão da copa da árvore,
normalmente realizada em árvores adultas anteriormente conduzidas em porte natural, através
do corte de ramos de grande calibre, deixando-a reduzida ao tronco e pernadas estruturais, como
pernadas e braças;
s) «Rolagem», o termo popular que designa uma redução drástica da árvore, normalmente
realizada em árvores adultas anteriormente conduzidas em porte natural, através do corte de ra-
mos de grande calibre, deixando-a reduzida ao tronco e pernadas estruturais, sendo equivalente
a talhadia alta ou talhadia de cabeça;
t) «Transplante», a transferência de uma árvore de um lugar para outro.
Artigo 5.º
Princípios gerais
A atuação em matéria de arvoredo urbano e património arbóreo do Estado está subordinada
aos seguintes princípios:
a) Princípio da função social e pública do património arbóreo, que consagra os elementos
ecológicos, ambientais e climáticos do arvoredo e biodiversidade associada, essenciais ao desen-
volvimento social e à qualidade de vida dos cidadãos;
b) Princípio da proteção, que promove a defesa dos valores mais importantes do património
arbóreo, nomeadamente os presentes no arvoredo classificado;
c) Princípio da identificação, que promove o conhecimento, a classificação e a inventariação
dos elementos que integram o arvoredo e biodiversidade associada;
d) Princípio da precaução, que determina a adoção de medidas preventivas contra ações que
ponham em risco a proteção do arvoredo urbano e biodiversidade associada;
e) Princípio da responsabilidade, que promove a educação ambiental e a responsabilização
de quem, direta ou indiretamente, provoque danos ao arvoredo e biodiversidade associada;
f) Princípio do conhecimento e da ciência, que determina que as ações de planeamento e
gestão do arvoredo urbano tenham por base o conhecimento técnico e científico;
g) Princípio da adaptação ao meio, que promove a melhor escolha das espécies arbóreas
para o local onde vão ser plantadas, tendo em conta as características morfológicas das espécies
arbóreas, do solo e do espaço urbano envolvente;
h) Princípio da informação e da participação, que promove o envolvimento dos cidadãos no
desenvolvimento de políticas ambientais e o acompanhamento da concretização dessas políticas.
CAPÍTULO II
Instrumentos de gestão e planeamento
SECÇÃO I
Instrumentos orientadores
Artigo 6.º
Guia de boas práticas para a gestão do arvoredo urbano
1 — O guia de boas práticas para a gestão do arvoredo urbano, doravante designado por
guia de boas práticas, é aprovado pelo Governo no prazo de seis meses, mediante proposta do
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Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P. (ICNF, I. P.), em estreita articulação
com as comunidades intermunicipais e áreas metropolitanas, envolvendo ainda as entidades com
responsabilidade na gestão do arvoredo e na defesa do ambiente.
2 — O guia de boas práticas constitui uma referência para a elaboração dos instrumentos de
gestão municipal previstos na presente lei.
SECÇÃO II
Instrumentos de gestão
Artigo 7.º
Instrumentos de gestão
1 — São instrumentos de gestão do arvoredo urbano o regulamento municipal de gestão do
arvoredo em meio urbano e o inventário municipal do arvoredo em meio urbano.
2 — Os instrumentos de gestão referidos no presente artigo consideram as normas constantes
no guia de boas práticas e são revistos com uma periodicidade não superior a cinco anos.
Artigo 8.º
Regulamento municipal de gestão do arvoredo em meio urbano
1 — No âmbito das suas atribuições, compete aos municípios elaborar e aprovar um regula-
mento municipal de gestão do arvoredo em meio urbano, no prazo de um ano a contar da data da
publicação da presente lei.
2 — O projeto de regulamento municipal de gestão do arvoredo em meio urbano é elaborado
pela câmara municipal e submetido à aprovação da assembleia municipal.
Artigo 9.º
Conteúdo do regulamento municipal de gestão do arvoredo em meio urbano
O regulamento municipal de gestão do arvoredo em meio urbano inclui as regras técnicas e
operacionais específicas para a preservação, conservação e fomento do arvoredo urbano e, em
especial, os seguintes elementos:
a) Lista e planta de localização das árvores classificadas de interesse público e de interesse
municipal existentes no município;
b) Definição da estratégia municipal para o arvoredo urbano;
c) Identificação dos ciclos de manutenção;
d) Normas técnicas para a implantação e manutenção de arvoredo.
