Autoridade Tributária e Aduaneira — informações vinculativas
Informação vinculativa n.º 27697
- Data
- 2025-06-27
- Meio processual
- INFORMAÇÃO VINCULATIVA
- Tipo
- CIRS
Sumário
Alienação onerosa de imóvel - aplicação do valor de realização na amortização de empréstimo de HPP de descendente fora do território português - Lei Mais Habitação
Texto integral (952 palavras)
INFORMAÇÃO VINCULATIVA
FICHA DOUTRINÁRIA
Diploma: Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares
Artigo/Verba: Art.10º - Mais-valias
Assunto: Alienação onerosa de imóvel - aplicação do valor de realização na amortização de
empréstimo de HPP de descendente fora do território português - Lei Mais Habitação
Processo: 27697, com despacho de 2025-06-25, do Chefe de Divisão da DSIRS, por
subdelegação
Conteúdo: Pretende o requerente que lhe seja prestada informação vinculativa quanto à
possibilidade de aplicar o valor de realização obtido com a venda de uma habitação
secundária em Portugal na amortização de crédito contraído para a aquisição de
habitação própria e permanente (HPP) de descendente, crédito esse referente a imóvel
situado em França.
Esclarece o seguinte:
- Em 2023/08/.. alienou o imóvel inscrito sob o artigo 47x/U/xxxxxx, situado em Portugal;
- Utilizou parte desse valor para liquidar o empréstimo bancário contraído pelo seu filho,
que reside também em França, para financiar a aquisição de HPP. O imóvel localiza-se
em França e o empréstimo foi obtido junto de instituição bancária francesa;
- Pretende beneficiar da exclusão de tributação em IRS, prevista na Lei n.º 56/2023, de
06/10, mas a Declaração Modelo 3 IRS de 2023, mais concretamente o quadro 19, não
contempla o local para declarar o reinvestimento em países estrangeiros.
Assim, solicita a informação vinculativa para esclarecimento desta matéria e a forma
correta de se proceder para que possa beneficiar do estipulado na Lei nº 56/2023, de
06/10.
INFORMAÇÃO
1. A Lei nº 56/2023, de 06/10, aprovou medidas no âmbito da habitação, com o objetivo
de garantir mais habitação, procedendo, para o efeito, a diversas alterações legislativas,
introduzindo, também, uma norma transitória de caráter fiscal, com o objetivo de auxiliar
as famílias com dificuldades no cumprimento das obrigações decorrentes do seu crédito
à habitação, precisamente, o artigo 50º;
2. Nesse sentido, a norma indicada consagrou uma exclusão de tributação em IRS dos
ganhos provenientes da transmissão onerosa de terrenos para construção ou de
imóveis habitacionais que não sejam destinados a habitação própria e permanente do
sujeito passivo ou do seu agregado familiar, desde que o valor de realização seja
aplicado na amortização de capital em dívida em crédito à habitação destinado à
habitação própria e permanente do sujeito passivo, ou dos seus dependentes, e desde
que tal ocorra no prazo de 3 meses, contados da data de realização, ou da data da
entrada em vigor da lei, nos casos de transmissões efetuadas até essa data;
3. Vejamos a letra da lei:
"1 - São excluídos de tributação em IRS os ganhos provenientes da transmissão
onerosa de terrenos para construção ou de imóveis habitacionais que não sejam
destinados a habitação própria e permanente do sujeito passivo ou do seu agregado
familiar, desde que verificadas, cumulativamente, as seguintes condições:
a) O valor de realização, deduzido da amortização de eventual empréstimo contraído
para aquisição do imóvel, seja aplicado na amortização de capital em dívida em crédito
Processo: 27697
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à habitação destinado a habitação própria e permanente do sujeito passivo, do seu
agregado familiar ou dos seus descendentes;
b) A amortização referida na alínea anterior seja concretizada num prazo de três meses
contados da data de realização.
(...)
3 - A Autoridade Tributária e Aduaneira pode exigir que os sujeitos passivos apresentem
documentos comprovativos, após a entrega da declaração modelo 3 de IRS de 2023 e
2024, da amortização de capital em dívida em crédito à habitação destinado à habitação
própria e permanente.
4 - O disposto nos números anteriores aplica-se às transmissões realizadas entre 1 de
janeiro de 2022 e 31 de dezembro de 2024.
5 - Nas transmissões efetuadas até à entrada em vigor da presente lei, a amortização
referida na alínea b) do n.º 1 tem de ser concretizada até três meses após a entrada em
vigor da presente lei.";
4. Da leitura da norma podemos retirar que estamos perante uma exclusão de
tributação que assume contornos de um benefício fiscal de facto, ou seja, uma norma
de caráter excecional e temporário, especialmente criada para a prossecução de
interesses públicos extrafiscais, superiores aos da tributação, que consistem na
assistência às famílias com elevados encargos com a sua habitação própria e
permanente, resultantes da súbita subida das taxas de juro;
5. Mais é possível extrair que o legislador visou, com essa norma, criar uma ajuda, pela
via fiscal, com o objetivo de apoiar as famílias que tenham a sua habitação própria e
permanente em Portugal a reduzirem os seus encargos, o que implica que a sua
aplicabilidade seja restrita aos casos em que a respetiva habitação própria e
permanente esteja situada em território português e nele tenha sido contraído o
empréstimo;
6. De acrescentar, por fim, que se o nº5 do artigo 10º do Código do IRS refere,
expressamente, a possibilidade de reinvestimento em HPP localizada em Estado
Membro da União Europeia, ou Estado Membro do Espaço Económico Europeu, o
artigo 50º da Lei nº 56/2023, de 06/10, não o refere, pelo que sai reforçada a convicção
que tal cenário - amortização em imóvel situado fora do território nacional, não está no
âmbito da previsão legal do dito regime;
7. Pelo exposto, é de concluir que não pode o requerente beneficiar da exclusão de
tributação prevista no artigo 50º da Lei nº 56/2023, de 06/10, atendendo a que o valor
de realização obtido com a venda da sua habitação secundária foi aplicado na
amortização do empréstimo contraído para a compra de imóvel que, embora possa ser
destinado à habitação própria e permanente do seu descendente, não está situado em
território nacional.
8. Em razão dos fundamentos apresentados o campo 19 do anexo G da declaração
modelo 3 de IRS apenas permite a inclusão de imóveis situados em território nacional.
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