Artigo 10.º
Registo do regulamento municipal de gestão do arvoredo em meio urbano
1 — O regulamento municipal de gestão do arvoredo em meio urbano é registado junto da
área metropolitana ou da comunidade intermunicipal respetiva.
2 — A área metropolitana ou a comunidade intermunicipal respetiva dispõe de 30 dias para
se pronunciar sobre a sua conformidade com a presente lei ou eventuais imprecisões do regula-
mento, considerando-se o mesmo tacitamente aprovado se, findo aquele prazo, não tiver havido
pronúncia.
3 — O município, no caso de ser notificado na sequência da pronúncia prevista no número
anterior, dispõe de 60 dias para agir em conformidade e alterar o regulamento.
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4 — No caso previsto no número anterior, devolvido o regulamento pelo município à área me-
tropolitana ou à comunidade intermunicipal, esta entidade dispõe de 15 dias para se pronunciar,
nos termos previstos no n.º 2.
Artigo 11.º
Inventário municipal do arvoredo em meio urbano
1 — Os municípios elaboram um inventário completo do arvoredo urbano existente em domínio
público municipal e domínio privado do município, designado inventário municipal do arvoredo em
meio urbano, no prazo de dois anos após a entrada em vigor da presente lei.
2 — O inventário municipal do arvoredo em meio urbano inclui, nomeadamente, o número, o
tipo e a dimensão de espécies arbóreas existentes nas zonas urbanas e urbanizáveis do município.
3 — O inventário municipal do arvoredo em meio urbano deve ser publicado no sítio do muni-
cípio e incluir, pelo menos, as seguintes informações sobre cada um dos exemplares classificados:
a) Espécie e variedade;
b) Dimensões;
c) Idade aproximada;
d) Estado fitossanitário;
e) Geolocalização; e
f) Razões para a sua classificação.
4 — Compete a cada município elaborar:
a) Uma base de dados com elementos arbóreos classificados acessíveis ao público, contendo
uma listagem recomendada de espécies arbóreas e arbustivas adaptadas ou suscetíveis de adap-
tação às condições edafoclimáticas específicas do respetivo território;
b) Uma lista de espécimes arbóreos de interesse público e de interesse municipal, conside-
rando as respetivas prioridades de conservação e proteção.
Artigo 12.º
Divulgação do inventário municipal do arvoredo em meio urbano
1 — O inventário municipal do arvoredo em meio urbano deve ser publicitado em plataforma
online, criada para o efeito pelos municípios no respetivo sítio eletrónico, partilhada e atualizada
pela entidade responsável pela gestão do arvoredo urbano, devendo estar acessível em regime
de dados abertos.
2 — A plataforma referida no número anterior deve permitir:
a) Que os cidadãos coloquem questões e denunciem ocorrências relativamente aos exem-
plares arbóreos;
b) A emissão de alertas sobre intervenções a realizar, comunicadas com a antecedência mínima
de 10 dias úteis, exceto em casos de manifesta urgência.
Artigo 13.º
Consulta pública
1 — Os instrumentos de gestão do arvoredo urbano previstos na presente lei são sujeitos a
consulta pública.
2 — Para efeitos de consulta pública, as propostas de texto dos instrumentos de gestão refe-
ridos no número anterior são amplamente divulgadas e disponibilizadas nas sedes das câmaras
municipais e juntas de freguesia e por via eletrónica.
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3 — A consulta pública ocorre por um prazo mínimo de 30 dias.
4 — As autoridades locais devem criar mecanismos de participação ativa dos cidadãos no
processo de elaboração dos instrumentos de gestão do arvoredo urbano.
SECÇÃO III
Espécies arbóreas protegidas e árvores classificadas
Artigo 14.º
Preservação de espécies arbóreas
1 — A intervenção de poda ou abate de espécimes implantados em espaço público ou privado,
relativa às espécies arbóreas que mereçam especial proteção em legislação própria ou nos progra-
mas regionais de ordenamento florestal em vigor, carece de autorização do ICNF, I. P.
2 — A intervenção em exemplares arbóreos sob gestão municipal que implique o seu abate,
transplante, ou que de algum modo os fragilize, apenas pode ser promovida após autorização dos
municípios e com acompanhamento de técnicos qualificados para o efeito, que determinem os es-
tudos a realizar, as medidas cautelares a adotar e o modo de execução dos trabalhos, e procedam
à fiscalização da intervenção de acordo com a presente lei.
CAPÍTULO III
Gestão urbanística
Artigo 15.º
Operações urbanísticas
Qualquer operação urbanística que interfira com o domínio público ou privado do município
que contenha zona arborizada deve apresentar previamente um levantamento e caracterização da
vegetação existente, designadamente das espécies e respetivos porte e estado fitossanitário.
Artigo 16.º
Requisitos das operações urbanísticas
1 — As operações urbanísticas, independentemente da sua natureza, devem acautelar a pre-
servação dos exemplares arbóreos existentes, salvo se, numa base de hierarquização da vivência
do espaço público, se justificar a sua remoção, que deve ser fundamentada e documentada com
fotografias do exemplar e da situação condicionante que justifica e enquadra a necessidade da
sua remoção.
2 — Qualquer remoção que ocorra como previsto no número anterior deve ser sempre com-
pensada com a plantação de nova árvore nas proximidades do local, desde que não existam
condicionantes relativas a infraestruturas, à dimensão útil do espaço público, ao afastamento de
outros exemplares ou a questões fitossanitárias.
3 — Devem ser aproveitadas todas as oportunidades para aumentar o património arbóreo,
nomeadamente ao nível do estudo do espaço público municipal ou de cedência ao município.
4 — Os conceitos técnicos relativos à gestão e manutenção do arvoredo urbano e espaço
público devem estar determinados de forma inequívoca em sede de regulamento municipal, e todas
as intervenções com maior grau de complexidade devem ser sujeitas a fundamentação técnica de
acordo com a legislação aplicável.
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5 — A gestão e manutenção do arvoredo urbano municipal deve ser alvo de monitorização
contínua, sendo da competência da assembleia municipal a aprovação dos relatórios de continui-
dade produzidos com a periodicidade definida por cada município.
Artigo 17.º
Medidas de compensação
1 — Se um conjunto arbóreo for necessariamente afetado por obras de reparação ou por
operação urbanística de qualquer natureza que impossibilite a sua manutenção no local, deve
o mesmo ser compensado pela sua transplantação e ou plantação de uma área equivalente de
arvoredo no mesmo concelho, em área com características territorialmente semelhantes, devendo
o coberto arbóreo respetivo corresponder à projeção vertical das copas em metros quadrados
do existente.
2 — Caso haja necessidade de valoração de uma árvore ou conjunto de árvores, designada-
mente para determinação de compensação por abate ou dano causado ou para efeitos de análise
custo-benefício, esta é feita segundo os princípios orientadores da Norma de Granada, ou de acordo
com outro método de valoração reconhecido a nível internacional que, além do valor da madeira,
considere o valor paisagístico, ambiental, social e cultural do património arbóreo.
3 — Em caso de abate, é obrigatória a reposição de arvoredo que garanta a duplicação do
nível de sequestro de CO2, preferencialmente recorrendo a árvores nativas do concelho, num raio
não superior a 10 km.
CAPÍTULO IV
Gestão e manutenção de arvoredo urbano
SECÇÃO I
Entidades competentes
Artigo 18.º
Competência
Compete aos municípios, de acordo com os respetivos regulamentos municipais, a gestão e
a manutenção do arvoredo urbano, salvaguardadas as reservas constantes do artigo 14.º
SECÇÃO II
Intervenção no arvoredo urbano
Artigo 19.º
Coberto arbóreo e serviços ecológicos e climáticos
A gestão do arvoredo urbano está vinculada à não regressividade, nomeadamente:
a) O coberto arbóreo não pode ser inferior ao registado no inventário municipal do arvoredo
em meio urbano;
b) Os níveis de prestação de serviços ecológicos e climáticos pelo arvoredo urbano não podem
ser inferiores aos determinados pelo inventário municipal do arvoredo em meio urbano;
c) O coberto arbóreo e a capacidade de prestação de serviços ecológicos e climáticos pelo
arvoredo urbano devem ser incrementados.
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Artigo 20.º
Manutenção do arvoredo urbano
1 — Os trabalhos de intervenção no arvoredo urbano, nomeadamente plantação, rega, poda,
controlo fitossanitário, abate, remoção de cepos, limpeza e remoção de resíduos, devem ser exe-
cutados tendo em consideração o guia de boas práticas.
2 — A gestão e manutenção do arvoredo urbano em espaço público, ou em domínio privado
do município, devem ser executadas por técnicos devidamente preparados e credenciados para o
efeito, de acordo com a presente lei e, em especial, com as seguintes orientações:
a) Os trabalhos de avaliação e gestão do património arbóreo devem ser programados e fis-
calizados por técnicos superiores das autarquias ou das empresas prestadoras de serviços com o
nível adequado de habilitação académica em arboricultura urbana;
b) As intervenções no património arbóreo, tais como plantações, transplantes, fertilizações,
regas, manutenção de caldeiras, remoção de cepos e tratamentos fitossanitários, devem ser rea-
lizadas por jardineiros ou técnicos qualificados, e as que se revestem de maior complexidade, tais
como avaliações fitossanitárias e biomecânicas, podas, abates por «desmontagem» e transplante
de árvores de grande porte, devem ser executadas por técnicos arboristas certificados.
3 — Compete às entidades gestoras do arvoredo urbano, municípios ou outras, a realização
de inspeções periódicas por técnicos competentes da entidade gestora ou de entidade externa
reconhecida para o efeito, para avaliação do estado fitossanitário do arvoredo urbano e deteção de
eventuais problemas, nomeadamente que coloquem em causa a segurança de pessoas, animais
ou bens, bem como a definição das consequentes ações de melhoria e níveis de prioridade do
arvoredo urbano em relação à necessidade e periodicidade de monitorização.
Artigo 21.º
Podas
1 — A poda de árvores classificadas de interesse público ou municipal ou pertencentes a
espécies protegidas apenas é permitida por motivos de segurança, por necessidade de promover
a sua coabitação com os constrangimentos envolventes ou quando vise melhorar as suas carac-
terísticas, e desde que não resulte na perda da sua forma natural, carecendo de autorização do
ICNF, I. P., ou dos municípios.
2 — Excecionando-se os casos pontuais de necessária e urgente intervenção, a poda, seja
de formação, manutenção ou de reestruturação, é realizada na época adequada aos objetivos
definidos e de acordo com o guia de boas práticas.
3 — Para além das podas de formação essenciais para a boa estruturação das árvores mais
jovens e para a adequação precoce das mesmas aos condicionantes do ambiente urbano, as podas
de manutenção das árvores adultas só devem ocorrer quando haja risco de o arvoredo provocar
danos na sua envolvente, designadamente em pessoas, vegetação, estruturas construídas e outros
bens, quando haja necessidade de promover a sua coabitação com as estruturas urbanas envolven-
tes ou em casos de gestão tradicional do arvoredo em questão, nomeadamente as podas em porte
condicionado, realizadas regularmente para controlo do crescimento das árvores implantadas em
situações de elevado constrangimento ou para manutenção dos objetivos estéticos que presidiram
à escolha do modelo de condução seguido.
4 — As necessidades de poda de árvores são avaliadas pelos municípios ou pelo ICNF, I. P.,
conforme a competência e classificação do exemplar.
Artigo 22.º
Transplantes
O pedido de transplante de árvores deve incluir a sua justificação e todas as medidas a adotar
relativamente ao mesmo.
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Artigo 23.º
Abate
1 — O abate de espécimes arbóreos vivos em domínio público municipal, domínio privado do
município ou em domínio do Estado só deve ocorrer quando haja perigo potencial e comprovado
por análise biomecânica e ou de fitossanidade, elaborada por técnico com formação prevista na
presente lei, de o arvoredo existente provocar danos na sua envolvente, designadamente em pes-
soas, vegetação, estruturas construídas e outros bens.
2 — Sem prejuízo do disposto no número anterior, o abate pode ocorrer, mediante fundamen-
tação e cumpridos os requisitos da presente lei, quando as árvores em causa:
a) Constituam comprovadamente uma ameaça para pessoas, animais ou bens;
b) Afetem incontornavelmente a mobilidade urbana ou as estradas nacionais, se não existirem
alternativas viáveis à sua manutenção;
c) Apresentem comprovadamente baixa vitalidade e fraca condição fitossanitária e haja van-
tagens em apostar na sua substituição por árvores saudáveis, de espécies mais adequadas às
condições edafoclimáticas e de espaço existentes, de acordo com avaliação realizada mediante
aplicação do sistema de valoração de árvores em vigor.
3 — Os abates são executados após autorização da autoridade competente, com exceção
de casos urgentes, em que as árvores possam constituir perigo para a segurança de pessoas,
animais e bens.
Artigo 24.º
Proibições
1 — Nos termos da presente lei, não é permitido:
a) Abater ou podar árvores e arbustos de porte arbóreo em domínio público municipal, domínio
privado do município ou do Estado, sem prévia autorização do município ou do organismo do Estado,
e no cumprimento das regras de informação pública, designadamente os prazos de aviso prévio;
b) Realizar qualquer intervenção no solo e subsolo, na área correspondente à projeção vertical
das copas das árvores, sem autorização da entidade gestora do espaço onde estas se localizem;
c) Fazer mobilizações de solo profundas que afetem o sistema radicular das árvores instaladas
em parques e jardins, ou intervenções que removam a camada superficial do solo, exceto se houver
uma fundamentação técnica que obtenha parecer favorável da entidade fiscalizadora;
d) Colher, danificar ou mutilar qualquer árvore ou arbusto de porte arbóreo, designadamente
proceder a podas de talhadia de cabeça ou rolagem, excluindo-se, em casos pontuais e justificados:
i) As intervenções em árvores inseridas em espaços onde comprovadamente se mantenham
modelos tradicionais de condução típicas da matriz rural, como a «vinha de enforcado», a «cabeça-
-de-salgueiro» para produção de vime ou a «sebe arbórea» para proteção dos ventos;
ii) As podas de condução em forma artificial que obrigam a podas anuais rigorosas e que são
tradicionais em algumas zonas do País, correspondendo a um modelo de poda em porte condi-
cionado que, apesar de eliminar todos os ramos jovens, não implica o corte de ramos de grande
calibre e não se enquadra nas rolagens;
e) Prender ou fixar em árvores, ou tutores de árvores, qualquer tipo de objeto ou amarra que
interfira no lenho ou seja passível de causar outros danos na árvore.
2 — Do disposto no número anterior podem ser excecionadas situações urgentes ou em que
sejam colocados em risco pessoas, animais ou bens, quando devidamente justificadas e autorizadas
pelas autoridades competentes de acordo com a presente lei.
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CAPÍTULO V
Procedimento administrativo
SECÇÃO I
Iniciativa
Artigo 25.º
Pedidos de intervenção
1 — As pessoas singulares e coletivas solicitam autorização ao município, de acordo com o
regulamento municipal de gestão do arvoredo em meio urbano, através de requerimento próprio,
identificando a operação pretendida, sua tipologia e localização, sempre que esta se refira a in-
tervenção em domínio público municipal ou domínio privado do município ou quando se trate de
espécies classificadas, protegidas e ou consideradas de interesse municipal.
2 — Os municípios têm um prazo de 45 dias úteis para dar resposta aos requerimentos previstos
no n.º 1, considerando-se os mesmos deferidos no caso de a decisão não ser comunicada nesse
prazo, exceto quando se trate de abate de árvores, caso em que não há deferimento tácito.
SECÇÃO II
Fiscalização e processo contraordenacional
Artigo 26.º
Fiscalização
1 — Compete aos municípios, de acordo com o regulamento municipal de gestão do arvoredo
em meio urbano, a fiscalização dos atos por si autorizados e daqueles que tenham sido praticados
à sua revelia por qualquer pessoa singular ou coletiva, podendo para o efeito recorrer às forças
policiais, se necessário.
2 — Compete às forças policiais a fiscalização dos atos de gestão do arvoredo urbano efetua-
dos pelos municípios, juntas de freguesia e demais organismos da administração direta do Estado.
3 — As entidades gestoras do arvoredo urbano disponibilizam aos cidadãos formas de envio
de queixas ou denúncias por incumprimento da presente lei.
Artigo 27.º
Contraordenações
Sem prejuízo da responsabilidade civil e criminal a que haja lugar, o incumprimento das dis-
posições previstas na presente lei constitui contraordenação, em termos a definir pelo Governo no
prazo de 120 dias após a sua publicação.
CAPÍTULO VI
Estatuto profissional
Artigo 28.º
Profissão de arborista
No prazo de 120 dias após a entrada em vigor da presente lei, o Governo reconhece a profis-
são de arborista enquanto técnico credenciado para a execução de operações de manutenção de
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arvoredo e cria as bases para o desenvolvimento desta profissão, atribuindo ao Sistema Nacional
de Qualificações a responsabilidade de, no prazo de um ano, definir e homologar um percurso
formativo completo que confira aquela credenciação.
CAPÍTULO VII
Disposições transitórias e finais
Artigo 29.º
Norma revogatória
São revogadas as disposições legais ou regulamentares que disponham em sentido contrário
à presente lei.
Artigo 30.º
Entrada em vigor
A presente lei entra em vigor no dia seguinte ao da sua publicação.
Aprovada em 22 de julho de 2021.
O Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.
Promulgada em 8 de agosto de 2021.
Publique-se.
O Presidente da República, MARCELO REBELO DE SOUSA.
Referendada em 12 de agosto de 2021.
O Primeiro-Ministro, António Luís Santos da Costa.
114494557
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PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE MINISTROS